Ensaio

O discurso lírico de Cesário Verde

00:23 · 17.08.2013
Cesário Verde transitou por várias tendências estéticas, em temáticas múltiplas; grande poeta português, mas só alcançou a glória postumamente

O poema "Deslumbramentos" traz a mulher idealizada, mas, subjacente a essas características, o poeta a desenha sob a égide do realismo, a mulher britânica, alta, com porte de modelo, adornada pelo supérfluo: (Texto I).

Cesário Verde inicia o poema com um cortês tratamento dirigido às mulheres honrosas em Língua Inglesa - Milady -, o que nos evidencia desde logo que o mesmo está a referir-se a uma bela mulher britânica, desenhando-a de início como uma respeitável dama, cadenciando uma série de características alusivas à figura do encantamento.

Leitura do poema

Na primeira estrofe, Milady é a mulher perigosa, com gestos de neve e de metal, mas também aromática e normal. Neve lê-se também como leveza, beleza e frieza. Sendo assim, é uma astuta sedutora e ao mesmo tempo não romântica, pela frieza do pesar metálico de seus gestos. Porém, no segundo verso, o poeta serve-se sim de um lirismo romântico: "passa aromática e normal", comparando-a a uma flor. Seu perfume é mais um atributo de sedução romântica. A normalidade com que o exala esconde o verdadeiro aroma de sua singularidade que funciona para além de uma arma de conquista. Contudo, na perspectiva mais realista compreende-se essa normalidade sedutora como algo que figura uma norma, regra burocrática da sociedade vigente.

Milady é um produto citadino das leis que norteiam a comunidade europeia da época. Mulher branca adornada a ouro ou a prata, símbolo da prosperidade é outra imagem da mesma mulher emoldurada pelo eu lírico, que observa nela a destreza dos costumes britânicos e a fineza, elegância dos modos europeus.

O alumbramento

Estudada, talvez possuidora de um rebuscamento linguístico, já que a mesma solenemente impõe "toilettes complicadas", o eu lírico fica embevecido pela senhora britânica; mas, cauteloso, atenta para o perigo de contemplá-la, segue-a atencioso, mas a distancia de si por falta de afinidades sociais. Mulher fatal que seduz, mas que humilha e oprime. Enxerga-se a indiferença e a frieza dessa mulher em relação ao eu lírico.

As alegorias

A mulher, aqui, é uma alegoria da cidade moderna, da Europa moderna em contraste com Portugal, que representa a Europa atrasada, distante do gozo moderno de suas irmãs continentais. A Inglaterra manteve-se durante muito tempo como símbolo de potência progressista da Europa e nisso Cesário apropria-se da história, utiliza o eu lírico como metonímia de Portugal bem como Milady faz-se metonímia da Inglaterra nos seus tempos de glória, corporificada pelos deslumbrantes gestos de neve. A moda é uma representação da beleza, do luxo, da pompa, do poder de consumo, da ostentação.

A quarta estrofe relaciona as palavras Moda e Morte iniciadas com maiúscula, um recurso muito utilizado pelos simbolistas, para tornar claro sua concepção acerca das coisas aparentes, da máscara da melhor imagem, já que tudo isso acaba findando na efemeridade da vida, todavia a palavra Morte como foi empregada, pode referir-se também a negação de si mesmo; reflete o olhar do poeta para a mulher da moda, supérflua. Ele a vê com a serenidade de um ser comum, e o que o desalenta é justamente a negação dessa condição , da simplicidade, para a ostentação através de uma camuflagem sobre humana; um esconder-se de si como figura semelhante aos demais.

Os contrastes

Na quita estrofe o eu lírico se assombra com Milady que anda sempre sozinha, sua solidão é justificada pelo egoísmo, pela indiferença e hostilidade em relação ao sôfrego sujeito lírico, tanto que na sétima estrofe ele diz para ela conservar o gelo por esposo. O universo psicológico da britânica que ora fere como ramalhete, ora afaga com o pelo de um agasalho, oscila numa espécie de jogo em que impera o dualismo do bem com o mal, fundido e não dicotomizado. Já na oitava estrofe, a reincidente utilização do recurso simbolista na grafia da palavra fama, no poema, iniciada pela consoante maiúscula.

Aconselha Milady a continuar a massacrá-lo com sua indiferença, mas adverte que buscará fazê-la pagar com sofrimento por seus deslumbramentos, e em seguida, na penúltima estrofe, em tom de ameaça, reitera a advertência feita ao dizer que os humilhados (os bárbaros) se voltam contra seus opressores, e se vingam de seus algozes. Fica claro que o poeta cansado de frustrar-se com tanta admiração, canaliza sua contemplação para a revolta.

E no desfecho há um rogo, ou mesmo um presságio, de que após a consumação da vingança, a flor do Luxo, rainha da ostentação, que atrai, seduz e fere, findará arrastando os farrapos.

FIQUE POR DENTRO

O perfil da mulher no canto do poeta

A poesia de Cesário Verde traduz sempre sentimentos de contemplação do eu lírico em relação à figura feminina. No poema "Sardenta", (apenas uma quadra), vemos: "Tu, esse corpo completo, / Ó láctea virgem dourada, / Tens o linfático aspecto / Duma camélia melada". Há o predomínio de adjetivos. Inicia-se com o pronome pessoal da 2ª pessoa do singular dando a impressão de que o eu lírico está se dirigindo diretamente à láctea virgem dourada e a dizê-la, o que nos remete ainda que se trata de um diálogo franco e direto, sobre o fazer poesia, com seus precursores românticos. Aponta para uma imagem feminina totalmente diferente das fotografias de idealização e exaltação da fêmea à época dos poetas românticos; mais que intenção do autor, o poema não deixa vestígio sequer, do ponto de vista da linguagem, daquela mulher de outrora que a literatura ilustrara. Através de uma metáfora compara a virgem a uma camélia melada, ilustrando que a pureza da flor pode ter sido violada.

Trechos

TEXTO I


Milady, é perigoso contemplá-la, / Quando passa aromática e normal, / Com seu tipo tão nobre e tão de sala, / Com seus gestos de neve e de metal. /// Sem que nisso a desgoste ou desenfade, / Quantas vezes, seguindo-lhes as passadas, / Eu vejo-a, com real solenidade, / Ir impondo toilettes complicadas!... /// Em si tudo me atrai como um tesouro: / O seu ar pensativo e senhoril, / A sua voz que tem um timbre de ouro / E o seu nevado e lúcido perfil! /// Ah! Como me estonteia e me fascina... / E é, na graça distinta do seu porte, / Como a Moda supérflua e feminina, / E tão alta e serena como a Morte!... /// Eu ontem encontrei-a, quando vinha, / Britânica, e fazendo-me assombrar; / Grande dama fatal, sempre sozinha, / E com firmeza e música no andar! /// O seu olhar possui, num jogo ardente, / Um arcanjo e um demônio a iluminá-lo; / Como um florete, fere agudamente, / E afaga como o pelo dum regalo! /// Pois bem. Conserve o gelo por esposo, / E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos, / O modo diplomático e orgulhoso/ Que Ana da Áustria mostra aos cortesãos. /// E enfim prossiga altiva como a Fama, / Sem sorrisos, dramática, cortante; / Que eu procuro fundir na minha chama / Seu ermo coração, como um brilhante. /// Mas cuidado, milady, não se afoite, / que hão de acabar os bárbaros reais; / E os povos humilhados, pela noite, / Para a vingança aguçam os punhais. /// E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas, / Sob o cetim do Azul e as andorinhas, / Eu hei-de ver errar, alucinadas, / E arrastando farrapos - as rainhas!

ANTONIO EZEQUIEL DO NASCIMENTO
COLABORADOR*

*Estudante de Letras - UECE

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