LITERATURA

O amor, a canção e o poder das palavras

01:30 · 10.03.2007
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No coração de cada compositor ou intérprete brega, e de seus ouvintes, mil histórias pra se contar. Pelo menos se você tiver um pouco de imaginação, emoção ou de traquejo com o palavreado, como o jornalista potiguar Thiago de Góes

Há lugares-comuns, mas também bons achados na criação literária deste potiguar radicado em Fortaleza há alguns anos, trabalhando no ambiente de comunicação do Banco do Nordeste do Brasil. Mas, por trás da labuta cotidiana, aos poucos Thiago revelou sua verve literária. Primeiro, há dois anos, pela editora Jovens Escribas, de Natal, e contando com patrocínios que incluíram aquela prefeitura e o próprio BNB. Nas 196 páginas da espaçosa edição, narrativas estimuladas por canções de ídolos como Márcio Greick (“Aparências”), Fernando Mendes (“Cadeira de rodas”), Reginaldo Rossi (“Garçom”), Amado Batista (“Meu ex-amor”) e Odair José (“Cadê você”), entre alguns outros românticos populares e algumas outras canções desta autêntica coletânea de emoções brasileiras, orientada pela orelha escrita pelo brega-star Falcão, infelizmente ausente da seleção.

Claro, os lugares-comuns tinham mais é que estar ali, em se tratando de uma obra de inspiração eminentemente popular, apelando para o imaginário coletivo de milhões de brasileiros. Cada história guardava o título, uma epígrafe com alguns versos e um pouco do clima vivenciado por seus cantores e compositores. E claro, pelo público. Acabou que o livro foi recheado de histórias amorosas, no entanto, a linguagem e a temática abordadas geralmente saíram desta lógica perversa, com Thiago de Góes mostrando sua originalidade, mesmo que fosse acumulando altos e baixos em suas jovens pegadas de escriba. Uma das melhores, “Aparências”, uma história de amor e traição digna do roteiro do filme “Quero ser John Malkovich”. Outra é “Pare de tomar a pílula”. Por sinal, apesar de tratado de forma mais complexa, o tema de Odair José deverá ser uma das canções românticas populares a embalar o lançamento do livro, hoje à noite, na Festa 20 e Poucos Anos - Brega e Chique, reunindo ainda Waldick Soriano e Rosana, a partir de 22h, no Recreio Clube de Campo (Lagoa Redonda, fone: 3476-8330).

A hora delas

Se a idéia é ou não original, como defende Falcão, o orelhista pouco importa. Podemos até citar a recente “Aquarela do Brasil -contos da nossa música popular” (Agir, 2005) onde o também jornalista, contista e ainda romancista e antologista gaúcho Flávio Moreira da Costa reúne histórias que vão de Manuel Antônio de Almeida, Lima Barreto e Machado de Assis, ao cearense Eduardo Campos, aqui sim envolvendo narrativas eminentemente musicais como a de um triângulo amoroso proporcionado pela pena de Machado, através de sua admiração pelo ancestral do - hoje popular - cavaquinho, “O Machete”. Uma preciosa coleção fictícia em torno da história da nossa música.

Mas quem pensava que os “Contos Bregas” haviam terminado após “A última canção” (Paulo Sérgio), pode ir preparando as vistas. E as reminiscências musicais. No coração, na vitrola ou “no toca-fitas do carro”, como diria o também literalizado Bartô Galeno. É que Thiago de Góes também estará apresentando hoje “Lobas, deusas e ninfetas”, este sim em lançamento oficial e voltado exclusivamente para o universo das cantoras, no livro anterior representadas pela grande Núbia Lafayette e seu outrora hit “Lama”.

Publicada através do Programa Cultura da Gente, destinado à autoria ou co-autoria de funcionários e aposentados do Banco do Nordeste, a obra traz 16 narrativas mais concisas e definidas pelo imaginário que cerca, no título, respectivamente, as memórias de canções interpretadas por Alcione (“A Loba”), Rosana (“O amor e o poder”, cujo ainda popular refrão fala em “Como uma deusa...”) e Lílian (“Rebelde”). Canções que, segundo Thiago, representam, pela ordem, “a mulher de um homem só, que jamais perdoa a traição”; “a deusa, idealizada” e “a menina-moça que esconde suas inseguranças por trás de uma sensualidade cruel”. Nestas e nas demais, o erotismo, o amor e a paixão voltam a guiar a imaginação e as palavras de Thiago, apresentadas agora pela cantora Kátia, presente com “Sozinha”, na forma de uma dramática história romântica, e na transcendental “Lembranças”.

Não resistimos e listamos as demais “participações”: Joanna (“Amanhã Talvez”, sobre um amor de motel; “Recado”, sobre um estranho anúncio de jornal, e “Tô fazendo falta”, de um humor-negro bem bacana); Roberta Miranda (a fábula “A Majestade, O Sabiá” e a josealcideana “Meus momentos”); Diana (“A música da minha vida”, “Esta noite a minha vida vai mudar” e “Fatalidade”, todas com abordagens consideravelmente intrigantes); Maria Bethânia (“Negue”, num frenesi erótico sobre uma “cadeira de choques”); As Frenéticas (“Perigosa”, numa reportagem sobre um misterioso livro erótico) e Tetê Espíndola (numa “Escrito nas Estrelas” tão longa como os agudos da intérprete).

Nem sempre Thiago consegue prender a atenção do leitor, ora por repetir algumas “novidades” da linguagem escrita, como a dos já batidos e-mails, ora, simplesmente, por ousar menos na construção textual das histórias e por um certo exagero nas adjetivações e referências. Também não se fixa em qualquer cidade, nem faz, frisemos, alusões diretas ao contexto das canções mencionadas. O que, no primeiro caso, poderia contribuir para dar mais chão a seus contos de iminente popularidade, enquanto, no segundo, revela-se um mérito, em relação ao uso da intertextualidade em linguagens distintas (como também o demonstrara, há alguns anos, o cineasta Cacá Diegues em seu projeto “Veja esta canção”). Através do poder das canções brasileiras ou das palavras, Thiago consegue marcar o coração de seus leitores.

HENRIQUE NUNES
Repórter

LIVRO - R$ 20
Thiago de Góes
"Lobas, deusas e ninfetas"

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