Exposição

O homem que conquistou o Norte

00:31 · 17.05.2012
Um dos destaques da mostra "Pioneiros & Empreendedores", empresário prosperou no Norte do País

Em meados da década de 40, o Norte do Brasil era um lugar distante, que enfrentava epidemias e vivia assombrado por fantasmas de empreendimentos fracassados. Foi nesse cenário que tomou fôlego a trajetória empresarial do paulista Augusto Trajano de Azevedo Antunes. Sua história pode ser melhor conhecida na exposição "Pioneiros & Empreendedores: A Saga do Desenvolvimento no Brasil", em cartaz no Espaço Cultural Unifor, na Universidade de Fortaleza (Unifor).

Para chegar a Macapá, saindo de avião do Rio de Janeiro, eram três dias e inúmeras escalas. Depois disso, mais uma caminhada e outros três dias seguindo de barco até chegar às jazidas de manganês no interior do Amapá. Foi esse o percurso que Azevedo Antunes fez em 1946, aos 40 anos. Ali começava não apenas sua fortuna pessoal, mas também uma transformação radical na economia daquele recém-criado estado.

Foi com as jazidas de manganês do Amapá que o Brasil alcançou posição de destaque no mercado mundial de minérios. Azevedo Antunes teve que brigar para conseguir o direito de exploração na Serra do Navio. Na concorrência aberta, havia perdido para a gigante norte-americana Hanna Corporation. O empresário paulista entrou com recurso alegando que, se fosse mantida essa política, jamais existiria uma empresa brasileira de mineração.

Ao reverter a situação, assumiu compromissos com o governo. Ainda que fosse, à época, o maior fornecedor de ferro da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), não tinha como arcar sozinho com as exigências, que incluíam a construção de uma estrada de ferro. Sua Icomi havia começado, poucos anos antes, como uma sociedade com dois amigos. O capital era de 600 mil cruzeiros, e a sede, um quarto na casa de Antunes.

No esforço de reunir capital para a empreitada, chegou a tentar formar um consórcio nacional. Não deu certo. Outros empresários achavam o negócio arriscado e que, se fosse para perder dinheiro, melhor seria perdê-lo perto de casa. Acabou fechando acordo com a norte-americana Bethlehem Steel Company, segunda maior produtora de aço mundial. O financiamento veio do Eximbank norte-americano.

Convivendo com os fantasmas de empreendimentos amazônicos que fracassaram, como a Fordlândia e a estrada Madeira-Mamoré, Azevedo Antunes e seus sócios tinham que enfrentar ainda a distância, a falta de infraestrutura e a epidemia de malária. Com projeto do arquiteto Oswaldo Arthur Bratke, resolveu investir na construção de duas cidades para os trabalhadores, uma junto à jazida e outra próxima ao embarque.

A Vila Serra do Navio e a Vila Amazonas ofereciam moderna infraestrutura, além de saúde e educação pública de qualidade. Os empregados da Icomi desfrutavam de vários benefícios, tais como previdência privada, bolsas de estudo (inclusive no exterior) e programas de esporte e lazer. Logo, as duas cidades criadas pela empresa se converteram em ilhas de primeiro mundo nos confins da Amazônia.

Tais benefícios sociais não foram problema para os cofres da empreitada. Favorecida pela conjuntura política e econômica da época, a Icomi fez sua primeira exportação em 1957. Gamal Abdel Nasser, presidente do Egito, havia fechado o Canal de Suez, impedindo a tradicional rota que levava minérios da Índia para os Estados Unidos, e a guerra fria interrompeu o fornecimento de manganês da União Soviética para o País.

Esses dois fatos em conjunto levaram o preço do manganês às alturas. A Icomi teve tanto lucro que quitou o empréstimo com o Eximbank em apenas cinco anos - metade do tempo previsto. Os negócios continuaram evoluindo e, em dezembro de 1965, Azevedo Antunes se juntou à Hanna Corporation, por meio da holding Caemi, para formar a MBR Minerações Brasileiras Reunidas. Após anos de choques de interesses, comprou a parte da Hanna, em 1987.

Durante as décadas de 60 e 70 expandiu sua atuação para outros ramos. Alguns tinham relação direta com a mineração, como a siderúrgica em São Paulo. Outros nada tinham a ver com o início de sua carreira empresarial, como a Companhia Swift, de alimentos enlatados. Entretanto, em 1989, ao iniciar o processo de sucessão, se desfez de tudo que não fizesse parte dos negócios da mineração.

Passou o controle dos negócios para dois netos, mas a experiência não deu certo. Optou por profissionalizar a empresa. Desde 1998, a presidências é exercida por Oscar Augusto de Camargo Filho. Embora em outras mãos, as empresas criadas por Antunes continuam suas trajetórias, contribuindo com milhões de dólares em impostos, royalties e salário em um estado que nem aparecia nas estatísticas antes de sua chegada.

Mais informações:

Pioneiros & Empreendedores: A Saga do Desenvolvimento no Brasil. Em cartaz no Espaço Cultural Unifor (Av. Washington Soares, 1321, Edson Queiroz), até 15 de julho. De terça a sexta, das 8h às 18h; sábados e domingos, de 10h às 18h. Entrada e estacionamento gratuitos. Contato: (85) 3477.3319

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