Lançamento

Noir a ferro e fogo

Com arte de Julio Shimamoto e roteiro de Márcio Jr, "Cidade de Sangue" destila a decadência humana

Ilustrações de "Cidade de Sangue", todas em preto, branco e vermelho: para esse trabalho, Julio Shimamoto criou todas as páginas com técnica de ferro de solda sobre papel de fax
00:00 · 13.06.2018

O perímetro urbano prossegue como inspiração para as mais díspares narrativas culturais. Fruto da interação entre manifestações sociais distintas, esse ambiente catalisa ou permite explicar muito sobre a formação de um povo específico. Por vezes inóspita e pouco afável, a cidade permanece como um monstro aglutinador de histórias e vivências. Compreender a dinâmica única desses grandes centros representa uma das formas de sobreviver a este instigante território.

Duas gerações dotadas de perspectivas e relações distintas sobre o esfumaçado universo das ruas acabam de se chocar e resultar na criação de mais um cru retrato sobre o tema. Entre os prédios e o calor do asfalto, poucos são inocentes nesta selva. Estamos em Goiânia, tempo contemporâneo. Violência e paixão se retroalimentam e incidem sobre as vidas de anônimos. Morte e caos banham esse espaço como chuva ácida. Quando este cenário é imaginado, nada mais compreensivo que a potência gráfica da nona arte conseguir exprimir esta aura repleta de revezes.

Ergue-se, assim, a graphic novel "Cidade de Sangue", cria das inquietas mentes de Julio Shimamoto e Márcio Jr. Lançada no início de junho, durante a última edição do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), em Belo Horizonte, a HQ segue como um insano testamento das relações nutridas dentro do decadente organismo da urbe.

Escrita por Márcio Jr. (a partir de argumento de Márcia Deretti) e desenhada pelo veterano Julio Shimamoto, "Cidade de Sangue" se lança como uma dramática trama policial ambientada no árido Centro-Oeste brasileiro. É provavelmente a mais longa HQ de toda a carreira do inconfundível Shima - há décadas reputado como referência para diferentes leitores e quadrinistas do País.

Na HQ, o desenhista leva seu notório experimentalismo gráfico a um patamar inaudito: todas as páginas foram criadas com ferro de solda sobre papel de fax. A luxuosa edição (financiada através do Fundo de Arte e Cultura de Goiás) possui capa dura, sobrecapa de proteção, formato 21 x 30 cm e conta com 152 páginas impressas nas cores preto e vermelho - esta, aplicada por Tiago Holsi (também conhecido pelo trabalho em "Entardecer dos Mortos", 2015).

Nos bastidores, "Cidade de Sangue" marca ainda o início da MMarte Produções como editora de quadrinhos. Formada pelo casal Márcio Jr. & Márcia Deretti, a MMarte é mais conhecida por sua atuação no mercado audiovisual - seja em projetos de formação como a Escola Goiana de Desenho Animado; em festivais como a TRASH - Mostra Internacional de Cinema Fantástico e o Dia Internacional da Animação de Goiás; e como produtora de animações autorais como "O Ogro", "Faroeste: um autêntico western" e "Rascunho da Bíblia".

Queda

Na trama, somos apresentados a Carlão, repórter policial de um grande veículo de comunicação da capital goiana. Calejado no traquejo com o submundo, o jornalista dá indícios de esgotamento e impaciência com o irracional cotidiano de violência onde está inserido.

Para ajudar a por mais pregos na tampa deste caixão, o repórter se vê cada vez mais amargurado e preso a um casamento em frangalhos.

Uma relação extra conjugal nasce nesse intervalo. Tórrido e ao mesmo tempo mórbido, esse recente amor de Carlão desenvolve-se a partir das cenas de crime e violência que cercam essa criatura. Por ironia do destino, o jornalista torna-se o principal suspeito de um dos crimes que cobria para o jornal, naufragando, assim, em uma espiral de decadência.

Filho de Borborema, (interior de São Paulo), Júlio Yoshinobu Shimamoto atuou na evolução do gênero horror nas histórias em quadrinhos produzidas no mercado brasileiro. Profissional completo, desenvolveu também uma carreira como diretor de arte, obtendo amplo reconhecimento na área publicitária.

Sempre buscando inovações nas técnicas da ilustração, o samurai dos quadrinhos brasileiros inspirou diferentes talentos através de um traço firme e único ligado ao preto e branco. Com mais de cinco décadas de labuta, conquistou os principais prêmios da área, como o HQMix, Ângelo Agostini e FIQ. Segundo o pesquisador britânico Paul Gravett, é autor do primeiro mangá produzido no ocidente. Sua obra, caracterizada por constante experimentação gráfica, transita pelos mais diversos gêneros, do terror ao erótico.

Em outras esferas do entretenimento, Márcio Jr. Foi sócio-fundador da Monstro Discos. Além da MMarte, a Escola Goiana de Desenho Animado e os festivais como "Goiânia Noise Festival" e a "TRASH" editou as revistas "Into", "Voodoo!" e "Macaco". É autor dos livros "COMICZZZT!: Rock e quadrinhos" (2015) e "50" (2017). Produtor cultural e Mestre em Comunicação pela UnB, é também vocalista da banda Mechanics - que, ao lado do quadrinista Fabio Zimbres, realizou o projeto do disco/HQ "Música para Antropomorfos" (2007). "Cidade de Sangue" é sua primeira incursão por uma graphic novel.

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