Ensaio

O cônego ou a metafísica do estilo

00:48 · 01.06.2013

Este ensaio pretende assinalar a possível relação de "diálogo" ou mesmo de antecipação entre o conto "O cônego ou a metafísica do estilo", de Machado de Assis, e a ideia de inconsciente desenvolvida pelo pai da Psicanálise, Sigmund Freud

A partir da proximidade do enredo da narrativa literária com a abordagem psicanalítica de inconsciente, sobejamente demonstrada ao longo deste artigo, concluímos que realmente há "diálogo" e uma certa antecipação da ideia freudiana de inconsciente no conto machadiano. Tais relações ocorrem, naturalmente, dentro dos limites e características que são próprios de cada campo científico em que ambos os autores estão inseridos.

O ficcionista, cronista e poeta Machado de Assis cultivou o humor e a ironia como elementos-chave

Os diálogos

Conforme Bakhtin, não existe texto que não seja um "eco" de outros textos. Os enunciados, sejam eles escritos ou não, estão em permanente diálogo. Talvez por isso seja possível lermos um livro tendo continuamente outro em mente. Esse é um dos motivos pelos quais a leitura de uma obra nos faz recuperar outros enunciados. Tal experiência faz-nos cogitar um possível contato entre ambos os autores, ou com o assunto textual que os aproxima. Sem a apreensão da ideia de "dialogismo" mantido entre os textos, ideia formulada por Bakhtin, pela semelhança com que alguns escritores tratam dos mesmos temas, mesmo considerando a enorme distância geográfica e cronológica entre eles, pensaríamos - como muitas vezes o fazemos - a possibilidade de algum autor ter produzido uma paráfrase de outro.

Essa tentação nos ocorre quando lemos o conto "O cônego ou metafísica do estilo", de Machado de Assis. A sensação inicial é a de estarmos diante de um texto extremamente influenciado, talvez até demarcado pela psicanálise de Sigmund Freud; mais especificamente pelo conceito de "inconsciente" do médico e psicanalista austríaco.

Especulações

Mas terá sido o texto machadiano influenciado por assuntos posteriormente abordados pela Psicanálise? Terá Machado de Assis lido algo a respeito? Ou trata-se apenas de algo equacionável pelo conceito de "dialogismo"?

Cremos ser possível discutir uma quarta proposta: a de antecipação. Façamos, pois, uma pequena reconstituição cronológica da origem e do desenvolvimento da Psicanálise para assim observar se é ou não possível discutir algum tipo de antecipação psicanalítica no texto machadiano.

O psicanalista Sigmund Freud é o criador do conceito de inconsciente e de uma obra original

A Psicanálise

Sigmund Freud, médico vienense, foi alguém que alterou radicalmente o modo de enxergar a vida psíquica. A histeria e outros complexos processos do psiquismo, relegados por muito tempo ao mistério e ao campo dos fenômenos religiosos, foram transformados por Freud em campo de investigação científica. Alguns estudiosos equiparam o grau de relevância de suas descobertas à contribuição de Karl Marx na compreensão dos processos históricos e sociais.

Por algum tempo, Sigmund Freud clinicou fazendo uso da hipnose, técnica criada pelo médico austríaco Josef Breuer e utilizada também pelo um psiquiatra francês Jean Charcot no "tratamento catártico", com quem teve contato em Paris, nos primeiros anos de 1880, e com quem aprendeu a técnica. Mas, por ser um inquieto observador e incansável pesquisador, Freud abandonou a hipnose ao perceber em suas consultas que outra técnica prestava-se melhor à condução dos pacientes à cura. Esta ficou conhecida como "técnica da concentração" ou "associação livre", na qual, por meio de uma conversação livre mantida com o paciente, a rememoração sistemática de certas cenas e vivências traumáticas era obtida, trazendo, como consequência, o desaparecimento dos sintomas que faziam o paciente sofrer. Tal prática tornou-se o útero do qual surgiria a Psicanálise.

Do inconsciente

Havia, no entanto, uma indagação a ser respondida: qual seria a causa de os pacientes esquecerem tantos fatos de sua vida interior e exterior? Foi tentando responder a esse questionamento que Sigmund Freud desenvolveu o conceito de inconsciente.

O inconsciente é "o conjunto dos conteúdos não presentes no campo atual da consciência". Conteúdos estes que, estando um dia na consciência, facilmente perceptíveis, se perderam no esquecimento. Uns pela ação de censuras internas; outros por razões abscônditas.

Dos limites

A Psicanálise é um campo de investigação extremamente amplo e riquíssimo em conceitos. Porém, dentro dessa linha de pesquisa, desejamos dar destaque à concepção de inconsciente e tentar mostrar os possíveis "diálogos" ou relações de antecipação que o conto "O cônego ou metafísica do estilo", de Machado de Assis, mantém com essa ideia, haja vista ter sido este conto escrito alguns anos antes do surgimento da Psicanálise, o que se deu por intermédio da obra "Interpretação dos Sonhos", escrita por Sigmund Freud em 1900.

Evidentemente não podemos ser ingênuos em afirmar que a ideia de inconsciente tenha sido criada por Freud. Ele tampouco fora o primeiro a falar sobre esse tema. Mas a versão que dá para essa ideia difere de todas as anteriores. Freud fala de inconsciente como um lugar metafórico no indivíduo, não geográfico, não localizável, algo diretamente inacessível ao próprio indivíduo. Discutiremos a partir dessa concepção.

FIQUE POR DENTRO

Um breve retrato do ficcionista e de sua obra

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 1839, aí falecendo em 1808. Com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, rompeu com a estrutura linear da narrativa, revelando refinamento na linguagem, além de concisão e objetividade. De cunho psicológico, sua prosa investiga a natureza humana, vendo-a com pessimismo, niilismo, desmascarando a hipocrisia social. O adultério, o parasitismo social, o ciúme, o egoísmo, a vaidade, o interesse, a ausência de grandeza nos gestos humanos, as fronteiras entre a sanidade e a loucura, a ambiguidade são seus temas mais constantes. Em sua ficção, o narrador concentra-se nos movimentos psicológicos; quase não há meio físico, surgindo apenas se estiver vinculado a sensações psíquicas das personagens, - investigadas até a exaustão, a partir do humor, da ironia e do pessimismo. Os quadros narrativos compreendem fragmentos a partir de uma multiplicidade de fatos, quase sempre interrompidos pelas digressões, em geral filosofantes ou questionadoras acerca da natureza do narrado ou das personagens. Carlos Drummond de Andrade deu-lhe o epíteto "O Bruxo", por causa do mergulho na condição humana.

ANTÔNIO VINANCIO DOS SANTOS/ FRANCISCO GEILSON ROCHA
COLABORADORES
Do Curso de Letras da Uece

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