Ensaio

O feminismo no discurso literário de Adélia Prado

O pensamento feminista surgiu no Brasil no século XIX através das obras da jornalista Nísia Floresta

00:00 · 23.03.2014

A escritora Adélia Prado apresenta a simplicidade do universo feminino, evidenciando a existência de uma relação ambígua entre a mulher e sua religião. Delineia o universo erótico do feminino desconstruindo paradigmas herdados de uma tradição machista que não consegue ver a mulher como sujeito de sua intimidade, consoante a composição do poema "Fotografia": (Texto I)

Em "Fotografia" a religião pode ser vista como força opressora dos desejos femininos e disciplinadora da culpa original do pecado. A figura da mãe apresenta o temor a Deus e acaba por expor vergonha do corpo e medo do castigo, mas nem este temor impede a expressão do que é e do que sente. É, sem dúvida, um belo poema em prosa, no qual a presença do poético se anuncia tanto pela escolha vocabular, que deixa bem nítida a escolha da autora pelo estilo mesclado, como a sucessão de pausas dramáticas, pois, estas, conscientemente construídas, mostram o domínio da escritora sobre o ritmo de seu discurso.

Lembranças de maio

A escritora em seu livro "Terra de Santa Cruz" vem apresentar o poema, "Lembranças de maio", que se aproxima da prosa pelo tom coloquial e narrativo: (Texto II)

Mais uma vez a religiosidade e sexualidade chamam a atenção como parte de seu estilo. Através de sua narração, Adélia instiga a imaginação do leitor, que cria possibilidades de interpretações diante do movimento do corpo virgem. Corpo esse que já trás em si o desejo carnal, que mesmo diante do altar, lugar considerado sagrado, não consegue esconder a vertigem, o calor, o desejo, a alegria de estar no mundo manifestando a autentica natureza da mulher e acaba por sentir, na dualidade entre o sagrado e o "profano", o coração bater desamparado por ver no Santo Espírito a possibilidade de libertá-la daquela servidão carnal.

Casamento

O termo casamento significa um ato solene de união entre sujeitos. Até meados do século XX, as mulheres no casamento e eram tidas como as reprodutoras, as donas de casa. E, por muitas vezes, o casamento foi realizado por contrato, no qual a mulher era tão somente uma moeda de troca. Com a difusão do movimento feminista no Brasil, houve mudança dessa perspectiva do casamento como filosofia salvacionista das mulheres. Não são mais os pais que decidem sobre seus maridos e são elas, em tempos de hoje, em boa parte, peça-chave no sustento de suas famílias. (Texto III)

A poetisa vê o casamento como cumplicidade e não submissão, como aproximação do casal, onde cada um acompanha o outro em todos os afazeres. A construção "Há mulheres que dizem..." abre o poema para um contraponto com a expressão; "Eu não". Nesse sentido, Adélia Prado, indo de encontro a uma posição radical no estabelecimento de papéis destinados a homens e a mulheres, reforça a ideia de cumplicidade na relação a dois. Existe, claramente, a deliberação de uma parceria - o que fica bem explicitado pela presença verbal "ajudo a escamar" etc. Assim, ao invés de uma atmosfera de opressão e dominação, o que se evola é, antes de tudo, o ato de compartir numa atividade extremamente prosaica: a preparação de um jantar, fruto do lúdico, uma vez que adveio de uma pesca, como uma festa que é devidamente preparada.

Do Curso de Letras da UECE

Suêrda Lino Barroso*
Especial para o ler

Trechos
TEXTO I

Quando minha mãe posou para este que foi seu único retrato, mal consentiu em ter as têmporas curvas. Contudo, há um desejo de beleza em seu rosto que uma doutrina dura fez contido. A boca é conspícua, mas as orelhas se mostram. O vestido é preto e fechado. O temor de Deus circunda seu semblante, como cadeia. Luminosa. Mas cadeia. Seria um retrato triste se não visse em seus olhos um jardim. Não daqui. Mas jardim.

TEXTO II

Meu coração bate desamparado / onde minhas pernas se juntam / É tão bom existir! / Seiva, vergônteas, virgens, / tépidos músculos / que sob as roupas rebelam-se. / No topo do altar ornado / com flores de papel cetim / aspiro, vertigem de altura e gozo, / a poeira nas rosas, o afrodisíaco, / incensado ar de vela / - a santa sobre os abismos - / À voz do padre abrasada / Eu nada objeto, / lírica e poderosa.

TEXTO III

Há mulheres que dizem: / Meu marido, se quiser pescar, pesque, / mas que limpe os peixes. / Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, / ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. / É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, / de vez em quando os cotovelos se esbarram, / ele fala coisas como "este foi difícil" / "prateou no ar dando rabanadas" e faz o gesto com a mão. / O silêncio de quando nos vimos a primeira vez / atravessa a cozinha como um rio profundo. / Por fim, os peixes na travessa, / vamos dormir. / Coisas prateadas espocam: / somos noivo e noiva.

FIQUE POR DENTRO
Notas acerca do feminismo

Desde 1970 até os dias atuais, o feminismo vem apresentando uma longa trajetória de mudanças. Em 1975, no Rio de Janeiro, tivemos o primeiro ato público sobre o papel e comportamento da mulher na sociedade brasileira, onde os principais assuntos foram a condição da mulher, o trabalho, a discriminação racial, a saúde física e mental e o direito à democracia. Em 1985 tivemos a criação das Delegacias Especializadas das Mulheres, cuja invenção foi brasileira e foi modelo para vários países da América Latina e em 1988 os direitos humanos das mulheres foram incluídos na Constituição de 88, mas ainda se discute a participação mais efetiva da mulher na política. Apesar de muitos objetivos alcançados, ainda há manifestações sobre a questão do aborto e a violência, que desde o início tem sido problema grave.

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