Ensaio

Narrativa em abismo: realidade em As Horas

André Gide definiu como narrativa em abismo uma técnica inspirada nas artes plástica

00:00 · 14.12.2014
Image-0-Artigo-1758974-1
Cena do filme , As Horas, baseia-se no livro de Michael Cunningham, que, por sua vez, se inspirou no romance "Mrs. Dalloway" de Virginia Woolf. O enredo trata da história de três mulheres mergulhadas em sentimentos. ( FOTO: DIVULGAÇÃO )

A narrativa em abismo consiste em colocar uma história dentro da história, uma narração secundária que de algum modo se funde e desenvolve a partir da ficção original, alternando os momentos de realidade. As Horas, dirigido em 2002 por Stephen Daldry, é adaptado do livro homônimo escrito em 1998 por Michael Cunningham.

O filme, assim como o livro, narra em três tempos paralelos, em três níveis de realidade a histórias de três mulheres. Três cotidianos abismados, espelhados. Em um nível é apresentada a história da escritora Virgínia Woolf, nos arredores da Londres pós vitoriana no ano de 1923. A outra trama acompanha um dia na vida de Clarissa Vaughan na Nova York no ano de 2001. A terceira se dá no ano de 1951, em Los Angeles, mostrando a realidade da dona de casa Laura Brown. Em comum entre elas, encontra-se o livro Mrs. Dalloway.

Vasos comunicantes

Em 1923 Virgínia tem as primeiras ideias, as decisões sobre o desfecho da personagem. Em 1951 Laura Brown o lê, identifica-se com a protagonista, uma dona de casa que prepara uma festa, aparentemente bem, mas seu interior está repleto de angústias e dos questionamentos sobre as decisões que tomou durante a vida. Já em Nova York, Clarissa que, além de possuir o mesmo nome da personagem Mrs. Dalloway, também fará uma festa em sua casa para celebrar o prêmio de literatura recebido por seu amigo e ex-amante Richard, que no fim do filme se matará, assim como Virgínia, e se revelará filho de Laura Brown. Um único dia em suas vidas, mas que depois de algumas decisões tomada as influenciarão pelo resto de suas vidas.

Três mulheres imersas em um mundo de aparências para não demonstrar suas personalidades atormentadas por uma sensação de fracasso e vazio. Não é apenas no conteúdo que está a beleza dessa obra, mas em sua forma, em sua estrutura complexa, onde a princípio, apenas o livro é a chave da coexistência, mas aos poucos notamos algumas coincidências entre as personagens e uma repetição temática: o conflito, portanto, entre a aparência e a realidade.

O filme se constrói a partir do cruzamento desses três tempos, através dos contrastes e das afinidades entres os personagens e as situações vividas por eles. A estrutura se cruza por rimas, temáticas e audiovisuais, repetições e simetrias espaciais e temporais. Flores recém compradas, visitas de pessoas do passado que desestabilizam emocionalmente as protagonistas, relações pai e filho, um beijo e a presença do suicídio são alguns elementos que se repetem nas três histórias.

Império da subjetividade

O que importa não é o tempo em si nem a cronologia das ações, mas sim o sentimento envolvido. É nele que está contido a continuidade dessa estrutura em abismo. O roteiro acompanha o desenvolvimento de um sentimento, como ele se intensifica e se transforma. É na evolução psicológica dessas mulheres que está a chave para a alternância do tempo.

Esse tipo de estrutura narrativa propõe uma espécie de quebra-cabeças, instigando o espectador a mergulhar na narrativa e a responder, com emoções, o que é apresentado dessas três mulheres.

A estrutura em abismo parte da desconstrução para criar algo novo. Pela multiplicidade de universos, de realidades, põe em questão novos significados e torna os personagens e as relações mais complexas através de novas cadeias significativas. Redimensiona o espaço e cria uma dimensão a ser explorada, uma ideia de vertigem, e no interior desse abismo, três mulheres. Durante o filme, testemunhamos a experiência de cada uma delas, como cada uma vive as horas do dia. A maneira como elas revivem o passado, vivem o presente e projetam o futuro. A unidade da narrativa se dá através das vivências subjetivas das personagens, pela afinidade de seus fluxos de consciência em seus conflitos e contradições. Em comum, a impossibilidade de viver as horas do dia, tendo que submeterem-se à normalidade do cotidiano exigido.

O filme nos apresenta três maneiras espelhadas de se viver As Horas. Virgínia sofre de depressão, se suicida e deixa uma carta que serve de prólogo, não deixando claro se sua morte é uma desistência ou um momento de aceitação. Laura Brown está em conflito com sua situação acomodada, um modelo de felicidade familiar comandada por seu marido, onde há uma inquietação, um problema que ela não é capaz de identificar.

Clarissa Vaughan é atacada pelos fantasmas do passado, que voltam à tona nesse dia específico. Seu melhor amigo se suicida na sua frente e ela não sabe, não entende o sentimento que isso lhe provoca. Não é uma questão de conceituar o que é realidade ou tempo, mas perceber como se dão as experiências particulares de cada personagem, como cada uma lida com as horas de que as unem.

O tecido temporal

No livro, a protagonista passa a vida podendo ter sido outra, e é esse abismo de possibilidades que o filme aborda. No filme, Virgínia, Clarissa e Laura também se imaginam em outros lugares. Virgínia sonha com Londres, retomar a vida social. Clarissa imagina o que teria acontecido se tivesse sido escolhida por Richard, pois ainda considera seu curto romance o momento mais feliz de sua vida. Laura se sente incômoda no cotidiano da família americana padrão, com o marido exemplar, a bela casa e o filho amoroso. É através dessa complexa forma de estrutura narrativa que se atinge o complexo mundo interior das personagens, o fluxo de consciência.

O tempo é uma ilusão, uma convenção. O tempo não está ligado ao relógio. O que é proposto é um fluxo de tempo diferenciado, que é a própria experiência de vida das personagens, um tempo subjetivo, que está ligado à consciência. Há uma viagem interior, rumo à alma, à consciência.

Considerações finais

O cinema é um terreno fértil para representar camadas da existência, em que as ações não se dão apenas no plano da realidade consensual, mas também em um plano psicológico. Alguns níveis de realidade surgiram a partir das possibilidades de vida imaginadas pelos personagens. As três personagens do filme não deixam de ser possibilidades, realidades múltiplas da fictícia Clarissa Dalloway. A ironia e a complexidade da obra está em depois perceber que as angústias cotidianas seguiram, camufladas por um mundo de pequenos prazeres.

A maior tragédia é a confirmação de que nos três trajetos possíveis, as angústias parecem inerentes à personagem e independem às escolhas. A estrutura espelhada remonta às possibilidades de caminho, mas também remonta a tempos passados concretos. São camadas da existência que só podem se mostrar no universo da representação e, no cinema, é possível transpor esse caráter especular e diverso.

SAIBA MAIS:
BETH, Brait. A personagem. São Paulo: Ática, 1985
GANCHO, Cândida. Como analisar narrativas. São Paulo: Ática, 2012
PAZ, Octavio. Signos em rotação. São Paulo: Perspectiva, 1976


João Luiz Chaves
Especial para o ler*

Do Curso de Audiovisual da Unifor

Comentários


Li e aceito os termos de regulamento para moderação de comentários do site.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.