Roger Bastide

O delírio e a razão

Recém-lançado no País, tradução de livro de Roger Bastide propõe sociologia dos sonhos, do transe e da loucura

00:00 · 27.03.2016 por Dellano Rios - Editor de área

Roger Bastide (1898- 1974) foi um dos jovens sociólogos franceses que integraram a missão que ajudou a fundar a Universidade de São Paulo. Como outros cientistas sociais, caso do antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908- 2009), a cultura brasileira tornou-se não apenas objeto de interesse, explorado em um livro ou poucos artigos; ela passou a ocupar lugar central na construção teórica do autor, cuja influência supera o tempo de permanência no País.

"O sonho, o transe e a loucura" (1972), editado originalmente em francês pela Éditions Le Seuil, foi publicado quase duas décadas depois de Bastide deixar o Brasil (ele viveu aqui de 1937 a 1954 e interagiu com diversas grupos, como o Instituto do Ceará). Nele há muito do Brasil, como as pesquisas centradas nas populações negras e latino-americanas. E o País parece ter ajudado a moldar algumas das ideias do sociólogo.

Aqui, Bastide encontrou elementos que serviram de suporte para o desenvolvimento de ideias nada fáceis de digerir pela sociologia. O livro acima citado enumera três dimensões que o francês pretendia compreender a partir da disciplina, domínios de que apenas a psicologia e as ciências médicas haviam se acercado antes. "(A obra tem) aptidão por religar aquilo que, anteriormente, tendia a ser considerado algo a ser separado e até mesmo colocado em oposição: o rígido dualismo do psicológico ou do social da psiquiatria contra a sociologia ou vice-versa", define o antropólogo François Laplantine, na introdução do livro.

Para Bastide, a sociologia clássica insistia num modo de racionalidade que negligenciava a parte noturna de nossa existência. Laplantine classifica como "fictícia" a ruptura ente imaginário e real, sonho e vigília. "Se um homem for impedido de sonhar, ele enlouquece. E, se não nos proporcionarmos as condições para estudar, psicológica e sociologicamente, o sonho e o inconsciente, teremos poucas possibilidades de chegar a um conhecimento, não totalmente racional, porém ainda assim razoável, daquilo que se exerce na loucura".

Bastide se aproximava de um tema que muitos preferiam ver restrito à psicologia. Para ele, era essencial dar este passo. Dedicado à compreensão das religiões brasileiras de matriz africana, era impossível manter-se atento apenas ao mundo "diurno". O transe ocupava um lugar central e ele era a fuga do mundo desperto; um mergulho em uma zona imprecisa, dos deuses e, segundo tradições que remontam a Antiguidade, a mesma dos sonhos.

"O sonho, como objeto de pesquisa, já foi exploradíssimo pela terapia junguiana. Não sei até que ponto Bastide teve contato com as teorias de Jung", explica Carlos Eugênio Marcondes de Moura, sociólogo e historiador, uma referência nos estudos da religiões afro-brasileiras - e foi esse o acesso por onde chegou à obra de Bastide, autor de livros como "O Candomblé da Bahia" e "O Sagrado selvagem". O pesquisador lembra que as posições de Bastide não chegaram à academia sem resistência. "Sempre surgem as críticas. No caso do Bastide, há uma pesquisa que ele fez sobre a umbanda em São Paulo, que alguns questionam, dizendo que o contato dele na cidade foi muito superficial. Ele passou um tempo na Bahia e teve um envolvimento maior com candomblé do que com a umbanda", detalha.

Contudo, hoje há uma abertura maior para explorar territórios aparentemente menos ortodoxos, como a vasta região que envolve sonho, devaneio e transe. "As coisas estão muito abertas. As informações circulam mais. Naquela época, não sei se isso era tão comum. Duvido que o fosse", avalia Carlos Eugênio.

Lacuna

"O sonho, o transe e a loucura" acaba de ganhar sua primeira edição brasileira. O livro sai pela Três Estrelas, com tradução de Moura. O pesquisador propôs uma tradução e a editora topou. Dos livros mais importantes do sociólogo francês, era um dos poucos ainda inédito no Brasil.

"A última publicação do Bastide foi em 2011 ('Impressões do Brasil', da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo)", conta o tradutora. Apesar de ser uma referência, sobretudo para quem transita pelo território da sociologia da religião, e de sua proximidade com o Brasil, o francês tem uma relação instável com nossas editoras.

Pode-se dizer que o essencial de Bastide foi publicado aqui, mas é certo que obras importantes do autor estão há muito esgotadas. Caso de "Arte e sociedade" (1945), disputado em sebos ou substituído por edições estrangeiras, em francês e espanhol.

Há possibilidade de novos títulos do autor aparecerem por aqui num futuro próximo. "Na editora, abriram a possibilidade de se publicar mais coisas de Bastide. Vamos ver o que acontece", revela Moura.

Enquanto isso, o pesquisador se dedica à tradução de "La musique et la transe. Esquisse d'une théorie générale des relations de la musique et de la possession", do etnomusicólogo francês Gilbert Rouget. "Ele fala do transe no mundo grego romano, em algumas etnias africanas, no candomblé, no mundo islâmico... No mundo islâmico, algumas pessoas, ao ouvirem a leitura do alcorão, entram em transe. Estou tentando colocar esse livro em alguma editora. Comecei a traduzir por minha conta. Séria fantástico publicá-lo. Ainda não encontrei um editor, mas estou batalhando".

O sonho, o transe e a loucura
Roger Bastide

Tradução: Carlos Eugênio Marcondes de Moura

TRês Estrelas

2016, 392 páginas

R$ 69,90

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