O consumidor como produtor - Caderno 3 - Diário do Nordeste

Cultura

O consumidor como produtor

26.02.2012

A escritora cearense Socorro Acioli: obra deu origem a versão online feita por um leitor
A escritora cearense Socorro Acioli: obra deu origem a versão online feita por um leitor
FOTO: JULIANA VASQUEZ (24/01/2010)
Franquia Star Wars gerou uma série de produtos não-oficiais, criados por seus fãs
Franquia Star Wars gerou uma série de produtos não-oficiais, criados por seus fãs
O escritor Paulo Coelho: uma boa ideia não precisa de proteção
O escritor Paulo Coelho: uma boa ideia não precisa de proteção
Mercado e produtores aprendem a lidar com um novo tipo de público: aquele que quer intervir na obra do artista

Na segunda década do século XXI, os modos de criar, distribuir e consumir cultura estão irreversivelmente modificados pela tecnologia e diferentes meios de comunicação. Em um contexto crescente de desmaterialização e transformação em bits, a produção cultural apresenta novas lógicas de funcionamento. Tendência facilmente perceptível no acesso cada vez mais precoce à tecnologia digital, incorporação do consumo de produtos culturais portáveis e intimidade com a cultura de compartilhamento.    

A popularização dos recursos de produção e edição e a facilidade de divulgação pela internet alimentam a cultura do remix, em que o usuário, ao copiar, recortar e colar elementos de origens diversas, cria algo novo. São os mash-ups (mistura de duas músicas para criar uma terceira), redublagens satíricas de filmes e novelas, os memes da internet (os fenômenos que se espalham como vírus na rede, a exemplo da já citada "Luiza, que está no Canadá").

A indústria do entretenimento nem sempre está preparada para esse cenário, em que o consumidor ultrapassa o que Lawrence Lessig, escritor, professor e um dos fundadores do Creative Commons, chama de cultura do "read only". Graças às facilidades de novas plataformas, além de ler (ou ouvir, ver, jogar), agora ele pode exercer simultaneamente os papéis de fã, consumidor, crítico e produtor cultural.

Amadores

Em seu livro "Cultura da Convergência", Henry Jenkins, professor e pesquisador do MIT (Massachusetts Institute of Technology), destaca que "a web proporciona um poderoso canal de distribuição para a produção cultural amadora. Os amadores têm feito filmes caseiros há décadas; agora, esses filmes estão vindo a público". É o caso dos fãs das séries Star Wars e Harry Potter, que se apropriam dos elementos introduzidos no cinema e nos livros das franquias para criar seus próprios produtos e novas narrativas ficcionais com esses personagens.

Nem sempre é pacífica a convivência entre esse mercado paralelo de produções alternativas feitas por fãs e os produtores comerciais, que desejam ter mais controle sobre sua propriedade intelectual. A LucasArt, produtora de Star Wars, teve que repensar continuamente sua relação cooperativa com esses fãs/consumidores a fim de manter o equilíbrio entre incentivar o entusiasmo com a série e proteger seus investimentos.

Talvez seja um dos melhores exemplos de como o paradigma da convergência vem transformando a cultura de massa. O próprio diretor de Star Wars, George Lucas, se declara um fã de "George Lucas in Love", curta-metragem feito por um estudante de cinema da University Southern Califórnia (USC). Essa pequena obra, de menos de 9 minutos, faz referências a todos os filmes da velha trilogia e tem como personagem principal o próprio diretor de Star Wars na época da faculdade.

Fanfic

Este mês, a escritora cearense Socorro Acioli se deparou pela primeira vez com uma suposta fanfic de um livro seu. As fanfics são ficções criadas por fãs de uma obra, usando-a como ponto de partida para uma nova narrativa. No caso de "A Bailarina Fantasma" (2010), o texto estava exatamente igual ao do livro, apenas com os nomes dos personagens trocados. "Tomei um susto enorme, nunca tinha ouvido falar em fanfic", conta a escritora, que não soube como agir no primeiro momento.

Os primeiros conselhos, via Facebook, foram de processo. Socorro descarta a ideia: "Pelo que vi, é coisa de adolescente. Alguns amigos me escreveram preocupados e explicaram o que era uma fanfic, que seus filhos faziam isso. Como elas não ganham dinheiro com isso, não penso em processar ou tirar a página do ar, só queria que fosse dado o crédito da obra original". Ela diz ainda que enxerga um lado bom, o reconhecimento, mas acharia melhor se "A Bailarina Fantasma" gerasse novas histórias e não apenas cópias. Resta saber como a editora, a paulistana Biruta, avisada do caso pela própria autora, irá reagir.

Alternativas

Para Riverson Rios, professor da UFC, há outras questões envolvidas além dos prejuízos ao direito de autor. Como todas essas facilidades, o volume de conteúdo inédito, sem referência explícita a algum original, que circula na rede fora do guarda-chuva de grandes estúdios e gravadoras também aumenta exponencialmente. "O consumidor não depende mais unicamente dos lançamentos da indústria para ouvir uma música, por exemplo", cita.

Criadores e intérpretes excluídos do mercado tradicional encontram em sites como MySpace, Last.fm e Youtube a oportunidade para a difusão de sua obra. Mesmo músicos e bandas com tempo de estrada aproveitam as facilidades dessas plataformas, não limitadas pelas restrições geográficas e pelos custos próprios da distribuição física. Para ficar apenas na seara musical, Justin Bieber, Ke$ha, Mallu Magalhães e a banda Cine são alguns dos nomes que devem seu sucesso às suas primeiras exposições à internet.

A banda cearense S.O.H. é uma das usuárias do MySpace, onde divulga seu CD por download gratuito, além de colocar no Youtube vídeos de shows e gravações. Segundo George Frizzo, um dos músicos do grupo, além de ser uma mídia menos onerosa, a velocidade com que as informações se propagam e a quantidade de pessoas alcançadas são as principais vantagens. Até uma turnê pela Europa foi marcada pelo contato do MySpace, através de e-mails.

Ele explica que a divulgação tradicional não foi abandonada, mas que a internet, aos poucos, vêm se tornando uma das principais pontes com o público - e, principalmente, com pessoas que possam se tornar público. "É através da internet que muitas pessoas passam a conhecer os trabalhos dos artistas, baixando seus discos, vendo seus vídeos basicamente pela curiosidade de ouvir, só porque alguém comentou que o grupo era bom em um perfil do Twitter ou do Facebook" - ainda que nem sempre esse download signifique um fã ou uma fidelização. "Um exemplo são esses shows em que várias pessoas marcam presença pela internet, mas poucos realmente vão", diz.

FIQUE POR DENTRO

Remix: a arte de copiar, colar e recriar

O termo remix surgiu na década de 70, quando produtores e DJs descobriram que era possível mexer na música já gravada. Com isso, passaram a alterar a obra registrada em estúdio com efeitos, superposições, modulações e encaixes de uma faixa na outra. Apesar de mais comumente relacionado à música, o remix invade outras áreas. Basta que pensemos na pop art e a apropriação de ícones como a Monalisa, de Da Vinci, por Andy Warhol. De carros tunados a roupas customizadas e móveis modulados, inúmeros produtos trazem em si a possibilidade de renovação por parte dos consumidores. Se antes se temia a padronização, agora o estilo e a individualidade passam a valer mais. A internet se mostrou um ambiente propício para uma tendência que já estava em andamento: a troca de informações e o compartilhamento de produtos em processos cada vez mais colaborativos.

SAIBA MAIS

A FAVOR

Indústria fonográfica, estúdios de cinema, produtoras de TV e editoras, que se sentem prejudicadas pela livre distribuição de músicas, livros, filmes, seriados e até streamings de eventos esportivos, na internet. Disney, Marvel Enterteinment Universal, Paramount, Time Warner, EMI e Universal Music são algumas das grandes empresas de entretenimento que aprovam projetos de controle da internet.

CONTRA

Empresas que prestam serviços de acesso a internet, sites que difundem conteúdo e comunidades de compartilhamento. Gigantes da web como Google, Facebook, Flickr, Wikipedia, Wordpress, Craiglist e Mozilla protestaram. A alegação é de que os projetos de lei dariam poderes excessivos às indústrias, afetariam a liberdade de criação e expressão na internet, abrindo precedentes à censura e comprometendo a dinâmica da rede.

EM CIMA DO MURO

Empresas de tecnologia. A princípio companhias como Electronic Arts, Nintendo, Sony Electronics, BSA (que representa Microsoft, Dell, Intel e Apple, entre outras) se posicionaram a favor do Sopa e Pipa, por se sentirem lesadas com a pirataria de jogos e falsificação de consoles e outros equipamentos. Pressionadas pelo público-alvo voltaram atrás e defendem que os projetos devem proteger o desenvolvimento criativo e ainda precisam ser mais discutidos.

DIVIDIDOS

Produtores de conteúdo. Teoricamente, como autores, seriam favoráveis a projetos como Sopa e Pipa. Entretanto alguns escritores como Neil Gaiman e Paulo Coelho defendem que o compartilhamento e livre circulação são mais importantes que os direitos de autor. Duff McKagan, baixista original do Guns N´Roses, foi um dos poucos a se posicionarem a favor dos projetos.

Debate sobre direitos autorais na web divide opiniões

As revoluções tecnológicas do final do século XIX eram basicamente ligadas ao processo de registro. A fotografia fixava a imagem em uma superfície sensível por meio da luz e o gravador retinha o som. Com isso, acabaram contribuindo decisivamente para a consolidação do conceito de autoria no século seguinte. Já a revolução tecnológica que vivenciamos hoje traz uma quebra de paradigma, pois se firma na exposição, colaboração e troca, reduzindo (ou relativizando) a importância da autoria.

No decorrer do tempo, formas culturais tradicionais – como pintura, escultura, teatro e dança – se submeteram a diversas regras de mercado para sobreviverem economicamente. Mas, apesar dos avanços da indústria gráfica na reprodução de telas famosas, ainda é a obra original com suas pinceladas características que vale fortunas.

Também no teatro e na dança, por mais que possamos ver espetáculos pelo Youtube, a difusão por meios digitais é vista como um complemento, já que o caráter único da apresentação ao vivo persiste.

O avanço da cultura digital mexe mais profundamente nas estruturas das indústrias culturais inscritas em suportes materiais e sujeitas ao pagamento do consumidor. Basicamente são os livros, discos, filmes e jogos que são compartilhados. Ainda que um manuscrito de Shakespeare valha milhões de dólares, ninguém deixará de ler “Romeu de Julieta” pela falta do original. Por outro lado, indústrias que sobreviveram durante décadas com um modelo de negócios minoritário – com fotografias artísticas e histórias em quadrinhos independentes – encontram na web novas possibilidades de desenvolvimento.

Não são somente os jovens talentos em busca de exposição ou criadores de pequenas indústrias que não se importam tanto com a distribuição de seus conteúdos na internet. O escritor brasileiro Paulo Coelho – amado por uns, odiado por outros, mas indiscutivelmente sucesso de vendas – iniciou uma parceria com o site The Pirate Bay, endereço que permite a busca e o compartilhamento de arquivos no formato torrent. Improvável? No dia 20 de janeiro, o autor publicou em seu blog um protesto contra o Sopa, a que chamou de “perigo real” que pode “quebrar a internet”.

Escrevendo em inglês, o autor argumenta que a pirataria serve como divulgação do trabalho de um artista. “‘Piratear’ pode servir como introdução ao trabalho de um artista. Se você gosta da sua ideia, então você vai querer tê-lo em casa; uma boa ideia não precisa de proteção. O resto é ganância ou ignorância”.  Ele mesmo mantém o site Pirate Coelho, em que fornece links para seus livros disponíveis em sites de compartilhamento.

Suas vendas em lojas físicas continuam a crescer – são quase 140 milhões de cópias no mundo inteiro.

Divulgação

Em 2009, o cantor Daniel causou polêmica ao afirmar em entrevistas que a pirataria poderia ajudar na divulgação do filme “O Menino da Porteira”, protagonizado por ele. Para o sertanejo, diferente  do que acontecia com sua música, seu filme poderia não chegar até onde seu público estava, já que 90% dos municípios brasileiros não possuem salas de cinema. Ele lembrava ainda do ocorrido, em 2007, com o primeiro filme “Tropa de Elite”, que foi, naquele ano, o filme mais pirateado no País – e também a maior bilheteria nas salas comerciais.

Em carta, a UBV (União Brasileira de Vídeo) lamentou a declaração do cantor: “pirataria não é solução e alternativa para nada. Pirataria é crime previsto em lei, ela é um câncer que deve ser combatido por toda a sociedade brasileira, mas, principalmente pela classe artística e produtora de obras audiovisuais”. A entidade argumentava que a pirataria provoca queda no número de produções e de público nos cinemas. “O filme ‘O Menino da Porteira’ provavelmente não terá metade do público que deveria e não comercializará nem 25% de DVDs que poderia, porque a pirataria não vai permitir”. Segundo a Ancine (Agência Nacional do Cinema), o filme foi visto por mais de 666 mil pessoas, sendo a quinta maior bilheteria nacional daquele ano.

A queda de braço entre artistas e representantes da indústria tem gerado situações curiosas, como o vídeo em favor do Megaupload, serviço muito popular para troca de conteúdo digital entre internautas. Após ser fechado pelo FBI (Federal Bureau of Investigation), em janeiro, sob acusação de pirataria, foi iniciada uma batalha judicial, com vários desdobramentos na internet. Entre eles, um vídeo com quatro minutos de duração que mostra estrelas do hip-hop, como Kanye West, Puff Daddy e Snoop Dogg cantando versos a favor do site.

Tudo estaria bem, se os artistas não fossem contratados da Universal Music, justamente uma das gravadoras mais ativas na campanha anti-pirataria. A empresa argumenta que eles não poderiam aparecer em um vídeo promocional de um produto sem sua autorização. Inicialmente o Youtube atendeu ao pedido da gravadora e tirou o vídeo do ar, mas depois reverteu e decisão e voltou a exibi-lo. O Megaupload, em contrapartida, abriu um processo contra a Universal por tentar inibir esforços legítimos de promover o serviço de compartilhamento.

MÔNICA LUCAS
ESPECIAL PARA O CADERNO 3

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