Ensaio

O amor através da magia das metáforas

00:12 · 23.03.2013
Em um ritmo mais ameno, porém não menos corpóreo, temos o poema Degraus. Nele, o sujeito que fala nos diz desse modo: (Texto III)

Em Degraus a natureza se faz cúmplice e se confunde com o corpo da amada. O tempo serve de pauta para a caligrafia dos pés, o vento canta o nome da musa, enquanto a noite clama pelo ventre distante e desejado. Há uma impulsividade saudosa e, talvez urgente, em todos os movimentos: o vento se lança, os pássaros espreitam, o mar se alteia e a noite é enorme e pede notícias. É um tempo de busca, mas também de espera. Novamente o desejo, já apontado em Lição à Hilda Hilst é o mote principal desses versos. Impossível encerrar o comentário sobre este poema sem mencionar a surpreendente beleza das metáforas que inauguram o texto e expressam o movimento da musa atravessando a pátina dos crepúsculos e deixando marcas na barra das horas. Trata-se de outro exemplo da mágica das palavras a desenhar, assim, um caminhar sobre o tempo.

Logo em seguida, o livro nos oferece um dos mais bem realizados sonetos do livro, Sonetos com tâmaras e cerzidos. Iniciado com um verso de Ivan Junqueira, o poema se desenvolve por meio de indagações filosóficas sobre o amor que, naturalmente, lembram-nos os conhecidíssimos e eternos versos da lira camoniana: (Texto IV)

Leitura do poema

O encantamento poético provocado por este texto começa pela forma. O encadeamento dos versos que se completam, um no outro, exige que o leitor se desprenda da leitura convencional do verso que se finda em si mesmo, e se lance, num contínuo, sem pausa, em busca do verso seguinte, única possibilidade para a construção de sentido. O ritmo das frases não nos permite pausa para respirar no fim de cada verso, o leitor tem que seguir em busca da conclusão da ideia que se inicia em um verso e se completa em outro. É possível afirmar que o ritmo do poema sugere a ansiedade própria ao ato de amar. É como o próprio amor em exercício, no seu tecido fibroso e tão disforme, que põe o amador em luta desconforme. Luta que é como a trama de cerzidos que se sobrepõem em tecido já roto: metáfora dos "remendos" aos quais, muitas vezes, temos que recorrer nas nossas próprias vivências e experiências amorosas. E, com chave de ouro, o poeta encerra o soneto com uma das mais belas metáforas que se pode ler sobre o amor: amor é tâmaras em taça de absinto. Nessa esplendorosa imagem paradoxal revela-se, mais uma vez, pela mágica das palavras, o quão contraditório em si, aqui parafraseando Camões, é o próprio amor. A tâmara, simbolizando a beleza ornamental em seu vermelho intenso, é doce e suculenta, é a polpa carnosa que alimenta, em contraste com o absinto, a erva aromática que embriaga, que intoxica, que sugere um clima depressivo e amargurado no seu verde líquido.

Das imagens

Assim, a metáfora nos leva a pensar sobre o que todos nós já sabemos, amor é isso: alimento e fome, alegria e depressão, certeza e incerteza, lucidez e embriaguez. Vale ainda destacar que as tâmaras encontram-se dentro da taça de absinto, ou seja, o doce alimento está imerso e envolvido pelo líquido alucinógeno, sugerindo a predominância do poder envolvente, liquefeito e embriagador do etílico líquido sobre a imagem da tâmara indefesa e imobilizada nessa imersão que a envolve, talvez sugerindo a força de certos aspectos negativos se sobrepondo aos positivos nas relações amorosas, como, muitas vezes, sentimos quando vivenciamos o amor. A lírica amorosa de Côdeas, nesta primeira parte do livro, ainda nos traz a composição Soneto com os azuis da tarde e seus desertos: (Texto V)

Jogos estéticos

Novamente a natureza empresta os seus elementos para o canto lírico. A princípio é o mar que vem dos olhos, mar revolto que sugere perigo semelhante aos de ressaca de Capitu. Mar em movimento, em espumas e abrolhos, mar-envolvimento. Depois as imagens do deserto e da chuva transfiguram-se em pele e lábios a expressarem a magia dos deuses, quase cúmplices do rito de busca. E vêm aves, águas, ventos e palhas a compor o fantástico cenário em que se movem os amantes. Leiam-se, então, os versos de Soneto com nuvens e alvenaria: (Texto VI)

Considerações finais

Desde o título o poema, Soneto com nuvens e alvenaria, já traz, como as tâmaras no absinto, a ideia do paradoxal sentido do amor. Desta vez, materializada em nuvens e alvenaria. Elementos simbólicos, respectivamente, do gasoso e do sólido, do celeste e do terreno, do etéreo e do concreto, da leveza e da solidez, do elevado e do rés do chão... Desse amalgama antitético edifica-se o amor, e desse misto se faz a colheita. E há, ainda, a proposta do fruto, o amado promete à musa percorrê-la em gesto de colheita, mas espera, em troca, cântaros de trigo para a fome dos seus dias. Assim, eles serão lavoura num encontro que se faz de nuvem e alvenaria. Por fim, leiamos as observações de Paulo de Tarso Pardal sobre a poesia do autor, agora em estudo: (Texto VII. (H. L.)

Trechos

TEXTO III

Atravessas a pátina dos crepúsculos / e imprimes, / no barro das horas, / a caligrafia dos teus passos./ O vento lança / sobre a concha das árvores / o voo abissal do teu nome. / Pássaros se põem à espreita, / e o mar alteia a espinha de suas espumas. / Enorme, / a noite debulha a messe dos espelhos / e pede notícias do teu ventre.

TEXTO IV

Que amor é esse que, desperto, dorme, / e, dormindo, só não sonha, mas põe, / no tecido fibroso e tão disforme, / outros cerzidos de que se compõe? / Amor assim? Então não se conforme / o amador; lance, pois, o que dispõe / ao vento dessa luta desconforme, / em que a perda é maior do que supõe. / Mas saberá o amor mais de si mesmo? / Ou permanecerá andando a esmo, / melancólico, por não conseguir / cruzar desse deserto o labirinto? / Amor? Tâmaras em taça de absinto. / Caminho que se parte por só vir.

TEXTO V

Só para ver-te agora são meus olhos, / revoltos desse mar que vem dos teus, / que me cobrem de espumas e de abrolhos, / quando fremem as pálpebras do adeus. / Esse azul que cultivas sobre os cílios - / só possível na pele dos desertos - / são os lábios da chuva, os utensílios / que os deuses fabricam boquiabertos. / Faíscas azuis, pétalas de trigo / emanam de teu rosto sem palavras / Aves mudam de cor; secreto abrigo, / na clara légua do silêncio, cavas. / E a dimensão das águas; e o ar da tarde; / e as cartilhas do vento; e a palha que arde.

TEXTO VI

Façamos este pacto: eu te palmilho, / e, colhendo as espigas do verão, / debulho sobre ti os grãos dos cílios / e as sílabas de flautas da canção. / Estenderei as nuvens em teu linho. / Espalharei sementes nas campinas / que brotam de teu corpo em desalinho / se inauguras amoras nas retinas. / da mesma forma, cântaros de trigo / guardarás para a fome dos meus dias. / E as horas que teceres só comigo / serão a cal da nossa alvenaria. / A chuva vem de longe e nos avisa / da lavoura que cresce nessa brisa.

TEXTO VII

Carlos Augusto Viana tem a decidida postura de procurar a verdadeira poesia, mostrando seu laboratório de conceitos e os mecanismos de construção do poema. Suas imagens, em muitos momentos, são de uma absoluta abstração (a arte, afinal, antes de qualquer tentativa de entendimento, é para ser sentida). Este nível sensitivo é construído através de imagens sofisticadas, e a abstração é o recurso que ele utiliza, para conseguir este efeito. O seu discurso, com essa construção, torna-se a) duplamente estranho: primeiro, pela própria dimensão da linguagem literária; segundo, pela sofisticação de tais imagens; b) hermético, porque o leitor aproxima-se do entendimento do poema através daquilo que lhe é mais subjetivo: a sensação. Isto ocorre devido ao jogo de aproximações e de afastamento do discurso do plano real.

SAIBA MAIS
CHOCIAY, Rogério. Teoria do verso. São Paulo: McGraw do Brasil, 1974
COHEN, Jean. Estrutura da linguagem poética. São Paulo: 1998
ECO, Umberto. A obra aberta. São Paulo: Perspectiva, 1988
LOTMAN, Iuri. A estrutura do texto artístico. Lisboa: Estampa, 1978
FRIEDRICH, Hugo. Estrutura da lírica moderna. São Paulo: Duas Cidades, 1978
GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons, ritmos. São Paulo: Ática, 2008

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