Estreia

Nova caçada

Aposta da franquia iniciada em 1987, "O Predador" referencia o passado, porém vacila na ação descerebrada

A visão de Shane Black traz um Predador maior, mais mortífero e feito digitalmente
00:00 · 13.09.2018 por Antonio Laudenir - Repórter

Produto de uma era em que o gênero ação expressou de maneira direta a política reacionária da Casa Branca, "O Predador" (1987) colocava frente a frente duas criaturas de peso. Já conhecido do público por títulos como "Conan, o Bárbaro" (1982) e "O Exterminador do Futuro" (1984), Arnold Schwarzenegger encarava um ser de outro planeta, um monstro praticamente indestrutível e capaz de dizimar qualquer inimigo de maneira brutal e estratégica.

"O bicho feio", como Dutch (o personagem de Arnie) trata a criatura, estabeleceu-se como um dos mais icônicos seres da ficção científica. Dirigido por John McTiernan, Schwarzenegger lidera um grupo mercenário em missão secreta na América do Sul. Tudo vai por água abaixo quando a equipe se torna a presa de um caçador humanoide interestelar.

Ao longo de três décadas, a franquia continuou a crescer nas bilheterias e na consciência cultural da 20th Century Fox, com mais quatro filmes e aparições do alienígena em praticamente todas as formas de mídia, dos quadrinhos aos games. Dessas outras leituras, a única característica intacta do Predador original foi a ideia dele ser o maior e melhor caçador do universo.

Nos cinema a partir de hoje, "O Predador" chega para estabelecer um novo capítulo neste universo. O comando da direção está nas mãos de quem realmente entende do riscado quando o assunto é enfrentar aquela ameaça. Shane Black integrou o elenco original de 1987 e prosseguiu ao longo dos anos com uma carreira até bem sucedida fora das câmeras. Trabalhou como roteirista de outro sucesso dos anos 1980, "Máquina Mortífera" (1987), estreou como diretor em "Beijos e Tiros" (2005) e chegou a guiar o blockbuster "Homem de Ferro 3" (2016). Isso representaria um jogo totalmente ganho para a Fox? Nem tanto.

Continuidade

Logo de cara, "O Predador" estabelece o compromisso positivo de remover os dois filmes crossover com a franquia Alien, os esquecíveis "Alien vs. Predator" (2004) e "AVP: Alien vs. Predator" (2004), deixando apenas "O Predador 2 - A Caçada Continua" (1990), e "Predadores" (2010), como as únicas sequências verdadeiras. Feita a limpeza de casa, o momento é foi de investir em novas histórias, situações e personagens.

"O Predador" reaparece nos dias atuais e apresenta outro mercenário, Quinn McKenna vivido por Boyd Holbrook ("Logan"). O atirador de elite lidera uma missão na selva mexicana, porém, o problemas estão vindo do céu. Durante a fuga de outro, digamos, conterrâneo, um Predador cai na Terra e Quinn testemunha tudo.

Como esperado, o caçador extraterrestre faz um trabalho rápido nos soldados, mas Quinn sobrevive e escapa com equipamento do indigesto visitante.

Enquanto isso, a cientista Casey Bracket (Olivia Munn) é levada para uma base secreta liderada pelo dúbio agente do governo chamado Traeger (Sterling K. Brown). Aqui, testemunhamos a operação "Project Stargazer", encarregada de investigar atividades extraterrestres no Planeta, especificamente, a dos predadores ao longo dos anos.

O quartel general mantém preso o alien que Quinn enfrenta no início do filme. Nem precisa falar muito sobre os perigos de se manter um Predador enjaulado. Quando o filho do protagonista, Rory (Jacob Tremblay) encontra e decifra a tecnologia do Predador, Quinn é totalmente envolvido nessa batalha contra um ser de outro mundo. Preso pelo exército, ele acaba se deparando com um grupo de veteranos do exército com severos traumas pós-guerra.

Conduzidos por Quinn, esses "expendables" encontram uma motivação na vida. Para complicar ainda mais o mundo desse grupo, Traeger pratica uma insana caçada pelos artefatos tecnológicos do monstro ao passo em que um Predador marombado e três vezes maior do que conhecemos nas telonas também está na busca do fugitivo de seu planeta.

Derrapada

Holbrook ganha espaço como a nova tentativa de Hollywood em emplacar um herói. O personagem de Munn, por sua vez, passa de uma estudiosa da biologia para uma guerreira estilo Sarah Connor ("Exterminador") em poucos segundos.

Os atores Trevante Rhodes (Nebraska Williams), Keegan-Michael Key (Coyle), Thomas Jane (Baxley), Alfie Allen (Lynch), Augusto Aguilera ( Nettles) até seguram a onda como os possíveis "bois de piranha" da trama. O pequenino Tremblay, mesmo em tenra idade e com as oscilações de Shane Black na direção, se destaca no elenco.

Black incorpora elementos de seus outros filmes como o humor e as sequências de ação frenéticas. "O Predador" é implacavelmente violento e durante vários momentos essa experiência estética de cabeças decepadas e tripas extirpadas acaba aproximando a obra de um desenho animado. Mesmo diante desse caos, o novo filme busca claramente uma posição de acessibilidade para uma nova geração de fãs. É essencialmente uma reinicialização e pouco requer de conhecimento prévio da franquia ou qualquer visualização dos filmes anteriores.

Tendo Arnold como estrela, a primeira obra da franquia se insere no ambiente da floresta e puxa o medo e o instinto por sobrevivência que existe no espectador. McTiernan isola um grupo de soldados casca grossa num um duelo insano contra um ser nunca antes visto. Essa caçada joga a imagem do homem num sentido de decrepitude, de queda e de menor posição diante de uma ameaça tecnologicamente mais avançada.

Inicialmente apresentado como um espírito da floresta, um fantasma, O Predador passa gradualmente a mostrar o rosto. Um a um, soldados condecorados e que já estiveram em outros conflitos do Tio Sam (Vietnam, Camboj) passam a cair impiedosamente. Essa alegoria desesperançosa sobre os aspectos da guerra e da forma "descartável" como os soldados são tratados, além de uma trama repleta de horror, suspense e tensão, fizeram do filme de 1987 uma peça única na safra cinematográfica daquele período.

Na visão de Shane Black, turbinar esse universo significa apresentar um Predador maior, mais mortífero e feito digitalmente. A presença desta criatura moldada em CGI, diferente da usual onde um ator está por debaixo da maquiagem, representa o momento onde os filmes são mais concretizados em salas de reunião com os produtores do que na cabeça dos cineastas e roteiristas.

"O Predador" guarda bons momentos justamente quando o passado da franquia é recuperado. Nessa atual mistura de "E.T. - O Extraterrestre" (1982) com qualquer monstro digital advindo de filmes da Marvel, Black entrega uma obra irregular e carente de cérebro.

Diferente do Predador oitentista, faltam inúmeras sutilezas na construção da narrativa e comprometimento com a evolução da história. Na dúvida, após assistir à versão do diretor, vale muito esperar por uma reprise do primeiro filme no Domingo Maior.

Mais informações:

"O Predador" ("The Predator", 2018, EUA), de Black Shane. Com Boyd Holbrook, Olivia Munn e Sterling K. Brown. Salas e horários no  Zoeira

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