Literatura

O caminho do insucesso

Chega ao Brasil "O Romance Luminoso", do uruguaio Mario Levrero. Obra é um "clássico contemporâneo"

00:00 · 16.04.2018 por Sylvia Colombo - Folhapress
Mario-Levrero
Mario Levrero: obra marcada pelo experimentalismo é ainda pouco conhecida no Brasil

Há uma máxima no meio da crítica literária latino-americana que sugere que os argentinos produzem os melhores contistas; os chilenos, os melhores poetas; e os uruguaios, os melhores escritores estranhos.

Mario Levrero (1940-2004), ao lado de seu conterrâneo Felisberto Hernández (1902-1964), seria um dos mais famosos entre estes últimos.

Sua estranheza estaria ligada ao experimentalismo com a linguagem e a relação com o surrealismo.

"Creio que meu pai concordaria com essa classificação, embora questionasse o que seria, então, a normalidade. Sempre foi um escritor muito intuitivo; o que pensava, sonhava, experimentava lhe saía como literatura", afirma seu filho, Nicolás Varlotta, em entrevista à reportagem em um café de Buenos Aires, na Argentina.

Diário

Sai agora no Brasil "O romance luminoso", pela editora Companhia das Letras, obra póstuma do autor, lançada em 2005. Tida como seu romance mais famoso, é estranho desde seu formato.

O longo prólogo (mais de 400 páginas na edição brasileira) é uma espécie de diário em que conta como, apesar de ter recebido uma bolsa da Fundação Solomon R. Guggenheim, em 2000, para desenvolver o projeto antigo de um romance, não consegue escrever uma linha do livro.

Em vez disso, conta detalhes da vivência de seu dia a dia, o que inclui suas atividades domésticas, questões de logística cotidiana, uma pormenorizada descrição de sua atividade de procrastinação - ao mesmo tempo propondo questionar a rápida passagem do tempo diante de um romance cuja escrita talvez seja impossível concluir.

Ao final, as cento e poucas páginas que compõem o romance propriamente dito são praticamente as mesmas do projeto abandonado mais de 20 anos antes e cujo propósito da bolsa era desenvolver.

Primeiros tempos

"Ele teve anos muito produtivos no início", diz o filho de Levrero. "Eu particularmente prefiro seus primeiros livros, curtos, mais imaginativos. Depois que ganha essa bolsa, parece que tem a sensação de que perdeu a inspiração e se propõe então a refletir sobre isso", explica.

Varlotta reconhece que "O romance luminoso" se transformou na obra mais conhecida do pai, mas crê que sua produção anterior também merecia ser tão reconhecida quanto esse livro, que se transformou em "cult" nos últimos tempos.

Obra acabada

"Claramente a primeira parte se transformou em algo mais importante que o projeto do 'Romance luminoso' em si, que só aparece no final", diz à reportagem o escritor e crítico Elvio Gandolfo. "Mas ele gostou do resultado e queria que saísse assim", frisa o argentino, que conheceu Levrero.

"Não é uma obra inacabada. Ele fez várias correções e entregou ao editor assim como chegou aos leitores".

E acrescenta: "Seus outros livros saíram como um raio; neste, se nota que passou por outro processo mental".

Levrero passou a maior parte da vida em Montevidéu, mas foi em longas temporadas em Buenos Aires que se sentiu mais acolhido.

Tanto Gandolfo como Varlotta contam a anedota de que, no Uruguai, Levrero não era reconhecido nas ruas.

Porém, uma vez, quando entrou num café de Buenos Aires, foi abordado pelos autores argentinos Rodolfo Fogwill (1941-2010) e Miguel Briante (1944-1995), que vieram cumprimentá-lo e a chama-lo de "mestre".

"Ele não era de frequentar os cafés, os encontros literários, mas Buenos Aires lhe deu mais espaço e mais tranquilidade para escrever, além de mais reconhecimento, ainda que num círculo restrito", diz Nicolás Varlotta.

Reconhecidomento

Durante sua vida, interrompida por um aneurisma, Mario Levrero não recebeu o reconhecimento que vem tendo agora, com suas obras reeditadas e traduzidas.

"Creio que, entre outros fatores, deve-se ao fato de ele nunca ter querido ser um escritor político, numa época em que isso era predominante", diz Varlotta. "Ele não gostava de comportamentos em massa, embora se posicionasse contra a ditadura (que no Uruguai durou de 1973 a 1985) e tivesse ajudado pessoas que estavam sendo perseguidas. Mas suas preocupações eram outras, ele queria permanecer longe da política".

Crises

Durante a maior parte de sua vida, Levrero teve pouco dinheiro. Primeiro, trabalhou num sebo que montou com um amigo no centro de Montevidéu. Depois, praticamente sobreviveu de bolar palavras-cruzadas e outros jogos que vendia para revistas.

Apenas no fim da vida, com algum retorno de seus livros e com oficinas literárias que começou a dar, obteve certa estabilidade.

Nesse quadro veio a bolsa da fundação Guggenheim - que, se por um lado o livrou dos apuros econômicos, por agravou uma crise criativa. Ao final, contudo, o fez escrever aquele que se transformaria em seu livro mais famoso.

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O romance luminoso
Mario Levrero
Tradução: Antônio Xerxenesky

Companhia das Letras
2018, 648 páginas
R$ 84,90/ R$ 39,90 (e-book)

Fique por dentro 

Trecho de "O romance luminoso"

A maioria das ações que faziam parte das circunstâncias em que me pus a escrever o romance luminoso estava relacionada com minha então futura operação da vesícula. Quando aceitei que deveria inevitavelmente sofrer essa operação, primeiro discuti com o cirurgião para adiar a data o máximo possível, e consegui uma prorrogação de alguns meses. Nesses meses, completei quatro livros que vinham sendo longamente postergados, enquanto eu me lançava à furiosa escrita desses capítulos do romance luminoso. Era óbvio que tinha muito medo de morrer na operação, e sempre soube que escrever este romance luminoso significava a tentativa de exorcizar o medo da morte. Também tentei exorcizar o medo da dor, mas não consegui. O medo da morte, sim; não direi que fui tranquilo para a operação, pois continuava com muito medo da dor, mas a ideia da morte já não me fazia tremer, depois de ter escrito os cinco capítulos (que na verdade foram sete). O temor diante da morte volta de quando em quando, sobretudo quando estou bem, mas fui para a operação da vesícula, nesse sentido, com a cabeça erguida. Ao mesmo tempo, a ideia da morte tinha me servido de incentivo para trabalhar e trabalhar contra o relógio, como um condenado. Consegui botar minhas coisas em ordem, ou seja, minhas letras, enquanto paralelamente todos os outros assuntos iam ficando relegados. Foi nesse lapso que contraí uma dívida, para mim importante, e a dívida foi o que me levou a Buenos Aires a trabalho.

*O trecho, do livro escrito por Mario Levrero, faz parte do "Prefácio histórico ao romance luminoso", aqui em tradução de Antônio Xerxenesky

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