Ensaio

O debate íntimo na poética ontológica de José Régio

Dono de uma extrema sensibilidade, José Régio traz à tona uma peleja entre o eu e os descaminhos do mundo

00:00 · 11.05.2014
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Salvador Dalí: "A persistência da memória - relógios derretidos"; óleo sobre tela, 24 cm x 33 cm - obra datada de 1931; a partir do rompimento com as barreiras objetivas da realidade, põe o ser ante o perecível

O discurso literário de José Régio é marcado, no geral, pelo contraste e os conflitos entre os seres e do próprio ser consigo e a temática religiosa é recorrente. Na poesia de José Régio há a construção de sentidos que põem em destaque o lado mais frágil da condição humana.(Texto I)

As poesias de José Régio nos inspiram sentimentos dúbios e contraditórios. O amor e a fé são dos principais temas tratados em sua obra, sempre marcada por conflitos de ordem moral, religiosa. É certo que a obra do poeta de Vila do Conde nos leva a refletir acerca da condição humana quando em face de questões como a existência de Deus. A composição "Testamento do Poeta" faz parte da obra de estreia de José Régio; é um soneto, poema de forma fixa no qual, ao longo de 14 versos, relembra a trajetória de um homem que, no fim da vida, descobre o que torna verdadeiro o sentido desta, como numa epifania . É formado por versos regulares de rimas cruzadas e pobres. (Texto II)

Leitura do poema

O poema se inicia com o homem já em fase final da sua existência, relatando sua resignação. A primeira estrofe nos mostra o ser desesperançoso da vida quando diz que não é dos que se aceita, a não ser mortos, como se na morte o homem encontrasse a sua paz. No terceiro verso, mais uma vez o homem demonstra sua aceitação, pois já desistira da busca antes iniciada. Na segunda estrofe, o eu lírico relaciona seu estado atual com o anterior, a velhice à mocidade. Relembra os sonhos de quando era jovem, os quais podiam ser contemplados em seu semblante, porém que, no estado atual, não podem mais ser percebidos em seu corpo hoje já velho e torto. No sexto verso, o eu lírico reforça a importância dos sonhos de amor de outrora, quando diz que foram os seus melhores pascigos, podendo ser tomados como algo que o movia. Na terceira estrofe, ele compara a perda dos sonhos à perda da importância que dá as outras pessoas de sua vida, até mesmo presença de Deus se esvai. Na quarta e última estrofe ele dá a receita para retomar o brilho que a vida lhe parecia ter, revelando sua existência de poeta no mundo pois, para reaver os sonhos que tinha, basta-lhe o gesto próprio de um poeta, que é contar um verso.

Sabedoria

O poema "Sabedoria" também faz parte da obra Poemas de Deus e o Diabo. É composto por uma quintilha, duas sextilhas e um dístico. Mostra as fases da vida do eu poético, que foi adquirindo a sabedoria de não mais esperar por algo que não viria. (Texto III) No primeiro e segundo versos, o eu poético expõe o motivo da mudança em sua vida, o cansaço, a perda de interesse por tudo. A mudança, no entando, não parece ser para melhor, pois há apenas a vida sem esperança, onde o eu lírico demonstra resignação de esperar a morte quando Deus achar que deve. Na segunda estrofe, o eu lírico relata sua espera pelo amor, o qual nunca veio, em um ambiente de sonhos. O eu lírico fala dos extremos dos seus sonhos, que vão da estrela mais rara à estrela com qual ninguém mais tal se conformara. Na terceira estrofe, o eu lírico retoma seu momento atual, quando já nada espera da vida, senão a morte. Em sua realidade, o querer não pode ser realizado, se tornando seu estado imutável.

O amor se mostra como algo que poderia ter acontecido no passado, mas que, como não aconteceu, não pode mais ser no presente. Nos dois últimos versos, os quais compõem o único dístico do poema, o eu lírico mostra através de uma metáfora que, apesar de seu sofrimento, a vida segue seu curso normal.

Trechos

TEXTO I

José Régio apresenta, em sua poesia, o homem mergulhado na relatividade, carente do Absoluto. Há uma angústia nesse modo de viver, pois o vazio permanece e é necessário viver, ainda que sem uma causa maior aparente. Daí deriva o enfrentamento contínuo entre o eu pensante e a sua própria consciência. De acordo com Massaud Moisés, "o debate íntimo nasce do fato de sentir a necessidade do Absoluto, que lhe dá a medida de sua relatividade" (Moisés 2005: 260). Resta-lhe, então, o desabafo; "a desesperança vence o orgulho, o poeta arrasta-se, despoja-se" (idem)" (ANDRADE, 2009)

TEXTO II

Todo esse vosso esforço é vão, amigos/ Não sou dos que se aceita... A não ser mortos. / Demais, já desisti de quaisquer portos; / Não peço a vossa esmola de mendigos. /// O mesmo vos direi, sonhos antigos / De amor! olhos nos meus outrora absortos! / Corpos já hoje inchados, velhos, tortos, / Que fostes o melhor dos meus pascigos! /// E o mesmo digo a tudo e a todos, - hoje / Que tudo e todos vejo reduzidos, / E ao meu próprio Deus nego, e o ar me foge. /// Para reaver, porém, todo o Universo, / E amar! e crer! e achar meus mil sentidos!.... / Basta-me o gesto de contar um verso.

TEXTO III

Desde que tudo me cansa, / Comecei eu a viver. / Comecei a viver sem esperança... / E venha a morte quando / Deus quiser. /// Dantes, ou muito ou pouco, / Sempre esperara: / Às vezes, tanto, que o meu sonho louco / Voava das estrelas à mais rara; / Outras, tão pouco, / Que ninguém mais com tal se conformara. /// Hoje, é que nada espero. / Para quê, esperar? / Sei que já nada é meu senão se o não tiver; / Se quero, é só enquanto apenas quero; / Só de longe, e secreto, é que inda posso amar. . . / E venha a morte quando Deus quiser. /// Mas, com isto, que têm as estrelas? / Continuam brilhando, altas e belas.

FIQUE POR DENTRO

Aspectos gerais do poeta e de aspectos da obra

José Maria dos Reis Pereira nasceu em Vila do Conde a 17 de Setembro de 1901, porém passou grande parte de sua vida em Portalegre. Foi professor, poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta, crítico, memorialista, diarista e desenhista e, por fim, foi o único escritor em língua portuguesa a dominar todos os gêneros literários. No ano de 1925 dá-se a sua estreia literária, publicando Poemas de Deus e do Diabo, usando pela primeira vez o pseudônimo de José Régio. Em 1927 funda, com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, a revista intitulada Presença, a qual tinha o intuito de modernizar as artes de Portugal. Nos anos finais de sua vida, desenvolveu o gosto por colecionar antiguidades, sem nunca abandonar a produção literária.

Larissa da Costa Pacheco
Especial para o Ler*

Graduanda em Letras na Uece

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