Artes cênicas

O corpo pode ser mar

Em "Touro Azul", Milza Gama e Aline Monteiro apresentam os movimentos do oceano de si mesmas

Milza Gama e Aline Monteiro em cena no espetáculo "Touro Azul": projeto propõe cruzamento das linguagens de dramaturgia, dança, audiovisual e literatura
00:00 · 14.04.2018 por Roberta Souza - Repórter

Entre o Rio e Fortaleza, Milza Gama encontrou o mar. A bailarina e atriz, graduada em Dança pela Faculdade Angel Vianna, no Rio de Janeiro, e em Teatro pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), viu no oceano uma saída para o estágio de depressão que enfrentou há quatro anos.

A força da natureza apresentou-se para ela como uma metáfora da própria vida, e o resultado dessa reflexão ganhou forma no espetáculo "Touro Azul", em nova temporada no Teatro do Dragão do Mar neste fim de semana.

Fruto de pesquisa de mais de dois anos, o trabalho surge como um desdobramento do projeto "Acqua", contemplado no X Edital de Incentivo às Artes 2015, apoiado pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará (Secult-Ce).

"Eu vinha desenvolvendo um desejo de falar, de levar as pessoas pra uma conexão com esse universo que está fora do trabalho, do automatismo", conta.

"Acredito que estamos vivendo uma crise civilizatória, estamos perdendo autoconhecimento, nos sobrecarregando com pesos que não são nossos. Meu corpo adoeceu, tive problemas emocionais muito sérios, e foi no mar que eu experienciei mudanças", explica.

Poema

O estudo envolveu desde atividades práticas, como aulas de surf, até teóricas, como leituras diversas sobre o tema. Um dos textos com os quais Milza se deparou foi o poema "Mar Absoluto", de Cecília Meireles. E ele serviu de inspiração para a poética da apresentação por meio da qual se conheceu a pesquisa.

No palco, ela contracena com a também atriz e bailarina Aline Monteiro, ambas sob a direção de Andreia Pires.

"O touro, esse mar, é personificado em corpo. A gente assume as questões cíclicas do mar, a força, o desvencilhamento. Ele é livre: solta e traga na hora que quer. É essa força que temos que ter; essa violência de não ter nada e de ter a si mesmo", reflete.

A bailarina faz ainda outras comparações. "Assim como o mar, não devemos ter medo de enfrentar as coisas que aparecem na nossa frente. É uma questão de leveza, flutuação. O espetáculo fica o tempo inteiro nessas nuances, de respeito as fases da vida", detalha.

Contemporâneo

Em sua concepção, o projeto propunha o cruzamento das linguagens de dramaturgia, dança, audiovisual e literatura. Milza e Aline realizaram um ensaio fotográfico na praia da Taíba, que resultou numa exposição no fim do ano passado. Lá, elas também experienciaram texturas, tudo aproveitado no trabalho final.

"O que se vê no palco, em 45 minutos, é uma dança contemporânea, bem subjetiva. Ela não tem roteiro de começo, meio e fim, mas temos uma pesquisa de movimento corporal que vai estar sendo 'lida' pelo público", explica a idealizadora. "São duas bailarinas travando uma luta. Mas a maioria das pessoas vai entender que é uma força que está querendo reunir. É dança e é teatro, mas não é totalmente nenhuma das duas coisas", ressalva.

Milza explica que, conceitualmente, ela também se baseia nos ensinamentos da bailarina Regina Miranda, com a qual fez especialização em dança. "O corpo, quando contaminado, é poroso, aberto, conectado. Ele assume aspectos do espaço e o espaço assume aspectos do próprio corpo. Compreendemos isso em cena", observa.

A apresentação conta com uma trilha sonora instrumental desenvolvida por Duda Suliano. Além disso, as bailarinas, apesar de não falarem em cena, cantam uma música de Nina Simone no fim do espetáculo, inserido na programação do Mês da Dança no Centro Dragão do Mar.

Depois de dois anos, Milza acredita que o projeto foi finalizado. Os primeiros resultados foram compartilhados ainda em 2017, no Teatro Sesc Iracema. "Agora é circular. Além disso, essa pesquisa está dissolvida nas aulas que ministro. É uma experiência que reverbera no meu jeito de ensinar, com diferentes noções de espaço e corpo", conclui.

Mais informações:

Espetáculo "Touro Azul". Dias 14 e 15 de abril, às 20h, no Teatro Dragão do Mar (R. Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema). Ingressos: R$ 10 (inteira). Classificação: livre.

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