trajetória do grupo

No tempo dos vocalistas

21:18 · 08.05.2004
( Arquivo Nirez )

Do Liceal aos Vocalistas Tropicais. O pesquisador Nirez esquadrinha a trajetória do grupo cearense, detalhando sua importância no contexto dos conjuntos vocais das décadas de 40 a 60

O primeiro conjunto vocal brasileiro foi o “Bando da Lua”, de fraca vocalização. Era mais um coro. Logo surgiram os “Anjos do Inferno”, já com uma boa vocalização, passando a influenciar nacionalmente os artistas em todos os estados.

No Rio de Janeiro, apareceu em 1941 um grupo de cinco estudantes cearenses com o nome de “Bando Cearense”, que, vindo ao Ceará pela primeira vez ainda naquele ano, foi rebatizado pelo jornalista Demócrito Rocha de “Quatro Ases e Um Melé”, já que o pandeirista era apelidado Melé desde os tempos em que jogava futebol. Ao voltarem para o Rio, passaram a chamar-se “Quatro Ases e Um Coringa”, pois no Sul não se conhece o termo “Melé”.

Em Fortaleza, oriundo do “Conjunto Liceal”, surgiu outro grupo, “Vocalistas Tropicais”, também em 1941, liderado por José Eduardo Ribeiro Pamplona. Além dele faziam parte do grupo José Artur de Carvalho, Leto Cordeiro, Nilo Xavier da Mota, Esdras Falcão Guimarães “Pijuca”, Paulo Sucupira, Vicente Ferreira da Silva e Paulo de Tarso. Apresentavam-se na Ceará Rádio Clube (PRE-9), com repertório de autoria de Lauro Maia, José Artur de Carvalho, Aleardo Freitas, Milton Moreira, José Jatahy etc.

Após algumas excursões por estados vizinhos, os “Vocalistas Tropicais”, já com alterações na sua formação, foram à Bahia a caminho da então Capital Federal, o Rio de Janeiro, onde apresentaram-se na Rádio Sociedade, no Hotel Cassino Central e no Cassino Tabariz. De lá seguiram para o Rio de Janeiro juntamente com o cantor Gilberto Milfont, que fazia também temporada em Salvador.

Os “Vocalistas Tropicais” chegaram ao Rio de Janeiro no dia 1º de janeiro de 1946, estreando no dia 4 na Rádio Tupi e no Cassino Balneário Atlântico. Em seguida participaram do filme nacional “Caídos do Céu” e assinam contrato com a gravadora Odeon, onde fazem o primeiro disco com duas músicas: “Papai, Mamãe, Você e Eu”, fox de Paulo Sucupira, e “Tão Fácil, Tão Bom”, balanceio de Lauro Maia.

Com o fechamento dos cassinos em 1946, houve desemprego para muitos artistas, o que desencantou Paulo Sucupira, que era noivo em Fortaleza e regressou para casar, assumindo seu posto o pernambucano Arlindo Borges, saído do “Conjunto Tocantins”.

Os “Vocalistas Tropicais” gravaram muitas músicas de sucesso nacional, como “A Maior Maria”, de Waldemar Ressurreição e Gerôncio Cardoso; “Turma do Funil”, de Mirabeau, Milton de Oliveira e Urgel de Castro; “Coitadinho do Papai”, gravado com Marlene, de Henrique de Almeida e M. Garcez; “Jacarepaguá”, de Paquito, Romeu Gentil e Marino Pinto; “Maricota é a Tal”, de Aleardo Freitas; “Daqui Não Saio”, de Paquito e Romeu Gentil; “Tomara Que Chova”, de Paquito e Romeu Gentil; “Maior Que o Ódio”, de José Messias e Paulo Marques, e “A Voz do Morro”, de Zequeti.

Participaram ainda do filme “Carnaval no Fogo”. Vários outros conjuntos de importância teve o Ceará, como o “Trio Cearense”, “Trio Nagô”, os “Trovadores do Luar”, os “Milionários do Ar”, os “Acadêmicos do Ritmo”, o “Trio Guarani”, os “Vocalistas Orientais”, as “Três Marias”, os “Ases do Havaí”, o “Trio Jangada”, o “Sexteto Tupi”, os “Cangaceiros do Ritmo” etc.

Pode ser considerado a base de tudo o “Conjunto Liceal”, que teve várias formações ao longo dos anos, mas que em sua principal fase, nos anos finais da década de 30, tinha a formação: Valnir Chagas, flautista (depois grande educador); Esdras Falcão Guimarães “Pijuca”, cavaquinho, (depois foi violonista dos “Quatro Ases”); Danúbio Barbosa Lima, tamborim (depois tocou tantã nos “Vocalistas”); Olavo Cordeiro “Leto”, pandeiro; Maria Laura Santiago “Luri”, cantora; José Júlio Coaci, violonista; La Corderi Ribeiro, violonista; Francisco da Costa Gadelha, bandolinista (depois foi médico).

Dos conjuntos vocais cearenses, o mais representativo e que mais se aproximou do Conjunto Liceal foi sem dúvida os Vocalistas Tropicais.

Miguel A. de Azevedo, Nirez
especial para o Caderno 3
Nirez é jornalista e membro do Instituto do Ceará.

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