Ensaio

O discurso da plenitude da infância

00:00 · 01.11.2013
A partir da análise desses poemas, podemos classificar a infância representada em Manoel de Barros como sendo um período pleno e singular, mas que, diferentemente de muitos autores, não será visto como um período passado e, portanto, acabado, uma vez que esse é constituinte do individuo durante toda a sua vida. O poema VII apresenta uma característica peculiar, pois foi construído em tom de narrativa. Manoel utiliza acontecimentos reais de sua história na construção do texto, para falar de poesia dentro do próprio poema. Parece ser, assim, uma "continuação" do poema I desse mesmo livro "Mundo Pequeno". (Texto II)

Leitura do poema

No poema, observamos que o sujeito-infante da história utiliza termos como: "gostar da doença das frases", "gosto esquisito" e "sujeito escaleno", para demonstrar o seu gosto poético, designado por ele no poema como sendo um gosto bastante esquisito. A criança da história se sente um tanto deslocada, pois possui afeição pelas doenças das frases, e não pela beleza, como a maioria das pessoas. No sexto verso do poema, encontramos a expressão "sujeito escaleno", que guarda uma relação com o triângulo escaleno, isto é, com um triângulo de lados desiguais. Tal recurso é utilizado na obra, possivelmente, com o intuito de mostrar o quanto o garoto de 13 anos era diferente dos demais. Na poesia, o jovem poeta não gosta da beleza das frases em sua construção habitual, gosta da "doença delas", de frases com construções incomuns, estranhas ao padrão convencional. Tal "gosto esquisito" pode ser lido como sendo uma inclinação ao fazer poético. Mais a frente, vemos a figura do padre Ezequiel, que aparecerá no poema com a função de acalmar o coração do menino, que teme ser o único no mundo a ter tal comportamento. Observemos o trecho: "- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,/ o Padre me disse." e "ele fez um limpamento em meus receios.".

No verso 14, o padre Ezequiel faz uma pergunta ao garoto: "Você não é de bugre?". O termo bugre tem relação com a região do Pantanal, lugar onde nasceu o poeta, Manoel de Barros, e significa "sujeito desconfiado, arredio, íntimo do mato". Em seguida, o padre explica a situação do garoto, por meio do termo "bugre", dizendo: "Veja que o bugre só pega por desvios, não anda em estradas - pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.", isto é, o garoto, tal qual o bugre, utilizava as palavras por meio dos desvios nela presentes, deixando de lado, portanto, o que seria a sua "estrada" principal.

Considerações finais

Por fim, o sujeito-infante do poema acaba por caracterizar o Padre Ezequiel como sendo o seu primeiro professor de "agramática". Nesse verso, observamos o neologismo "agramática", que é formado pelo prefixo a- indicando contradição ao sentido da palavra à qual é relacionado, gramática. Logo o termo criado nos leva a pensar na poesia, tendo em vista os seus desvios.

Assim, a partir dos poemas analisados, podemos destacar a importância da criança na obra de Manoel de Barros, uma vez que, em seus poemas, a criança aparece como ser autônomo e independente, sendo constituinte do seu próprio mundo. A infância não é vista como um fenômeno passado e esquecido, mas como um despertar cotidiano, no qual temos a oportunidade de recriar, dando novos sentidos às coisas e deixando a imaginação fluir. (M. F. L. )

SAIBA MAIS

ARIÈS,
Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: LTC, 1981.

BARROS, Manoel. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.

LAJOLO, Marisa. História social da infância no Brasil. São Paulo: Cortez, 2001.

Trechos

TEXTO II

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas/ leituras não era a beleza das frases, mas a doença/ delas./ Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, /esse gosto esquisito./ Eu pensava que fosse um sujeito escaleno. /-Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,/ o Padre me disse./ Ele fez um limpamento em meus receios./ O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença, /pode muito que você carregue para o resto da/ vida um certo gosto por nadas.../ E se riu./ Você não é de bugre? - ele continuou./ Que sim, respondi./ Veja que bugre só pega por desvios, não anda em/ estradas -/ Pois é nos desvios que encontram as melhores/ surpresas e os ariticuns maduros./ Há que apenas saber errar bem o seu idioma./ Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de/ agramática.

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