Teatro

O grande sertão de cada um

Obra clássica de Guimarães Rosa será vista em Fortaleza no formato de instalação/espetáculo

00:00 · 10.08.2018 por Roberta Souza - Repórter
Caio Blat
Caio Blat como Riobaldo e Luíza Lemmertz na pele de Diadorim ( Foto: ANNELIZE TOZETTO )

Evocar o sertão sem construir uma imagem definitiva sobre ele tem sido um dos grandes desafios que Bia Lessa tomou para si desde 2006, quando organizou a exposição de inauguração do Museu da Língua Portuguesa (SP), focada no livro clássico de Guimarães Rosa. Uma década depois, quando "Grande Sertão: Veredas" completou 60 anos, a diretora decidiu fazer a adaptação literária no palco, por meio de uma instalação/espetáculo tão ousada quanto a exposição.

É ela que chega neste fim de semana em Fortaleza, depois de ter sido adiada em decorrência da greve dos caminhoneiros que paralisou o País em maio deste ano; e quase cancelada esta semana por problemas contratuais. Com os problemas finalmente resolvidos, três apresentações, uma no sábado, às 20h, e duas no domingo, às 16h e às 20h, acontecerão no Theatro José de Alencar (TJA).

"Lendo o livro, percebi que falava do sertão brasileiro, do norte de Minas ou do sul da Bahia, mas era um sertão que está dentro da gente, em toda parte. Um sertão que pode ser Paris, que pode ser Rio Grande do Sul, que pode ser Tóquio. Ele é metafísico, e não físico", lembra Bia. Na leitura dela, qualquer imagem estaria dizendo: isso é o sertão. "E sertão é o que cada um constrói, é de cada indivíduo", defende.

A solução encontrada para a exposição de 2006 foi trabalhar apenas com palavras, sem imagens. Mas como fazer isso no teatro era praticamente impossível, as estratégias foram outras. "A gente não fez um cenário, fizemos uma geografia, uma gaiola onde tudo acontece, de ringue, com pessoas encarceradas no espaço", pontua. Até os figurinos propõem uma releitura do sertão sem regionalizá-lo.

Todo o espetáculo é feito sem grandes efeitos ou recursos, a não ser a valorização do universo sonoro dos espaços propostos pelo romance, com o trabalho dos próprios atores. Cada espectador usa fones de ouvido que lhes permite escutar separadamente a trilha sonora, as vozes dos atores, os efeitos sonoros e sons ambientes. Assim, apesar de todos compartilharem o espaço na plateia, cada um tem uma experiência única durante a apresentação

"Teatro é ato de superação, não tem que criar facilidades, mas dificuldades". Foi exatamente a partir dessa premissa que ela mergulhou na montagem ao lado de Caio Blat, Luíza Lemmertz, Luísa Arraes, Leonardo Miggiorin, José Maria Rodrigues, Balbino de Paula, Daniel Passi, Elias de Castro, Lucas Oranmian e Clara Lessa.

Sem esquecer da importante contribuição de Egberto Gismonti (música), Camila Toledo (concepção espacial, com a colaboração de Paulo Mendes da Rocha), Sylvie Leblanc (figurino) e Fernando Mello da Costa (adereços).

Os quatro meses intensos de ensaio, nos quais um dia mais parecia ter 48h, foram de muito esforço físico para os atores, como aponta Caio Blat, intérprete do protagonista e narrador da história, Riobaldo, jagunço que se apaixona pelo paradoxal Diadorim (Luíza Lemmertz). "A peça, fisicamente, é uma travessia. Ela tem uma tarefa heroica a cumprir, parecida com a dos personagens. Não tem saída, estamos enjaulados, não saímos de cena. Não tem recurso cênico que não seja nosso corpo. Evocamos elementos do sertão como água, fogo, terra, animais, tudo com nosso corpo", explica.

A improvisação com as palavras e um rodízio de personagens durante o ensaio também foram estratégicos. "O processo foi coletivo até chegarmos ao nosso Riobaldo, a partir da nossa leitura, reinvenção, nosso depoimento. A Bia sempre exigia que colocássemos algo pessoal, que não estava no texto, dentro da cena", conta. Era sob essa orientação que todos os atores faziam os personagens, numa vivência de tudo.

Desse modo, questões fundamentais da obra, como o gênero de Diadorim, foram motivos de profundas discussões. "A Bia trabalhou forte para desconstruirmos o personagem, em qualquer corpo possível, qualquer identidade. É o amor espontâneo nascendo em qualquer configuração e expressão de gênero, com a mesma urgência da atualidade", avalia Caio Blat.

A diretora também trabalha essa desconstrução quando os atores interpretam a natureza e os animais, colocando o homem em posição de igualdade com outros seres. "Ter no espetáculo diversidade, diferença cultural, é como a espinha dorsal do trabalho. Obviamente este é um livro que permite muitas leituras (histórica, geográfica, psicológica, antropológica). Mas nosso maior objetivo é abrir o Grande Sertão: Veredas, mais do que fechar, mais do que escolher uma leitura", expõe Bia Lessa.

Fortaleza

Primeira capital nordestina a receber o espetáculo - que está há um ano em circulação e vem para cá de forma independente, sem patrocínio -, Fortaleza, e especificamente o Theatro José de Alencar, têm um lugar especial na memória da diretora. Isto porque foi ela quem inaugurou aquele palco, com "Orlando", após a grande reforma de 1991, durante a gestão de Violeta Arraes (1926-2008) na Secretaria da Cultura do Estado.

"Violeta foi uma das pessoas mais importantes da minha vida. Quando apresentamos 'Orlando', o palco novo ficou bem sujo e vários funcionários disseram que eu tinha feito um estrago. Ela, pelo contrário, foi até lá e me parabenizou por inaugurá-lo. Violeta tinha consciência de que palco não é sala de visita, é pra trabalho. É para ser usado e não pra ser brilhante", relembra Bia. "Sinto uma falta imensa dela. Dedico esse espetáculo a ela", finaliza.

Saiba mais

Espetáculo Grande Sertão: Veredas

Dias 11, às 20h, e 12 de agosto, às 16h e 20h. No Theatro José de Alencar (TJA). Duração: 140 minutos.

Classificação: 18 anos (há cenas de nudez). Ingressos à venda na bilheteria do Theatro, das 14 às 20h, e Lojas Blinclass do Shopping Iguatemi e RioMar. Ou pelo site ingressando.Com.Br

Valores: Palco R$120 + R$ 3 de taxa (valor único), Plateia R$ 100 + R$ 3 de taxa (inteira) e R$ 50 + R$ 3 de taxa (meia), Frisa e Camarote R$ 120 + R$ 3 de taxa (inteira) e R$ 60 + R$ 3 de taxa (meia), Torrinha R$ 80 + R$ 3 de taxa (inteira) e R$ 40 + R$ 3 de taxa (meia).

* Regras de meia-entrada: estudantes, idosos, menores de 21 anos, pessoas com deficiência, professores e profissionais da rede pública municipal de ensino.

Instalação

Montada no saguão do Theatro José de Alencar. Horário: das 14 às 20h.

Classificação: livre

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