CRÔNICA

O cotidiano ou os cantares da cidade

23:01 · 21.04.2007
( Reprodução )
Seja pela descrição dos vampiros que povoam a metrópole, seja pela anti-louvação que faz à cidade onde mora, Pedro Salgueiro direciona sua crítica ao provincianismo e vícios urbanos.

O ensaísta Massaud Moisés, no ´Dicionário de termos literários´, (São Paulo: Cultrix, 1974, p. 131-133) exprime, em síntese, as várias acepções do vocábulo ´crônica´ ao longo dos tempos. No início da era cristã, designava uma relação de acontecimentos, cronologicamente ordenados, simplesmente registrados, sem o aprofundamento das causas, tampouco interpretados. A partir do século XIX, passou a rubricar textos que só longinquamente se vinculavam à forma primitiva de crônica, ostentando estrita personalidade literária.

A crônica, em sua feição moderna, via de regra publicada em jornais ou revistas, concentra-se num acontecimento diário que tenha chamado a atenção do escritor, em introspecções ou em motivos encomiásticos etc. É uma expressão literária híbrida: pode assumir a forma de alegoria, necrológio, entrevista, confissão, diálogo etc, bem como girar em torno de personagens fictícias ou reais.

O território da crônica estabelece uma fronteira entre a poesia e conto, uma vez que um fato do cotidiano faz emergir a subjetividade do sujeito na escrita, dando vazão a seu discurso poético ao mesmo tempo em que liberta o contador de histórias que, nele, antes, estava adormecido. Pedro Salgueiro, contista consagrado, palmilha, agora, um outro caminho - e já começa a distinguir-lhes as veredas, ainda que, em alguns momentos, em vez de crônicas os textos inscrevam-se mais no gênero conto.

A crônica de abertura - a que dá título ao livro, e tal é uma tradição dos livros desse gênero - é, a rigor, uma anti-ode, construída a partir da reiteração de termos e de imagens. O elemento-chave do discurso é a expressão ´Te odeio, Fortaleza´, uma vez que introduz sempre uma leitura pessoal do que compõe a vida social, cultural, artística e intelectual da cidade. O autor trata, com sarcasmo, as agremiações culturais, os clubes sociais, a paisagem etc, assumindo, assim, uma postura mais apropriada a um jovem iniciante, inconformado com o anonimato, do que a um escritor de talento já reconhecido. Do ponto de vista formal, o texto tem todo o molho que o gênero crônica impõe como fundamental: sintético, intrigante, com jogos de palavras, humor, ironia, bem como a habilidade em realizar a técnica da disseminação e do recolho.

Dois textos espelham bem as fronteiras entre a crônica e o conto: ´Vampiros´ e ´Na Praça´. Constituem duas composições narrativas. Talvez por desconfiar de que um conflito começa a insinuar-se, em ´Vampiros´ o autor se justifica: ´Precisaria de um romance inteiro, e não desta minúscula crônica, para descrever a enormidade de sujeitos viris que vagam pelas ruas...´ (p.16); em ´Na Praça´, tudo o que se inscreve em torno do camelô, com seus truques e espertezas, não se direciona, em tempo algum, a um conflito - consoante exigência da crônica moderna.

Na montagem de seu discurso, o escritor se serve de recursos os mais diversos: paródia (´A nossa burrinha loura desmiolada pelo sol´ - p. 24); o grotesco (´Os palhaços continuavam fazendo rir muito mais pelos seus aspectos ruins, suas caretas arremedando gargalhadas, onde somente as bocas riam, os olhos não.´ -p. 27); alusão a monumentos e personalidades da cidade: ´...o velho dragão Alcides Pinto sobrevoando as copas das árvores...´ - p. 33); o tom confessional: (´Até já criei o hábito de tirar um dia no mês para passar nos endereços antigos pegando correspondência.´ -p. 57).

A obra aponta uma outra veia do contista: acostumado a percorrer os escuros da condição humana, onde evolam as manifestações da violência, bem como se incrustam as decomposições, ele, agora, talvez como contraponto, caminha por entre sutis banalidades, entrega-se à graça despretensiosa e reinventa o que até mesmo já se achava esquecido no âmago da anedota popular.

CARLOS AUGUSTO VIANA
Editor

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