Nos bastidores do cinema pornô nacional - Caderno 3 - Diário do Nordeste

ENTREVISTA - MARIA ELVIRA DÍAZ BENÍTEZ*

Nos bastidores do cinema pornô nacional

16.08.2010

Pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, da Universidade de Campinas (Unicamp), a antropóloga colombiana María Elvira Díaz-Benítez é uma especialista em temas relativos à sexualidade. Em seu novo livro, "Nas redes do sexo", ela oferece uma descrição detalhada do universo do cinema pornô nacional. Em entrevista ao Caderno 3, ela deu detalhes sobre sua pesquisa, que se destaca por dar atenção à produção, mais que ao produto dessa indústria do prazer

DELLANO RIOS
REPÓRTER

Como chegou ao tema e que razões a levaram a se decidir pela pesquisa?

No mestrado em Antropologia eu já estudava sexualidade, sobretudo o universo dos homossexuais. Na época desse pesquisa, conheci um ator pornô. Fiz uma entrevista pequena com ele, mas nem cheguei a tocar nesse assunto, pois meu interesse no momento era outro, de entender as relações afetivas. Mas achei aquele dado muito interessante e aquilo ficou na minha cabeça. Desde o início, achei que seria um tema maravilhoso para se trabalhar. E ninguém tinha feito ainda. Quando precisei fazer o projeto de pesquisa para o doutorado, falei com meu orientador e ele achou maravilhoso. Entrei no doutorado e mergulhei na pesquisa. A coisa que mais me instigou foi perceber que esse era um universo que não conhecemos. A gente vê, compra os filmes, pega na locadora de DVDs ou no camelô. A pornografia está em todos os lugares, mas não sabemos quem são as pessoas que produzem esse material.

Os profissionais dessa área são exclusivos dela?

Tem de tudo. A grande maioria é de profissionais de audiovisual que trabalham em todo tipo de produção, incluindo o pornô. Os câmeras trabalham para televisão, fazem videoclipes. Alguns fazem mais trabalhos para o pornô, mas exclusivos na área são pouquíssimos. O diretor que mais acompanhei, um senhor de Recife (PE), um dos principais senão o maior, começou no pornô. Ele se fez fotógrafo no pornô, depois começou a dirigir os filmes. Mas a grande maioria tem feito outros trabalhos pra o cinema.

Não há preconceito contra quem atua na área? Eles não têm receio de colocar seus nomes do crédito e ficarem associados a esse tipo de produção?

Existe, mas a questão não é só de preconceito. As pessoas mudam nome porque todo mundo usa nome artístico no pornô. Tanto atrizes como os diretores. Quando eles fazem filmes hétero, usam este nome; se fazem uma produção gay, usam aquele. O motivo disso é que o mercado exige. O mesmo diretor pode usar três, quatro nomes, para assinar um tipo de trabalho. Agora, os que começaram a fazer o pornô nos 80, quando essa indústria era muito mal vista, não apareciam nos créditos. Eles faziam questão de não aparecer, porque prejudicava seus trabalhos no cinema. Encontrei, entre os maquiadores, gente que não contava que trabalhava na área. E não o faziam porque poderiam sofrer com preconceito. De repente, alguém ter nojo dela, da maquiagem que usava. Mas, perceba, era mais uma suspeita que uma constatação.

Como se dá o "recrutamento" dos atores?

Essa é uma etapa muito importante, pois a pornografia exige renovação, especialmente de mulheres. O principal ambiente onde os recrutadores procuram é o mercado de sexo. A maioria trabalha nesse mercado, fazendo programa ou como dançarinos. Especialmente homens de filme gay, mulheres e travestis. Procuram em toda parte naquele contexto. Procurar atores na rua é o método menos utilizado, mas acontece. O mais comum mesmo é que a busca aconteça em bares, boates, clubes privê ou sites. Acontece muito essa busca pela Internet. Eles olham as fotografias que as pessoas colocam, ligam e fazem a proposta, dizendo que é para essa ou aquela produtora. Para os sites, os recrutadores têm mais critérios. Se a pessoa não mostra o rosto, o recrutador nem chega a ligar, porque ali deve ter alguém que quer se manter no anonimato. No recrutamento, as mulheres são mais difíceis de aceitar. De 10 procuradas, uma aceita. Rapaz e travesti é mais simples.

O recrutamento de atores acontece necessariamente na mesma cidade em que o filme é produzido?

Na verdade, tem muita gente do Rio fazendo pornô em São Paulo. As produtoras pagam passagem, hospedagem. As pessoas transitam bastante. Lembro que os cariocas são pessoas bastante cobiçadas pelo pornô brasileiro. E, para isso, o recrutador não olha apenas os sites de pessoas que estão na sua cidade. Se querem loiras gaúchas para uma produção, vão procurar em Porto Alegre.

Qual maior restrição que os profissionais do mercado do sexo impõem às produções do gênero? Há algum impedimento, alguma preocupação dos participantes?

A maior preocupação é com o anonimato. As pessoas cuidam muito dele. Se você é garota de programa, pode continuar sendo e ocultar a vida toda. Se for fazer pornô, as pessoas vão te ver. E, se você for muito bonita, vai aparecer na capa do DVD. Tem gente que continua anônima até fazer uma capa. Tem gente que até fala para os diretores que não quer fazer capa, mas essa é uma coisa que eles não podem prometer. A escolha da capa tem seus critérios: a melhor cara, a melhor bunda, quem tem mais sensualidade. Existem também outros motivos para as pessoas recusarem o convite para fazer um filme. Motivos relacionados à própria forma de fazer sexo. Tem menina que diz: "Sem camisinha eu não faço. Não abro mão disso". Outras dizem que o pornô tem sexo muito "hard" e falam que não iriam aceitar as coisas que o diretor ia pedir. E tem quem diga: "Fico no programa, pois aqui ganho mais".

Mas o filme não "valoriza" essas pessoas no mercado de programas?

Isso acontece. Mas é importante dizer que o filme não é feito para isso. Tem garota que, a partir de ter feito um filme, ficou mais famosa, mais cobiçada. Você imagina: tem cara que o fetiche é fazer sexo com aquela mulher do filme que ele tá assistindo.

Entre os diretores, há algum tipo de preocupação ou discussão a respeito da condição artística que essas produções possam ter?

Existe a vontade de vários diretores de fazer um pornô mais artístico. Como falei antes, muitos vêm de outras áreas e têm preocupações estéticas. Só que hoje os filmes têm um apelo mercadológico muito forte. A maioria é feita seguindo o mesmo protocolo, a mesma coreografia. Começa com beijos, beijos nos seios, toques, masturbação, sexo oral, três cenas de sexo vaginal, três de anal. Ainda assim, muitos deles se preocupam com figurinos bonitos, lugares, em fazer a recriação histórica de algum filmes. Os filmes gays, por exemplo, fazem questão de ter uma historinha. A maioria das pessoas quer fazer filmes bonitos. Os de celebridade levam isso muito mais a sério, pois o dinheiro para a produção é maior. Mas o que está bombando atualmente é "pornô gonzo". Nele, não há historias, só cenas. Já chega na cama e faz sexo. Acabou de fazer sexo, terminou a cena. Essa é uma influência do pornô norte-americano, de uma forma de fazer filmes que existe desde a metade dos anos 90. E isso tem prejudicado bastante o pornô brasileiro, porque tira sua identidade. Isso faz com que tudo seja igual. Tem distribuidor que se queixa desse tipo de linguagem e a associa à queda no mercado.

A pornografia menos narrativa e mais fragmentada é uma influência da Internet?

Acho mais fácil pensar que ela foi levada para a Internet, onde se encontram mais cenas curta que filmes. Não me parece que tenha aparecido primeiro na Internet. Ele começou a ser feito assim, principalmente pelos norte-americanos, que é o que pega mais por aqui. O pornô europeu faz questão de ter uma história mais bem feita. Entre os diretores, ainda tem aquela discussão do que é erótico e do que é pornográfico. Acho desnecessária essa classificação, mas tem isso. Eles tentam fazer coisas diferentes, mas não dá. Têm que fazer o que o dono da produtora pede, o que o consumidor exige.

Qual sua restrição à diferenciação de erótico e pornográfico?

Teríamos que entrar em uma questão mais teórica. Me parece que a justificativa para ela é moralista. Ou, pelo menos, tem sido moralista, se for pegar essa discussão. As pessoas falam que é bonito porque não é explicito, porque não é "degradante". Você entra no território da moral. Já não é uma questão estética, mas dos valores do que é bom ou ruim, sujo ou limpo. Me incomoda escutar que sexo explícito é ruim. Essa discussão teve grande influência, nos anos 70, 80, das feministas que falavam que aquilo era algo degradante para a mulher. Temos que levar isso em conta com muita ressalva. O pornô, de fato, mostra a mulher numa posição hierarquicamente inferior à do homem. Feministas radicais chegaram a falar que essa pornografia era a causa do estupro, que os homens que assistiam a esses filmes seriam estupradores em potencial. Eram, também, a causa das mulheres não se valorizarem. Tenho muitos poréns com os olhares moralistas. Você não sai para matar porque viu um filme do Tarantino. E não vai ser pensando dessa maneira que vamos entender a violência. O melhor é encarar de frente e pensar por que as coisas que são violentas causam prazer. Qual a relação entre prazer e perigo? E ver o que leva as pessoas a assistirem a filmes com esses conteúdos.

*Antropóloga

Antropologia

Nas redes do sexo María Elvira Díaz-Benítez

Zahar

2010

240 Páginas

R$ 46

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