cinema

O grito mudo

Sucesso de "Um Lugar Silencioso" reaviva o poder do silêncio como recurso narrativo no cinema

00:00 · 16.04.2018 por Adriana Martins - Editora assistente

O silêncio pode falar muito; não raro, bem mais do que palavras. Seja na conversa cotidiana, no discurso político ou, veja só, até em linguagens cuja espinha dorsal inclui o som. Somos seres audiovisuais, mas há muito naquilo que não escutamos.

Na seara das artes, o cinema - ao funcionar hoje essencialmente a partir da articulação entre imagem e som - pode produzir grandes obras quando embaralha essa equação. Sim, isso inclui o cinema mudo, que recorria a diálogos escritos e trilha sonora ao vivo.

Mas, em tempos de blockbusters barulhentos e de uma sociedade cada vez mais (des)conectada e desnorteada com o excesso de informação, trabalhar o silêncio no cinema pode ser um manifesto sobre a importância de pausar, de ouvir, de aprender a ler a partir de diferentes códigos - verbal, imagético, tátil, emocional.

O exemplo mais recente traz a questão já no nome: "Um lugar silencioso", de John Krasinski, tem recebido avaliações positivas por onde passa - tanto da crítica especializada quanto de público, feito relativamente raro. Lançada no último dia 5 no País, a produção norte-americana põe novamente em pauta o silêncio como recurso narrativo na sétima arte.

O mote é peculiar: arrasada pela invasão de criaturas alienígenas assassinas (ou monstros de um universo paralelo, sabe-se lá), a humanidade precisa reinventar modos de sobreviver fazendo pouco ou nenhum barulho - posto que os bichos horrendos são cegos, mas têm audição apuradíssima. Uma ironia, no mínimo, se considerarmos os dias atuais.

O recorte da história é uma família tradicional: pai, mãe, três filhos. Ele, provavelmente um ex-engenheiro elétrico ou algo do tipo, haja vista o arsenal de transmissores, rádios e outros dispositivos que acumulou no sótão de casa (em alguma zona rural dos EUA), aliado à habilidade em pensar soluções práticas de comunicação (como a teia de luzes para sinalizar mensagens).

Entre os desafios está construir para a filha surda um aparelho auditivo - sem ouvir, a garota pode não notar a ameaça iminente, seja algum barulho próximo que a coloque em perigo ou a própria presença das criaturas.

Por outro lado, ter uma filha surda obrigou a família a aprender a linguagem dos sinais - vantagem e tanto quando se precisa viver em silêncio.

Muito desse contexto é explicado para o espectador apenas por meio de elementos visuais - os jornais com notícias antes ou durante a hecatombe; fotografias; as já citadas soluções de sobrevivência. Não há necessidade de falas didáticas ou longos flashbacks.

Nesse sentido, a atuação impecável de Emily Blunt (a mãe), Krasinski (que, além de dirigir, interpreta o pai), Millicent Simmonds (surda na vida real) e Noah Jupe (filha e filho, respectivamente) colabora sobremaneira. Como expressar a dor, a solidão, a preocupação, sem falar? Sem gritar?

Algumas passagens são excepcionalmente comoventes - com apenas um olhar, uma expressão corporal (o que dizer do casal dançando ao som - nos fones de ouvido - de "Harvest Moon"? Todo uma vida de amor emerge naquele minuto).

Gênero

Mas não se engane: se o som é escasso em "Um Lugar Silencioso", ele certamente é um dos elemento que mais exigiu trabalho da equipe técnica. Justamente porque necessita ser preciso, certeiro.

Aqui dá pra citar desde as falas sussurradas, o som das pegadas durante as andanças e o ruído do choro embargado até o grito jorrado e a trilha sonora pontual, mas que confere peso ainda maior nas sequências de mais ação e nas cenas de susto. Essa construção engenhosa de som garante um filme que mantém o público na ponta da poltrona, aflito praticamente do começo ao fim da sessão.

Na mesma seara do suspense, podemos citar outro acerto cinematográfico que trabalha bem o silêncio como recurso narrativo: em "Hush - A morte ouve" (2016) uma mulher surda é aterrorizada em sua própria casa por um serial killer sádico que aparece do nada e mata sem motivo aparente.

Em um jogo de gato e rato, eles se perseguem no silêncio. Não há necessidade de gritos para instalar um clima de puro terror.

Algo semelhante ocorre em "Testemunha muda" (1994), no qual uma jovem, enquanto trabalha no set de filmagem de um longa policial, é trancada acidentalmente após o expediente e testemunha a realização de um filme "snuff" (no qual as pessoas são mortas de verdade).

Do terror para a ficção científica (lembremo-nos das longas tomadas silenciosas de "2001 - Uma Odisseia no espaço", clássico de Kubrick de 1968, e de "Gravidade", longa de 2013 de Alfonso Cuarón), passando pelas propostas viajandonas de Terrence Malick ("Árvore da Vida") e Gus Van Sant ("Últimos dias"), o silêncio segue como uma da mais potentes falas possível.

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