Ensaio

O Eu profundo no mar da infância

00:00 · 14.12.2013

Eis, pois, um fato: embora se conceba a poesia como concretização de uma atividade ficcional, em Manuel Bandeira, o Eu poético (criação) e a biografia do autor, muitas vezes, caminham indissolúveis. A infância do poeta é um dos subsídios inegáveis de seu fazer poético. Sobre isso, Yudith Rosenbaum, em seu Manuel Bandeira: a Poesia da Ausência (Edusp, 2002), nos ensina que (Texto II):

Do tempo e do espaço perdidos e resgatados emerge o elo revelador entre o sujeito lírico e a infância, num jogo entre o psiquismo do adulto e a oniricidade da criança jamais superada. Tal enlace materializa-se na poética bandeiriana, como em "Versos de Natal" (Texto III):

Leitura do poema

O poema apresenta duas estrofes sem metrificação e sem rimas. Na primeira, o Eu dirige-se ao "Espelho", travando com ele uma interlocução resignada, já que o "amigo verdadeiro" não o esconde de suas condições físicas: rugas, cabelos brancos, miopia, alegorizando a velhice. A reflexão do espelho é, pois, uma revelação objetiva de uma verdade indubitável. Infere-se dos quatro primeiros versos que o espelho capta a parte superior do Eu, a cabeça, fragmentando-o na porção onde residem os pensamentos e de onde parte a conclusão metafórica de que o objeto é o "Mestre do realismo exato e minucioso". A estrofe termina com um emocionado agradecimento, porque é o espelho um "Mestre" e revela o que seus "olhos míopes e cansados" já não alcançam e porque é o portal que o pode fazer, magicamente, revisitar os tempos idos, possibilidade explicitada na segunda estrofe. Nesta, o poema é iniciado com a conjunção "Mas", escolha linguístico-semântica importante, na medida em que faz com que a leitura aponte para uma suposta oposição, deixando sugerida a vontade de inversão simétrica do espelho (esta estrofe tem o mesmo número de versos da primeira), como se ele pudesse revelar não só a verdade aparente mas, também, escavasse a infância. Só a magia (que faz parte do universo infantil) poderia refletir "o fundo desse homem triste", isto é, penetraria até a camada primeira da existência, até a base que "sustenta esse homem", um menino vivo na memória sentimental do Eu.

As pontas da vida

A personalidade poética de Manuel Bandeira clarifica sua infância, reavivada pelo homem envelhecido, no "menino que não quer morrer" e "que não morrerá senão comigo", não propriamente como um confronto entre uma e outra fase da vida, mas como pontos que configuram o Eu e sua sensibilíssima junção temporal. A palavras "menino" é retomada por três vezes, como se da criança ecoasse uma vontade essencial de se manter viva.

Considerações finais

Os dois últimos versos elucidam a relação homogênea do "menino" e do velho, já que este "Pensa ainda em por seus chinelinhos atrás da porta", numa época em que, para muitos, é cenário de lembranças e melancolias: a "véspera do Natal". Vê-se, portanto, que as idiossincrasias passadas ainda permeiam a vontade do adulto, não só em seu plano espiritual, mas também na prática de suas ações cotidianas e também sentimentais. (T. L. B.)

SAIBA MAIS

ADORNO, Theodor. Notas de literatura. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1991.

BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997.

PONTEIRO, Giovanni. Manuel Bandeira: visão geral da obra. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986

Trechos

TEXTO II

"Ao evocar as cenas e as personagens que estruturam vida e obra do poeta, a poesia reconstrói epifanicamente a infância enquanto fenômeno iluminado. A memória se abre para o que há de mais recôndito na esfera íntima e reacende cantos biográficos escuros, mas nunca esquecidos. São mais do que lembranças. Elas parecem pertencer tanto ao universo mágico, quase mítico, quanto à dimensão do que há de mais real em Bandeira."

TEXTO III

Espelho, amigo verdadeiro,/Tu refletes as minhas rugas,/Os meus cabelos brancos,/Os meus olhos míopes e cansados./Espelho, amigo verdadeiro,/Mestre do realismo exato e minucioso, Obrigado, obrigado!///Mas se fosses mágico,/Penetrarias até o fundo desse homem triste,/Descobririas o menino que sustenta esse homem,/O menino que não quer morrer,/Que não morrerá senão comigo,/O menino que todos os anos na véspera do Natal/Pensa ainda em por seus chinelinhos atrás da porta.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.