Cinema

O cavaleiro da desesperança

01:49 · 29.01.2008

Em plena ascensão, o ator Heath Ledger soma-se à comovente galeria de jovens artistas desaparecidos no auge da fama


Encontrado morto no seu apartamento em Manhattan por causas ainda não identificadas, mas supostamente decorrentes do uso excessivo de drogas ou calmantes, o belo e talentoso ator Heath Ledger interrompeu, aos 28 anos, uma das mais promissoras carreiras entre jovens atores da cinematografia americana, após comprovar seu versátil talento como o “cowboy” homossexual de “O Segredo de Brokeback Mountain”.

Nascido na Austrália, Ledger começou a atuar em seu país de origem com 16 anos, interpretando um ciclista “gay”, ansioso para participar das Olimpíadas, em um seriado de televisão. Fez tanto sucesso no papel que estreou no cinema logo como protagonista em “Assassinato em Blackrock”, um drama sobre jovens acusados do estupro de uma menina. Heath costumava dizer que “com apenas 16 anos saltei sobre o trem da vida”.

Descoberto pelo cinema norte-americano, estreou nos EUA na comédia adolescente “Dez Coisas que Odeio em Você”, um imenso sucesso de bilheteria. Seguiram-se outras elogiadas aparições: foi o filho de Mel Gibson em “O Patriota” e destacou-se também em “A Última Ceia”, “Coração de Cavaleiro” e “Os Irmãos Grimm”.

Autêntico e leal

Heath Ledger demonstrava ser muito exigente em relação a si próprio. “Eu me estudo constantemente”, afirmou em uma entrevista, “me pergunto sempre as razões pelas quais faço certas coisas, ou os motivos para pensar e sentir de determinada forma. Eu gostaria de me ler como se fosse um livro, de segundo a segundo, não por minutos, horas ou dias”.

Era capaz de atitudes corretas como a de recusar o papel do Homem-Aranha só por ter conhecimento que Tobey Maguire o desejava. “Tobey tinha paixão pelo personagem”, justificou Ledger, “enquanto eu nunca havia lido nada dele. Se eu lhe tirasse o papel, era como se estivesse roubando o sonho de alguém”.

Sempre desejou fazer filmes musicais “como aqueles com Gene Kelly e Judy Garland”. E enfatizava: “Embora alguns rotulem os dançarinos de homossexuais, isso não me afeta em nada a certeza de como acharia maravilhoso dançar no cinema”.

Viveu dois anos com a atriz Michelle Williams, que fazia sua esposa em “O Segredo de Brokeback Mountain”, e com ela teve a filha Matilda. Mas assegurava: “Não acredito no casamento. Ninguém prova o amor com uma aliança de ouro encimada por um diamante. Não acredito em mostrar afeição com coisas materiais. Só a emoção demonstra o verdadeiro amor”.

Subindo a montanha

Através do diretor Ang Lee, que o convidou para viver um “cowboy” homossexual em “O Segredo de Brokeback Mountain”, Heath Ledger atingiu o ponto mais alto de sua carreira. O ousado filme do cineasta de Taiwan teve a ousadia de quebrar um dos mitos mais entranhados na machista tradição hollywoodiana, que era a até então inquestionável virilidade dos vaqueiros. Com Jake Gyllenhaal, Ledger protagonizou uma comovente história de amor, bem mais um libelo contra qualquer tipo de repressão ou preconceito do que apenas um filme “gay”, como algumas visões superficiais e maniqueístas cuidaram logo de rotular. O filme ganhou inúmeros troféus internacionais e perdeu injustamente a premiação principal da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood para o medíocre e esquemático “Crash - No Limite”. Por sua atuação, Ledger foi um dos cinco indicados ao Oscar de Melhor Ator.

Seu último trabalho no cinema soa agora como uma piada de mau gosto, como bem define o jornalista Dellano Rios. Ele interpretou o caricatural vilão Coringa no sombrio “Batman - O Cavaleiro das Trevas”, que estreará no Brasil em julho próximo.

Eternas lembranças

As drogas sempre foram consumidas por artistas de Hollywood, inclusive em doses letais como as ingeridas por Marilyn Monroe, sobre cuja morte também pairam suspeitas de assassinato.

Mais recentemente River Phoenix (de “Garotos de Programa”) e, na semana passada, Brad Renfro (o mau garoto de “O Aprendiz”), sucumbiram à overdoses. Robert Downey Jr., o futuro “Homem de Ferro”, é um viciado reincidente, e notas de 20 dólares com resquícios de cocaína, além de poderosos calmantes, foram encontrados no apartamento de Ledger.

O jovem ator atualmente mantinha um romance com Mary-Kate Olsen. Freqüentemente se queixava de estar estressado, sobretudo durante as filmagens de “Batman”, tendo de recorrer a soníferos para conseguir dormir.

Sua morte ecoou no mundo inteiro como uma notícia quase impossível de se acreditar, causando um impacto só comparável ao desaparecimento de grandes astros do passado, a exemplo de James Dean, ícone da contracultura em meados do século XX, vitimado aos 24 anos em um acidente automobilístico.

Heath Ledger era belo, carismático e talentoso. Sua carreira estava no auge. Seu pai o considerava “um homem com os pés no chão, que amava a vida sem egoísmos, e extremamente inspirador para muitos”.

Talvez pelo fato de ter partido bastante jovem, seu nome não fique registrado no panteão dos grandes astros da Sétima Arte. Mas, por certo, ele permanecerá muito tempo no imaginário e no reconhecimento do público “gay”, por haver ousado interpretar numa superprodução o papel definidor, para sempre, de que pode haver dignidade e autenticidade em qualquer forma de amor, desde que ela seja espontânea e verdadeira.

Para os “gays”, além do arco-íris, sempre haverá Brokeback Mountain.

José Augusto Lopes
Repórter

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