Ensaio

O discurso da estética do romantismo

00:15 · 13.07.2013
Ao contrário do ideal harmônico da escritura clássica, no romantismo não há receitas, tudo nasce de acordo com a espontaneidade do artista. A insatisfação social e o individualismo do criador, o leva a fugir do mundo real, expressando em sua arte o irregular, o subjetivismo exacerbado, o ilogismo. A poesia moderna do século XIX abandonou a quase totalidade do sublime que permeava no classicismo e passou a atribuir características do grotesco, ou seja, o que tange ao ridículo, ao disforme. A partir de então, se concretiza de forma mais explícita uma série de polos opostos compondo um mesmo canto poético e causando um drama romântico de efeito genial, exaltando assim uma nova visão sobre a arte do período estético romântico.

O conceito de belo

O grande romancista Victor Hugo verbalizou em seu Prefácio de Cromwell "que tudo na criação não é humanamente belo, que o feio existe ao lado do belo, o disforme perto do gracioso, o grotesco no reverso do sublime, o mal com o bem, a sombra com a luz." (HUGO, 2002, p.26), caracterizando a poesia moderna como dramática, pois esta representava a humanidade com seus conflitos interiores em meio à comédia da vida. O estilo romântico de Almeida Garrett, na contextura de Viagem, retratou com talento o drama do lírico citado pelo autor de Os Miseráveis. Entre o sublime e o grotesco, pôs os contrastes do "belo e do feio" permeando em meio à realidade e o fingimento, mostrando que "A poesia verdadeira, a poesia completa está na harmonia dos contrários."

Erotização

Rico em recursos estilísticos, como assonâncias, sinestesias e antíteses, o poema "Os cinco sentidos" é composto por sexteto de seis versos livres e polimétricos, com rimas internas e arrematadas com refrão. Percorre cada sentido em processo de gradação, em viés de associações metafóricas. (Texto IV) Na primeira estrofe, o eu lírico faz culto à natureza, associando-a ao "tu" que surge em meio a essas magnitudes e transparecendo, aos seus olhos, tão bela quanto; uma forma de fazer contemplação à amada, que, no momento, é apenas admirada a distância e, por mais que existam outras belas flores ao seu redor, somente ela, assim, o fascina grandemente.

A segunda estrofe traz o simbolismo da musicalidade do rouxinol, pássaro que servia de inspiração aos poetas românticos, considerado detentor de um canto raro e inebriante. Sua deusa possui uma voz demasiada encantadora, pois nem mesmo o tão admirado canto dessa ave consegue alcançá-la, nada mais de que ela o inspira tanto.

Na terceira estrofe, o eu lírico mostra uma absoluta paixão pelo "tu", nem mesmo a brisa que o percorre com os perfumes que exalam de outras flores, é capaz de tocá-lo interiormente e embevecê-lo; somente sua "flor" retém "o doce aroma" que o enfeitiça.

A quarta estrofe expressa um grande erotismo em relação a sua musa, percebemos, através de metáforas que fazem alusão ao sentido do paladar, que há uma aproximação física entre o eu lírico e o "tu", vemos que o corpo da mulher é comparado ao fruto saboroso, tão doce quanto o néctar das flores, líquido tão aspirado pelo "eu", mas somente o de sua amada satisfaz os impulsos de sua paixão sedenta.Na quinta estrofe, o sujeito poético usa a metáfora da "relva luzidia" para se referir ao corpo da amada, declarando ser a única a lhe causar tamanho prazer, ao "sentir outras carícias", acaba sugerindo uma proximidade física mais íntima com sua amada, fato que podemos inferir a partir do verso final que afirma "Senão em ti! - em ti!". Misturando o amor da mulher idealizada, que de tão perfeita chega a ofuscar o eu lírico de outras belezas, e a paixão erótica, na estrofe de remate existe uma confusão de sentimentos e sentidos, o "eu" se encontra extasiado por esse "tu" tão entontecedor, o romantismo desmedido o leva a desejar, até mesmo, morrer em nome desse amor. Escrito em estilo bem coloquial, o poema "Destino" é formado por três estrofes de oitava com rimas ricas e toantes, que são distribuídas de formas cruzadas e emparelhadas. Possui versos livres, antítese e personificação da natureza. (Texto V)

Leitura do poema

Nas duas primeiras estrofes percebemos que o sujeito poético, para confessar a sua paixão, faz diversas indagações sobre os ciclos dos elementos da natureza, associando o processo natural de cada um deles ao sentimento que nutre pela sua musa, sentimento esse que parece crescer de forma tão espontânea e inexplicável. Na tentativa de uma autojustificação, declara que seu amor é instintivo, tudo o que sente há uma ligação íntima com a própria força da existência, fato que ocorre não só a ele, mas com todas as coisas naturais, não há como esquivar-se.

Revela, nos três últimos versos da segunda estrofe, que o amor sentido é previsível, que está predestinado a amar sua musa. Na última estrofe o eu lírico faz referencia ao "seu fado", ou seja, o seu destino em cumprir o papel de adorá-la, pois somente ela é sua razão de viver; uma mulher idealizada que lhe serve de inspiração, sentindo por ela uma afeição tão romântica, que chega a desejar, por consequência dessa adoração, até mesmo a morte, demonstrando ser condenado a esse amor. (N.M.S.)

SAIBA MAIS

MOISES, Massaud. A literatura portuguesa através dos textos. Editora Cultrix: São Paulo, 2002

GOLDSTEINS, Norma. Versos, sons e ritmos. Editora Ática: São Paulo, 2008

CÂNDIDO, Ântonio. O estudo analítico do poema. Humanitas Publicações: São Paulo, 1996

GARRETT, Almeida. Folhas Caídas. Editora Ulisseia: Lisboa, 1998

VICTOR, Hugo. Do grotesco e do sublime - - Tradução do Prefácio de Cromwell. Editora: Perspectiva, São Paulo, 2002

Trechos

TEXTO IV

São belas - bem o sei, essas estrelas, / Mil cores - divinais têm essas flores; / Mas eu não tenho, amor, olhos para elas: / Em toda a natureza / Não vejo outra beleza / Senão a ti - a ti! /// Divina - ai! sim, será a voz que afina / Saudosa - na ramagem densa, umbrosa. / Será: mas eu do rouxinol que trina / Não oiço a melodia, / Nem sinto outra harmonia / Senão a ti - a ti! /// Respira - n´aura que entre as flores gira, / Celeste - incenso de perfume agreste. / Sei... não sinto: a minha alma não aspira, / Não percebe, não toma / Senão o doce aroma / Que vem de ti - de ti! /// Formosos - são os pomos saborosos, / É um mimo - de néctar o racimo: / E eu tenho fome e sede... sequiosos, / Famintos meus desejos / Estão... mas é de beijos / É só de ti - de ti! /// Macia - deve a relva luzidia / Do leito - ser por certo em que me deito / Mas quem, ao pé de ti, quem poderia / Sentir outras carícias, / Tocar noutras delícias / Senão em ti - em ti! /// A ti! ai, a ti só os meus sentidos, / Todos num confundidos, / Sentem, ouvem, respiram; / Em ti, por ti deliram. / Em ti a minha sorte, / A minha vida em ti; / E, quando venha a morte, / Será morrer por ti.

TEXTO V

Quem disse à estrela o caminho / Que ela há-de seguir no céu? / A fabricar o seu ninho / Como é que a ave aprendeu? / Quem diz à planta «Florece!» / E ao mudo verme que tece / Sua mortalha de seda / Os fios quem lhos enreda? /// Ensinou alguém à abelha / Que no prado anda a zumbir / Se à flor branca ou à vermelha / O seu mel há-de ir pedir? / Que eras tu meu ser, querida, / Teus olhos a minha vida, / Teu amor todo o meu bem... /// Ai!, não mo disse ninguém. / Como a abelha corre ao prado, / Como no céu gira a estrela, / Como a todo o ente o seu fado / Por instinto se revela, / Eu no teu seio divino. / Vim cumprir o meu destino... / Vim, que em ti só sei viver, / Só por ti posso morrer.

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