´ROMANCES SENTIMENTAIS´

Novos sonhos em papel-jornal

00:15 · 21.09.2008
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Vistos por muitos como expressões de uma literatura menor, os ´romances sentimentais´ continuam chegando às bancas de revistas de Fortaleza. E com grande procura

O par Perfeito´. ´Senhor Destino´. ´Irresistível atração´. ´As Rainhas do Romance´. ´Os Mistérios do Amor´. ´Estrela Cativa´. ´Ladrão de Corações´. Esses são apenas alguns das dezenas de títulos disponíveis em bancas de revistas em Fortaleza, quando o assunto são os chamados ´romances sentimentais´. Aqueles impressos em papel-jornal, encadernados em formato de bolso, sem ilustrações no miolo mas com capas fortemente chamativas - quase sempre, deixando claro o foco no romantismo como chamariz para os olhares. ´Sabrina´, ´Júlia´, ´Bianca´ nomeiam algumas das séries mais procuradas, mas ganham a companhia de outras coleções, nos pequenos volumes que costumam ficar em torno de 150 páginas de texto corrido, como manda a cartilha do ´paperback´.

Identificados como publicações de editoras como a Nova Cultural e a Harlequin Books, os livrinhos podem até passar desapercebidos por quem freqüenta as bancas em busca do jornal do dia, desta ou daquela revista. Mas um olhar mais atento revela: eles estão lá, e dispostos com relativo destaque, em prateleiras que oferecem histórias e sonhos que sobrevivem inclusive à multiplicidade de telenovelas tão característica da TV brasileira.

Para muita gente, os livrinhos são mania antiga. E motivo para visitas regulares às bancas, em busca de novas histórias, nos volumes cujo preço, nos locais de venda visitados, oscila entre R$ 5,00 e R$ 11,00 - a maioria dos títulos sai por R$ 6,90 ou R$ 7,90. A manutenção desse interesse é confirmada por atendentes das bancas, que garantem que os livrinhos, menosprezados por muitos, têm saída diária. Há quem leve vários de uma vez.

´Na banca da minha irmã, tem uma cliente que é médica e compra mais de 100 reais de romance´, testemunha Edirce Castro e Silva, atendente da banca Shopping, uma das quatro localizadas nos vértices da Praça Portugal, coração da ´área nobre´ da capital cearense. ´Essa mulher compra tanto romance que minha irmã até recompra alguns dela, depois que lê, e faz painéis só com esses livros´, conta, garantindo que o público do bairro, teoricamente de maior poder aquisitivo e de elevado grau de instrução, também é cativo dos romances, que em sua banca se fazem presentes através de uns 10 títulos, como ´A Rendição de Sarah´, dispostos ao pé de uma estante, de certo modo escondidos ao olhar do visitante, no vertiginoso caleidoscópio de outras publicações.

´Acho até que não tá num lugar muito adequado, pra faixa de idade. Vou sugerir mudar de lugar. Mas quem entra atrás desses livros já sabe o que quer e pergunta logo´, atesta Edirce, contando que os livrinhos têm saída diária. ´Hoje mesmo eu já vendi um ´Sabrina´. Todo dia sai. E olha que eles demoram a chegar, não é todo dia que vêm´, diz, referindo-se ao ritmo com que a distribuidora Alaor repõe as edições.

E quanto ao perfil do consumidor? Nesse ponto, a observação de Edirce é categórica - e coincidente com a de outras atendentes de bancas ouvidas pelo Caderno 3. ´Quem compra são mulheres. Faz 17 anos que trabalho nisso, e nunca vi um homem comprar um romance desses´, sentencia. ´Adolescente também, acho que não compra tanto. Ne idosos. São mais mulheres na faixa dos 20, 30 anos´, diz Edirce, garantindo que não se aventurou pelos romances sentimentais.

´Só li ´O Conde de Monte Cristo´, dessa outra coleção´, cita, apontando para o painel onde ficam à mostra, de modo bem mais generoso, os ´pocket-books´ da L&PM. ´Até pensei em ler, mas não tenho muito tempo. Aqui é todo mundo interrompendo o tempo todo´, justifica, citando o entra-e-sai de clientes, característica de todas as bancas visitadas. ´Mas eu não gosto muito de ler romance, porque me envolve muito. Eu choro. Parece que eu tô lá, vivendo a história. Não dá pra mim não´.

Passada a tarefa, distante das mais fáceis, de atravessar a avenida, chega-se à Revistaria Lev e Leia, onde Greyce Kilvia atende aos clientes, que não param de chegar, em busca principalmente de cigarros. Entre revistas, jornais, ´cards´, balas, cartões telefônicos, estão lá eles: os romances sentimentais. Da coleção ´Desejo´, ´A Noiva Misteriosa´. Em ´Paixão´, ´O Poder do Coração´. A série ´Destinos´ é representada por ´Amor Fora da Lei´. ´Vende todo dia, geralmente de dois a três por cliente. Tem uma cliente que compra cinco, seis de uma vez´, conta Greice Kilvia, que se desdobra para atender a quem chega, invariavelmente, com pressa de sobra.

´Tem os clientes certos. Outras pessoas passam, dão uma olhada. Mas tem o pessoal que acompanha mesmo´, destaca, concordando com a exclusividade de mulheres, mas incluindo adolescentes entre as leitoras. ´Tem menina de 17, 18 anos, que procura. Eu nunca li. Já tive curiosidade, mas não li´, conta. E por que esses livros seguem fazendo mais sucesso do que muita gente imagina? ´Aí acho que quem leu é quem sabe. Mas são livros que parecem fáceis de ler, pequenos, e com preço acessível. Como os relançamentos, com promoção, dois por preço de um´.

No burburinho do Centro

Já Marta Bernardo, atendente da banca O Aragão, um dos eixos do sempre-movimento da Praça do Ferreira, aponta que os livros têm uma procura tímida. ´Não sai muito não. Mas continua vindo sempre´, afirma, logo destacando as mulheres como consumidoras exclusivas dos livrinhos. ´Homem, eu nunca vi comprando. Geralmente são mulheres de mais idade. Tenho uma cliente que compra sempre. Compra mais os ´Clássicos Históricos´´.

Mesmo dizendo não ter percorrido as paisagens de sonho dos romances - ´Eu nunca li, sou preguiçosa pra ler´ -, Marta arrisca um palpite para explicar a continuidade dessas publicações. ´É a história, o romance. Isso chama atenção. As pessoas ainda gostam muito do tema romântico´.

Apesar da resistência dos livrinhos, a Banca do Bodinho, outro tradicional ponto de encontro na praça, não vem recebendo as publicações, há alguns meses. ´Esses livros não estão mais vindo pra mim não´, diz Lúcia Macedo. ´Tem gente que chega procurando. Agora, no momento, não tá tão procurado não. Mas nas outras bancas tem´, contrapõe, dizendo que nunca chegou a ler um desses romances. ´Já ouvi falar muito, mas ler não tive tempo. Quem trabalha com livro, fica atendendo, não dá tempo´.

´Isso aí é sonho´

Eridan Medeiros, atendente da banca Líder, ao lado da sorveteria do Juarez, na avenida Barão de Studart, discorda das colegas do Centro quanto à procura pelos livrinhos. ´Não vejo mais aquelas meninazinhas comprando, como era antes, mas ainda tem saída, tem muita gente que gosta´, testemunha, sobre os livros dispostos em espaço chamativo, ao lado das cruzadinhas do Coquetel. ´Eu mesmo, há muito tempo que não leio. Já li, mas foi há muito tempo. Agora não tenho mais tempo não, de sonhar. Que é o que é isso aí: é sonho´.

DALWTON MOURA
Repórter


TRECHOS
Como seduzir um duque

Sob o véu da noite, três estátuas humanas se postavam atrás de uma noite de azevinhos, as vozes reduzidas a meros murmúrios. ´Ele está bem ali. Mary, a mais velha das irmãs Royele, apontou o dedo branco pelo vão entre os galhos. ´Pode vê-lo? É o loiro diante da fonte. Não é extraordinário? ´Não consigo enxergar nada além da parte de trás de uma cabeça´. Anne não achava a aventura tão divertida quanto Mary. Desde o momento em que haviam saído da mansão da tia, não parava de reclamar sobre o absurdo de terem invadido a festa no jardim do vizinho. Contudo, ficar escondida junto à sebe era perfeitamente lógico, segundo a maneira de pensar de Mary. Não haviam sido convidadas para a festa.. mas o visconde, sim. Até então, Mary só o vira cinco vezes, e de passagem. E embora fosse excelente para julgar o caráter das pessoas, precisava de mais tempo para avaliá-lo melhor... só para certificar-se. Observando-o às escondidas, confirmaria sua opinião inicial sobre o visconde: a de que o jovem era absolutamente perfeito. Anne manifestou sua ansiedade para que Mary saísse da frente. ´Não precisa ser tão impaciente. Darei um passo para o lado, se você tirar a mão de mim com cuidado´. Anne ergueu um dedo de cada vez e, depois, a palma da mão. Mary torceu-se para espiar o dano ao disfarce. ´Eu sabia! Seus dedos deixaram marcas em mim´. ´Vocês duas querem, por favor, baixar o tom de voz?´ Elizabeth, a mais nova das trigêmeas, pestanejou, zangada. Tinha os cílios cobertos de pó branco. ´E se formos pegas? Nossa família ficará arruinada. Sou eu apenas a levar isso em consideração´. ´Está escuro, Lizzie. Ninguém pode nos ver aqui - Anne tropeçou na barra da túnica grega, mandando uma nuvem. ´Anne tem razão. Mas também não podemos ver nem ouvir o que se passa lá. Acho que precisaremos chegar mais perto.

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