LITERATURA ESPANHOLA

O homem que era livro

18:56 · 06.03.2010
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Chega às livrarias "Doutor Pasavento", obra mais aclamada do escritor Enrique Vila-Matas. O autor catalão fala ao Caderno 3 sobre a obra, novos projetos, a recorrência da negação em seus textos e a ligação íntima entre vida e escrita

José Lino Grünewald (1931 - 2000), poeta, tradutor e crítico brasileiro, deu a um de seus poemas, da safra concretista, o nome de "Escreviver". A síntese promovida na palavra-valise, recurso que extrai sentidos inéditos da colisão de vocábulos, registrou não apenas uma prática estilística do poeta e daquela vanguarda. Ela definiu, ainda, um tipo de existência partilhada por muitos escritores ao correr da história da literatura. Tipo que encontrou no catalão Enrique Vila-Matas um exemplar radical.

É natural dos autores deste gênero extrair da vida o material para a escrita; ou ainda: fazer com que esta não seja compreendida sem o conhecimento daquela. Não faltam escritores que tomem um caminho ou outro - e estes acabam por se confundir, em James Joyce, Oswald de Andrade, Jack Kerouac, dentre outros. Em Vila-Matas, ao invés de uma ponte ligando vida e obra, se estabelece um percurso circular: da escrita, se extrai a vida, para voltar a se tornar literatura. A própria literatura é um de seus temas mais frequentes e o escritor que ele é costuma ser seu principal modelo de protagonista/narrador.

Enrique Vila-Matas lançou seu primeiro livro, em 1973, "Mujer en el espejo contemplando el paisaje". No entanto, seus livros só ganharam edições no Brasil na última década, quando o autor já acumulava prêmios e havia se estabelecido como um dos principais prosadores contemporâneos da Europa. Desde que passou a ser publicado aqui, pela editora Cosac Naify (confira títulos nesta página), havia a expectativa da publicação de "Doutor Pasavento", de 2005, ganhador dos prêmios da Real Academia Española e Mondello - Città di Palermo. O livro chega esta semana às livrarias brasileiras. Lá fora, Vila-Matas já divulga "Dublinesca", romance que a editora brasileira deve lançar já em setembro.

"Doutor Pasavento" é, ainda, um dos livros mais extensos de Enrique Vila-Matas, ultrapassando as 400 páginas. Lido, comprova-se que merece os prêmios, os elogios e as expressões de devoção. Dizer que é a obra-prima do autor já é assumir um risco grande demais. Os livros de Vila-Matas talvez sejam capítulos de um único livro, ainda inacabado e impossível de caber entre duas capas.

Coincidências

"Meus livros estão todos conectados", concorda o escritor, em entrevista ao Caderno 3, por e-mail. A obra de Vila-Matas é atravessada por tema, ideias e imagens que reaparecem constantemente, como a coleção de um obsessivo. A maioria, em sua obra recente, parece derivada da negação. Da vida, em "Suicídios exemplares"; da escrita, em "Bartleby e companhia"; do passado, em "A viagem vertical". "Um crítico francês explicou muito bem a questão do tema da negatividade em meu trabalho, o porquê de eu me importar tanto. E apelou a um aforismo de Kafka, que acho que deveria ser a epígrafe de todas as minhas obras: ´O positivo nos foi dado ao nascer. A nós cabe fazer o negativo´. Também pode ser traduzido como: ´Fazer o negativo ainda nos será imposto, o positivo já nos foi dado´", cita.

A citação é, aliás, onipresente nos livros mais recentes do escritor. Em alguns de seus livros - "Doutor Pasavento" incluso - ,Vila-Matas constrói um híbrido entre ficção e ensaio, um romance que parece demais com um caderno de notas de um escritor ou um exercício de crítica literária e filosófica deste. O próprio escritor dá coordenadas para compreender este recurso. Segundo ele (ou, pelo menos, segundo o narrador de "Doutor Pasavento"), o pioneiro nesta área é o irlandês Laurence Sterne (1713 - 1768), e o clássico outsider "A Vida e Opiniões de Tristram Shandy".

Ficção?

Vila-Matas, no entanto, não troca de ofício. Quando é ficcionista se vale da principal liberdade conferida a este: a invenção. Não faltam, pois, citações de autores que só podem ser encontradas nos livros de Vila-Matas. "Mas isso não deve ser mal entendido. Vejamos: acredito haver encontrado um tom preciso a certa sensibilidade contemporânea para a qual há uma continuidade natural entre o real e o fictício. Ou, se preferir, descobri como ´ficcionalizar´ o eu e o real em termos literários convincentes", esclarece o autor.

Enrique Vila-Matas refuta o rótulo de escritor para escritores, que costuma acompanhá-lo em definições apressadas. É, na verdade, um autor para quem gosta de literatura, e que não abre mão dos direitos dados a todos os ficcionistas. "(O escritor) pode escrever sobre o que não conhece e tem para isso o mesmo direito que para escrever sobre o que conhece. Pode não escrever a respeito de seu ofício e pode fazê-lo. Aqueles que me reprovam por escrever sobre temas que giram em torno da escrita são, para mim, leitores anti-Vila-Matas. Estes leitores inimigos me ajudam a escrever. Porque  às vezes estou trabalhando e penso no quanto eles vão odiar tudo que estou fazendo. E esse é todo o estímulo que necessito".

"Doutor Pasavento" elege o desaparecimento como tema principal

Enrique Vila-Matas é um descobridor e um explorador de negações. O desaparecimento, possivelmente o tema central de "Doutor Pasavento", já havia figurado em outras obras do escritor. Em "Suicídios exemplares" não faltavam personagens em busca de certo tipo de desaparecimento; assim como Federico Mayol, o herói de "A viagem vertical" sumia aos poucos, na transformação por que passou após ser deixado pela mulher, com quem viveu a maior parte da vida.

O procedimento de Vila-Matas parece ser justamente este: ensaiar a abordagem frontal de suas obsessões. Os sinais destas anunciam o confronto vindouro, até o dia que este chega, satura um livro inteiro para, em seguida, reaparecer mais uma vez, aos poucos. Este tipo de reescritura não se restringe aos temas do autor: mesmo as situações vividas pelos personagens tornam a aparecer.

"Doutor Pasavento" é narrado por um escritor relativamente conhecido em seu país, curiosamente nascido no mesmo ano que o autor do livro. A filha morreu e a esposa o abandonou. Eventos negativos que reforçam sua obsessão pelo não, pelo desaparecimento.

"De onde vem sua paixão por desaparecer?", lhe pergunta um interlocutor não nomeado já na primeira página do livro. É a ele que ele vai procurar responder no romance. Primeiro, num emaranhado caótico de digressões, sobre temas diversos que sempre acabam na desaparição. Depois, numa aparição "de fato", quando, ao perder um táxi, decide se refugiar em um pequeno quarto de hotel, por 11 dias (mesmo espaço de tempo que a inglesa Agatha Christie passou sumida).

Enquanto outros personagens de Vila-Matas conseguem desaparecer, caso de seus suicidas bem sucedidos, o Doutor Pasavento se vê diante da impossibilidade de fazê-lo. Afinal, escrever sobre o desaparecimento, dando suas coordenadas e abrindo seu baú de angústias, parece tudo mesmo um sumiço. A psicologia de botequim diria mesmo se tratar de um sujeito que deseja a atenção. É aí que Vila-Matas dá um de seus nós típicos, fazendo a ideia voltar sobre si: a chave da desaparição, ou de sua impossibilidade, não está nas mãos de quem a procura, mas do outro, que lhe dá atenção ou o ignora.

"Escrevivência"

Se a desaparição é um desejo seu, Vila-Matas responde: "Descobri que não há nada tão chato quanto a diversão. Não estou escondido, mas evito frequentar os lugares onde antes ia. De qualquer forma, nas viagens me mostro (ou me sinto) mais disponível para explorar o exterior. Talvez esteja na antessala da desaparição".

De "Dublinesca", próximo livro a ser publicado no país, o escritor diz ser uma obra que se conecta à "Doutor Pasavento" ao negá-la. "Em ´Doctor Pasavento´, o tema central é a desaparição. Curiosamente, em ´Dublinesca´, um dos temas centrais é a reaparição: a reaparição do autor, seu renascimento. Eu mesmo, em minha própria vida, passo por uma interessante etapa de renascimento", revela o autor.

ROMANCE
Doutor Pasavento

Enrique Vila-Matas

COSAC NAIFY
2010
416 PÁGINAS
R$ 55
Tradução:
José Geraldo Couto

DELLANO RIOS
REPÓRTER

No Brasil

Suicídios exemplares

Título mais antigo de Vila-Matas publicado no Brasil, esta coletânea de contos traz histórias que falam da morte voluntária, ainda que esta nem sempre aconteça. O livro passeia por diversos tons, do dramático ao humorístico, do psicológico ao fantástico

COSAC NAIFY

2007 (2003)
248 PÁGINAS
R$ 45


A viagem vertical

Marca a primeira aparição do autor no Brasil. O livro é uma espécie de romance de formação às avessas. Ao ser surpreendido por sua esposa, que o quer distante, o ancião Federico Mayol viaja por cidades ibéricas tentando se desfazer de sua vida anterior e inventar um novo eu para si.

COSAC NAIFY

2005 (2002)
328 PÁGINAS
R$ 49

Bartleby e companhia 

Meio termo exato entre o ensaio e o romance. O livro é construído como uma pesquisa de um escritor com dificuldades de escrever sobre escritores que, como ele, renunciaram à escrita. Bartleby é um personagem de Herman Melville, que se negava a fazer qualquer coisa.

COSAC NAIFY
2005 (2001)
192 PÁGINAS
R$ 45

O mal de Montano

De certa forma, este romance é uma continuação de "Bartleby e companhia". O personagem central é Montano, jovem escritor que se vê impedido de exercer seu ofício. A busca para a cura do mal que o acomete é perseguida por seu pai, o narrador. O tema de "Pasavento", a desaparição, é recorrente neste texto.

COSAC NAIFY
2004 (2000)
254 PÁGINAS
R$ 45

Paris não tem fim

Assim como acontece em "Doutor Pasavento", o narrador é um escritor muito parecido com Vila-Matas (inclusive, escreveram o mesmo livro de estreia). Espécie de romance de formação fragmentário, "Paris..." reúne memórias, anedotas e invenções do escritor sobre o período de sua juventude que passou na França.

COSAC NAIFY
2009 (1991)
208 PÁGINAS
R$ 45

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