Ensaio

O conflito entre o relativo e o absoluto

00:00 · 11.05.2014
Image-0-Artigo-1606962-1
Salvador Dalí: "Cristo de São João da Cruz"; óleo sobre tela, aqui apresentado como um detalhe desta obra, enquadrada na vanguarda estética do Surrealismo e tradutora do espírito inquieto de seu autor, num intenso jogo de luz

A densa obra que José Régio nos deixou reflete um pouco dele próprio, pois apresenta um questionador conflito entre a figura do homem e Deus. A ausência e negação da fé e o ser que questiona a bondade ou até mesmo a existência divina é tema presente em seus poemas. As dicotomias entre bem e mal, Deus e Diabo estão muito bem representadas em poemas como Adão e Eva.

Ignoto Deo

Soneto provindo da obra Biografia, a segunda escrita por José Régio, Ignoto Deo é composto de rimas ricas e cruzadas. (Texto IV)

O poema nos remete um distanciamento entre Deus e o eu lírico. O ser que nega a fé nos é apresentado a partir de várias recusas perante de Deus, intensificando a postura do poeta. Na primeira estrofe, o eu lírico revela desistir de Deus, ao desistir, ele revela que um dia já acreditou nele, mas que hoje não mais acredita, apesar de não saber seu verdadeiro nome ou forma. Na segunda estrofe, podemos ver o eu poetico que a necessidade que temos Deus em nosso íntimo, que é, no entanto, uma necessidade irracional. Através da racionalidade, o eu lírico diz no sétimo verso que empenhou em domar tal necessidade de Deus, pois esta seria em vão. Na terceira estrofe, o eu poetico nega mais uma vez, talvez pela angustia de tentar encontrar a figura divina e não ter tido sucesso em sua busca. O soneto expressa um momento anterior no qual o eu lírico fala, marcado pela busca de um Deus. O último verso vai contra toda a argumentação do eu-lírico, pois revela que, mesmo cansado de procurar, ele tem consciência do amor de Deus pelos seres criados; "Tu é que não desistirás de mim!", sendo Deus o tu.

Baile de Máscaras

Soneto encontrado na obra Biografia, Baile de Máscaras revela a crise de identidade do eu lírico, diante das escolhas que fez em sua vida. É composto por rimas ricas e interpoladas, em que vida é uma alegoria, com cada ser sendo representado pelas máscaras que usa. (Texto V)

No poema, o eu lírico tece uma rede de lembranças, na qual critica a vida de aparências da sociedade na qual está inserido. O conflito presente aqui é no que ele demonstra ser e no que ele realmente é; o ser relativo e o absoluto. Quanto mais se disfarça, menos se conhece. Na segunda estrofe, o eu lírico demonstra que, de tantas máscaras que usara, já não se reconhece, estando assim numa busca por si mesmo. Na terceira estrofe o eu poético revela a consequência de ter usado tantas máscaras; o rosto ensanguentado. A figura da máscara é vista como recurso poético, que representa as muitas faces que o eu lírico pode ter durante a vida. Assim, a idéia do fingimento encontra-se "desmascarada". Se em uma hora, o eu lírico é um fingidor confesso, noutra ele reflete sobre o mal que ele mesmo se causou.

Soneto de Amor

Neste soneto, José Régio nos apresenta o amante carnal, que vai de encontro ao pedido de amor puro do ser amado: (Texto VI)

No começo do poema já podemos sentir o tom que o autor deu à obra, é um soneto de amor carnal. O eu lírico se revela um amante de poucas palavras, o qual se entrega de corpo ao ser amado, ele se faz de abrigo ou um porto seguro quando diz "deixa cair as pálpebras pesadas", como quem diz que é nele onde seu amante pode descansar. Na segunda, estrofe percebemos a realização do amor entre o eu lírico e o ser que ama, a imagem do ato é claramente desenhada pelo autor, onde línguas se buscam desvairadas. Depois do ato de amor, por fim o eu lírico ordena à amada que abra os olhos e não fale nada, se revelando, então, mais uma vez, de certo modo, inimigo das palavras.

SAIBA MAIS

ANDRADE, Alexandre de Melo. Álvaro de Campos, José Régio e Miguel Torga: Do olhar absoluto para o olhar relativo. São Paulo: Estação Literária, 2009.

GOLDSTEINS, Norma. Versos, sons e ritmos. Editora Ática: São Paulo, 2008.

RÉGIO, José. Poemas de Deus e do Diabo. Porto: Brasília, 1972.

Trechos

TEXTO IV

Desisti de saber qual é o Teu nome, / Se tens ou não tens nome que Te demos, / Ou que rosto é que toma, se algum tome, / Teu sopro tão além de quanto vemos. /// Desisti de Te amar, por mais que a fome / Do Teu amor nos seja o mais que temos, / E empenhei-me em domar, nem que os não dome, / Meus, por Ti, passionais e vãos extremos. /// Chamar-Te amante ou pai... Grotesco engano / Que por demais tresanda a gosto humano! / Grotesco engano o dar-te forma! E enfim, /// Desisti de Te achar no quer que seja, / De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja... / - Tu é que não desistirás de mim!

TEXTO V

Contínua tentativa fracassando, / Minha vida é uma série de atitudes. / Minhas rugas mais fundas que taludes, / Quantas máscaras, já, vos fui colando? /// Mas sempre, atrás de Mim, me vou buscando / Meus verdadeiros vícios e virtudes. / (-E é a ver se te encontras, ou te iludes, / Que bailas nesse entrudo miserando ...) /// Encontrar-me? iludir-me? ai que o não sei!/ Sei mas é ter no rosto ensanguentado/ O rol de quantas máscaras usei ... /// Mais me procuro, pois, mais vou errado. / E aos pés de Mim, um dia, eu cairei, / Como um vestido impuro e remendado!

TEXTO VI

Não me peças palavras, nem baladas, / Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio, / Deixa cair as pálpebras pesadas, / E entre os seios me apertes sem receio. /// Na tua boca sob a minha, ao meio, / Nossas línguas se busquem, desvairadas... / E que os meus flancos nus vibrem no enleio / Das tuas pernas ágeis e delgadas. /// E em duas bocas uma língua..., - unidos, / Nós trocaremos beijos e gemidos, / Sentindo o nosso sangue misturar-se. /// Depois... - abre os teus olhos, minha amada! / Enterra-os bem nos meus; não digas nada... / Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.