ROMANCE

O confronto entre vidas sob as forças do destino

00:36 · 25.05.2013
Os traumas de uma guerra e o desejo de reconstrução são os elementos-chave desta narrativa

Narrado em terceira pessoa, isto é, sob um ponto de vista externo, com as marcas da onisciência e da onipresença, este romance, por conta disso, une à ação mergulhos na interioridade das personagens, descortinando-lhes a subjetividade, conforme os expedientes do discurso indireto livre: "Quando sua menstruação não veio, Isabel ficou empolgada. Quando já havia abandonado qualquer esperança de outra criança, suas expectativas estavam prestes a desconcertá-la. Iria esperar um pouco mais, continuar rezando, antes de dizer qualquer coisa a Tom. Mas via seus pensamentos vagarem, sonhando acordada com um irmão ou uma irmã para Lucy. Seu coração transbordava. De repente, o sangue veio com toda a força, vingativamente, mais denso e doloroso, de um jeito que ela não poderia ter antecipado". Era inevitável o sofrimento a banhar o cotidiano da protagonista.

Detalhe da capa do romance "A Luz entre Oceanos", de M. L. Stedman. A trama se passa numa ilha isolada, espaço escolhido pelo protagonista como refúgio a seus conflitos íntimos. O destino, porém, jogará com sua vida e suas aspirações

O espaço

Os cruéis acontecimentos da Primeira Guerra Mundial deixaram marcas indeléveis no protagonista desta história: Tom Sherbourne. Traumatizado, ele, empós a dura vivência, resolve voltar ao seu torrão natal, a Austrália, na tentativa de reconstrução de sua vida. Exatamente por aspirar a uma paz nunca antes sentida, ele se torna o faroleiro de Janus Rock - uma ilha isolada ao oeste da costa australiana: "Era uma área de dois e meio quilômetros quadrados de verde, com capim suficiente para alimentar as poucas ovelhas, cabras e um punhado de galinhas, e com bastante terra para sustentar o rudimentar canteiro de verduras e legumes.". Para a ilha, as correntes traziam todo o tipo de coisas: destroços de naufrágios e cargas de navios lançadas ao mar giravam como se estivessem entre dois propulsores iguais: restos de madeira, baús de chás, barbatanas de baleias. E tudo surgia a seu próprio tempo, a seu próprio modo.

A trama

Tom e sua mulher, Isabel, tinham uma vida pacífica, e os dias se arrastavam sem grandes sustos, até ela sofrer dois abortos espontâneos e, depois, descobrir que não poderia mais ser mãe. Duma feita, um barco naufragado aporta na ilha, trazendo em seu bojo um homem já morto e um bebê - este ainda com vida. Deste acontecimento trágico, ressurge a esperança de Isabel em ter uma criança. Burlando as regras, Tom não registra o acidente que envolvera o barco, tampouco a chegada inesperada da criança. Por conta disto, o jovem casal irá protagonizar um drama moral, de que decorre uma série de eventos com desdobramentos devastadores. De repente, as coisas não mais transcorrem de acordo com suas aspirações. A cada dia, novas revelações irão modificar o desenrolar-se dos dias. Nada será como antes.

Considerações finais

O isolamento natural do lugar funciona como uma proteção do casal do mundo lá fora. Quase ninguém visita o local. Assim, a princípio, parece muito fácil esconder a criança dos olhos do mundo. Mas tudo isso é quebrado quando eles decidem batizar a menina, a quem já haviam dado o nome de Lucy.

Tom acaba descobrindo quem é a mãe da criança, desolada com o desaparecimento do marido e da filha. Diante do impasse, Tom toma uma decisão, cujas consequências são terríveis para todos os que se encontram envolvidos por este drama. O faroleiro, então, em vez da luz nos caminhos do mar, só depara escuridão. Uma narrativa sobre perdas, renúncias e escolhas. Personagens como marionetes.

LIVRO

A Luz entre Oceanos
M. L. Stedman
ROCCO
2013, 368 Páginas
R$ 34,50

CARLOS AUGUSTO VIANA
EDITOR

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