Lançamento

O caldo sensível de Beto Mejía

Flautista da Móveis Coloniais de Acaju (DF), o músico equatoriano lançou seu primeiro álbum, "Wahyoob"

O músico Beto Mejía: novo disco evoca ritualística dos povos maias ( Foto: Calu Corazzi/divulgação )
00:00 · 12.01.2017 por Felipe Gurgel - Repórter

Beto Mejía é daqueles músicos que traz, em sua obra, uma riqueza pouco óbvia. Com o cuidado de afinar os conceitos de sua arte com aquilo que vive e sente, o equatoriano de 34 anos, radicado desde criança no Brasil, lança o bom "Wahyoob", seu primeiro álbum solo.

Beto disponibiliza o trabalho após fazer carreira durante mais de 15 anos como flautista do Móveis Coloniais de Acaju (DF). Morando em São Paulo - ele e o tecladista Eduardo Borém, do Móveis, vivem na capital paulista, e o resto da banda, em Brasília - o músico evoca a ritualística dos maias (com o título do álbum), combina o pop, a melodia e a musicalidade africana nesta compilação de músicas inéditas. O disco sucede o EP "Abraço" (2012).

O projeto caminhava ajustado aos conhecimentos simbólicos de sua experiência com a religiosidade africana e a outras pesquisas, quando Beto soube que ia ser pai.

A filha, Amora, nasceu em novembro de 2015, e a dedicação à paternidade retirou o músico do projeto e da percepção que tinha, antes, sobre a vida. "Queria lançar em 2015. Mas ficou em segundo plano, quando passei a acompanhar a gravidez, e depois que minha filha nasceu", pontua. Indagado se ele já identifica o que muda, artisticamente, a partir da experiência paterna, Beto admite que "a energia que coloco (nos cuidados) é muito maior que meus processos artísticos. Ainda não consigo pôr em palavras o que é isso, é um aprendizado diário", atualiza.

No repertório de 12 faixas, há composições que passaram pelo crivo do Móveis Coloniais de Acaju, mas sem proveito. A introdução do álbum, "Começo, meio e fim", é dessa leva. Conhecida pela performance festiva nos shows, a banda de Brasília (DF) se encontra em recesso (similar à pausa do Los Hermanos/RJ) desde meados de 2016. De certo modo, o projeto solo é uma oportunidade para Beto Mejía canalizar uma expressão mais sutil.

"Quando você traz uma ideia e coloca para 10 pessoas, aquilo vai ser bem multiplicado. A ideia desse disco é poder me desvencilhar de algumas coisas do processo coletivo, sim".

Wahyoob

Sobre a referência maia, ele explica que "Wahyoob" é um conceito pouco estudado. É possível encontrar outras grafias para o termo. Significa a busca por uma força arquetípica animal para se vivenciar o cotidiano. "Quis juntar tudo que acredito (no disco) e colocar como valor. Nesse mundo doidão, a gente só consegue se segurar nos valores que temos", observa o músico.

O disco se volta, de fato, à preservação dos animais e dos direitos humanos. Para baixá-lo em betomejia.Com.Br, o usuário pode "doar o quanto quiser" para as ONGs Santuário Terra dos Bichos (SP) e Desabafo Social (BA).

Percurso

Formado pela Escola de Música de Brasília, Beto Mejía conta que nunca se viu forçado a ter um olhar mais "estudado" para as criações do Móveis Coloniais de Acaju. Compondo com a banda, ele já se debruçava a favor da sensibilidade.

"Era muito mais enérgico, intuitivo, de perceber como vibravam as coisas. Fiz muito arranjo, levava partitura, mas via que não funcionava, no final das contas. Fazia o meio de campo de entender como eram as bases, para deixar o sensível caminhar", detalha.

Com o olhar tocado pela paternidade, Beto agora desenvolve um projeto infantil, incluindo livro e CD, intitulado "Funk e maia: onde o infinito é um som". "É uma loucura, algo surreal sobre a descoberta do som entre dois personagens. Penso em fazer algo focado para as crianças acima de oito anos", descreve Beto.

Sobre essa nova veia criativa, ele esclarece que agora tem uma visão maior "para a simplicidade, para a descoberta da alegria nos processos. Ela (a filha) olha pra mim e sorri, ao mesmo tempo que fica feliz só com uma tampa de caneta", percebe.

Fique por dentro

Introspecção e alegria em 12 faixas

A sonoridade de Beto Mejía é um caldo sensível. Em "Wahyoob", as músicas seguem climas, ânimos distintos. A produção lembra ora a referência óbvia da alegria do Móveis Coloniais de Acaju ("Kaningawa" e "Uhuuu" poderiam ser composições da banda brasiliense), ora uma bela atmosfera espacial e romântica ("Eu cruzei o seu caminho"). "Odoya" saúda Iemanjá e lança, em moldura pop, elementos da musicalidade africana. "Diminutivo" concilia o balanço da percussão com uma letra interessante, sobre as viagens egóicas do ser humano. A ótima "Fiz um feitiço" tem um pé na estética pop dos anos 80 e outro na sonoridade do Móveis Coloniais de Acaju (a banda chegou a ensaiá-la, mas não gravou, segundo Beto). Já "Amora", feita para sua filha, arrasa o coração dos pais, com uma bela melodia e versos como "chorei/ ao descobrir que você vem/ ao desmentir que o mundo/ tem só tristeza e peso pra te dar". "Minerador' finaliza bem o disco, permitindo espaço para a experimentação e para uma pegada introspectiva que se reveza, durante todo o disco, com o DNA solar do músico e sua experiência com o Móveis.

Disco

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Wahyoob
Beto Mejía

Independente
2016, 12 faixas
Disponível para download em betomejia.com.br

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