Mostra Sesc

O Cariri da tradição e da reinvenção

Em cinco dias de Mostra Sesc, a produção artística tradicional, política e sustentável do País encontra um lar no Sul do Ceará

O cortejo de abertura da Mostra Sesc de 2017: tradição que se renova há 19 anos ( FOTO: DAVI PINHEIRO )
00:00 · 14.11.2017 / atualizado às 16:32 por Roberta Souza* - Enviada a Juazeiro do Norte
No alto, Erasmo Carlos e Lenine, atrações musicais que deram peso nacional ao evento; o projeto Embatucadores (SP), cuja arte percussiva inclui objetos cotidianos; e a performance de Luanah Cruz ( Fotos: Jr. Panela (1)/ Davi Pinheiro (2,3,4) )

Era quatro da tarde da sexta-feira, 10 de novembro, em Juazeiro do Norte, quando o sol já ia baixando para o cortejo da tradição passar. Os trabalhadores do centro se aglomeravam em frente às lojas. Famílias inteiras e alguns visitantes acompanhavam - com celulares em mãos - os grupos de bacamarteiros, guerreiros, reisados, lapinhas, quadrilhas, circo e bandas cabaçais que desfilavam pela rua São Pedro na abertura da Mostra Sesc Cariri. Funciona assim há 19 anos. A tradição cultural do sul do Ceará abraça grupos artísticos de todo o País que vêm para aplaudir e também serem aplaudidos em municípios da microrregião.

Todo lugar vira palco. Durante os cinco dias de evento, que termina nesta terça (14), é difícil passar por uma praça ou equipamento cultural e não se deparar com alguma apresentação. A não ser que ela tenha sido adiada - como o show de Erasmo Carlos em Barbalha, transferido de sábado para domingo por problemas de transporte do artista. Mas o público está sempre lá, não importa o horário ou o local, e costuma ser tão diverso quanto as manifestações artísticas selecionadas pela curadoria. Mais de 260 atividades de artes cênicas, visuais, audiovisual, música, literatura e tradição são distribuídas por 28 cidades, valorizando o intercâmbio de ideias nessa programação que já integra o calendário anual do Cariri.

A integração imediata de quem vem de fora é natural. Lenine, por exemplo, que fez o show da abertura na Praça da Rffsa, no Crato, para mais de 8 mil pessoas, parecia um legítimo cearense ao incluir em seu repertório os versos "só deixo o meu Cariri/ no último pau de arara". Em Barbalha, quando a Cia do Relativo (SP) suou no sol da tarde apresentando o espetáculo "Carta Branca" para dois grupos de penitentes do município, as palavras de conforto "é assim mesmo, meu filho", vindas dos cearenses, incentivavam ainda mais os "forasteiros" a continuar.

Também em Juazeiro, na sala de audiovisual do Centro Cultural Banco do Nordeste, a integrante do Coletivo Ganzá, Joice Temple, se sentiu em casa, abraçada por mais de dez avós e mães. Lá, ela conseguiu deixar o seu filme, "Caminhos do Coco", completo ao exibi-lo para o grupo mulheres do Coco da Batateira, algumas das protagonistas no longa. Não tinha quem não batesse o pé durante a exibição, "não existe dor, nem doença na hora do coco".

Sustentabilidade

Feito casa, a geografia do Cariri não poderia passar despercebida no evento. Ela foi bem utilizada como cenário de performances, a exemplo de "A experiência da vida é a pergunta", de Luanah Cruz, na qual um vestido-tapete-tela-piso de 30 metros de leveza e peso de memórias circulou pelo Horto do Padre Cícero. Mas foi uma ação específica, o "Pensando verde na mostra" que alinhou a ideia de cuidado com esse lar fincado na Chapada do Araripe. Na campanha promovida pelo Sesc, a população foi convidada a trocar garrafas pet e latas de alumínio por cerca de mil mudas de plantas nativas da região.

O objetivo da ação, além de permitir uma vivência de replantio para os interessados, foi também contribuir para o reflorestamento da mata local, compreendendo o território da Floresta Nacional do Araripe. As trocas continuam hoje na Praça José Geraldo da Cruz, local da Feira de Tradição Popular, em Juazeiro, e na Praça da Igreja da Sé, onde também acontecem as atividades de linguagem literária, no Crato. O plantio de algumas mudas será realizado com alunos dos centros educacionais do Sesc no Sitio Fundão, no Crato, e na Escola Educar Sesc, em Juazeiro do Norte.

Alguns trabalhos artísticos da mostra também fizeram pensar sobre essa relação natureza-seres humanos. Na música, os Embatucadores (SP) coordenados pelo professor Rafael Rip, tiraram som de latinhas de refrigerante, sacolas plásticas, baldes, cabos de vassoura, canos de PVC, galões de água, garrafas de vidro e garrafas pet. Na performance "Descarto-me em coro", Natalia Coehl e alguns colaboradores vestiram-se de sacos de lixo para pensar os gestos de (auto)descarte. E nas artes visuais, com "Religare", Raquel Amapos mergulhou em fotografias para pensar novas relações de ligação com o sagrado a partir da água.

O futuro

A um ano de realização da 20ª edição da Mostra Sesc Cariri de Culturas, esse é também um momento de reflexão sobre o que funciona e o que pode melhorar. Para isso, a programação do Seminário Arte e Pensamento, que discute o "visível e o invisível na cultura e na sociedade brasileira" é uma das ações fundamentais. Buscando responder a perguntas como "O que está invisível no cinema e na literatura? O que você enxerga na música? E na fotografia? Nas artes visuais? Na dança e no teatro?", o espaço faz pensar também sobre o que está visível e invisível na mostra.

Única representante da região entre as bandas selecionadas pelo edital deste ano, a Cômodo Marfim deu a dica em show realizado no Terreiro da Mestra Margarida, na unidade Sesc de Juazeiro no último domingo (12). Para além dos grupos de tradição, existe música autoral de diferentes gêneros sendo produzida no Cariri, e isso, a população parece também querer ver em maior quantidade no palco.

O presidente da Fecomércio - CE, Luiz Gastão Bittencourt, anunciou apenas um sonho para a edição comemorativa de 2018: a vinda de uma atração internacional. E arriscou sugerir o nome de Andrea Bocelli. Além desse sonho, o presidente ainda falou sobre outro que pretende realizar até o final de sua gestão, no próximo ano: a construção de um centro cultural, tal como o da unidade de Juazeiro do Norte, em Fortaleza. Ainda não há mais detalhes sobre o centro, mas a gerente de cultura do Departamento Nacional, Márcia Costa Rodrigues, que esteve presente na abertura da mostra, disse que o Sesc "apoia e incentiva isso na perspectiva de espaços especializados" e acrescentou que estava feliz com o fato do Ceará ganhar mais um.

Ainda sobre outras ações do Sesc no Cariri, especificamente, o destaque é para o projeto "Museus Orgânicos", que, muito em breve, transformará a casa dos mestres da cultura da região em verdadeiros museus. O projeto, idealizado e desenvolvido em parceria com a Fundação Casa Grande, dirigida por Alemberg Quindins, tem como objetivo apresentar o acervo desses mestres, seja de vestimentas, fotografias, instrumentos, etc, e, partindo da filosofia da autossustentabilidade, realizar a venda de alguns artigos produzidos por eles aos visitantes.

No ano que vem, portanto, quem vier à Mostra deverá encontrar novos lares, e, tal como Lenine, só vai querer deixar o Cariri no último pau de arara.

Mais informações:

Mostra Sesc Cariri de Culturas. Encerramento hoje, 14/11, com show dos Paralamas do Sucesso, às 21h, na Praça da Matriz de Juazeiro do Norte. Gratuito. Outros detalhes em mostracariri.com.br

*A jornalista viajou a convite do Sesc

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