Dori Caymmi

O homem que vem do mar

Dori Caymmi encerrou uma sequência de boas apresentações na segunda-feira: no palco, ele revela toda uma visão particular de seu mundo ( Foto: JL Rosa )
00:00 · 14.02.2018

Dori quer passear por composições que remetem a um Brasil hoje longínquo. Mostra-se interessado em cantar a herança deixada por Dorival, Jobim entre outros nomes sagrados da MPB. "Lembrar um pouco a importância destas pessoas", assume. Desde jovem dedicou-se aos estudos na música. Respirou de João Gilberto a Vinícius e, a partir dessa referência, edificou uma extensa e belíssima obra.

Compositor de trilhas sonoras, produtor, arranjador e diretor musical de destaque nos anos 1960 e 1970, leva ao palco toda uma visão particular de seu mundo. Na apresentação, entoa cada sílaba de modo tocante. O timbre de voz grave, envolvente, prossegue primordial.

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Em "Saudade de Amar", dedicada à irmã Nana, conjura uma interpretação cativante. Seja pela bossa, samba ou jazz, essa teia sonora vai a cada instante sendo processada. Mesmo executando canções tão doídas e nostálgicas, consegue com os quatro amigos entregar um show marcado pela sobriedade e leveza.

O mar, um tema tão presente no universo da família Caymmi é exaltado em "Quebra Mar", trilha da produção Bela Donna (1997), de Fábio Barreto. Abraçado do violão, o veterano explica que precisa de muito pouco para emocionar a plateia. Porém, essa aparente simplicidade guarda uma complexa sintonia entre sentimento, natureza e a música. "Danilo é do samba. Nana do samba canção. Eu sou da canção praieira, sou do mar", avisa aos presentes.

Dori se apresenta com naturalidade, torna-se imediatamente um velho amigo que gostamos de visitar, canta e dialoga para o interlocutor. "Eu Não Existo Sem Você" (Jobim) ecoa pela Cidade Jazz & Blues. "Fico feliz em existir uma juventude tão ligada com a sonoridade acústica. Saber que a música e a história de mestres do passado estão vivas", reflete.

O diálogo é bem-humorado, todavia, coberto de um teor crítico. Sensação essa que atravessa todo o set. Ao perguntar para os espectadores qual deveria ser o próximo tema, alguém grita por "Maracangalha". "Acho essa muito 'rebolativa' para o momento", explicou para em seguida tascar a inconfundível "O Bem do Mar". Irretocável.

Ouvimos "Marinheiragem", dobradinha entre ele e Paulo Cesar Pinheiro. "Velho Piano", "Sargaço Mar" também são recuperadas da memória. Presenciar este show é uma ventura, representa essa constante opção por projetar-se em cada canção. Nenhuma delas é tocada de modo vago, todas respiram o que este carioca observa ao redor.

A urbe carioca, tão exaltada em versos e prosas por inúmeros criadores significa um território distante. "A cidade não me inspira mais. Talvez se eu tivesse uns 21 anos, me engajaria numa luta por mudanças. Poxa, me lembro do Teatro Opinião, trabalhando do lado de Nara, Zé Keti, peitando militar naquele momento de golpe", recorda.

"Terceira idade é uma coisa. Minhas mãos doem, me atrapalham na hora de tocar", fala Dori Caymmi contraindo as mãos calejadas.

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