Ensaio

Narcisismo: o amor freudiano

00:00 · 03.01.2014
No final do século XX Italo Calvino identificou a exatidão como uma qualidade indispensável à literatura

A exatidão é capaz de nortear o dom dos escritores e cada um dos atos de nossa existência. Em "Seis propostas para o próximo milênio" (Companhia das Letras, 1990), Calvino define o termo exatidão como a capacidade do escritor de criar uma obra bem definida e calculada, de evocar imagens visuais nítidas e incisivas e, finalmente, de ser hábil no uso de uma linguagem, isto é, usá-la da forma mais precisa possível para traduzir seu pensamento. Desde que li essa obra admirável tenho pensado, frequentemente, na precisão conceitual como uma das virtudes necessárias ao analista para enfrentar à crescente vulgarização e banalização da psicanálise. A exatidão teórica como antídoto contra o mau uso da psicanálise é um dos instrumentos necessários à transmissão da herança que recebemos de Sigmund Freud.

O ponto de partida

Não poderia melhor ilustrar minha ideia do que resenhando a obra de Nicéas, recém lançada pela editora Civilização Brasileira na Coleção para ler Freud. Com a honestidade intelectual e a criatividade de sempre, atestadas em inúmeras publicações, tanto no Brasil como no exterior, Nicéas mergulhou de cabeça na aventura de escrever um livro sobre uma das mais importantes obras de Sigmund Freud, "Para introduzir o narcisismo" (1914).

O resultado surpreende: O amor de si, título homônimo à expressão usada por Freud para explicitar o investimento amoroso da libido no eu, é o retrato fiel do trabalho de um psicanalista que procedeu a leitura do texto sobre o narcisismo decidido a reencontrar, como sempre o fez em outras ocasiões, a imprevisível novidade do objeto da psicanálise, o inconsciente. O livro testemunha o compromisso de um autor em buscar as palavras para transmitir, com leveza, clareza e a maior precisão possível, a rede conceitual que envolve a importância do narcisismo na teoria e, ao mesmo tempo, manter em aberto um não-dito de modo a deixar ao leitor a tarefa de dizer outras coisas que não o mesmo

"Eu pari com dificuldades o Narcisismo". Com essa confissão de Freud a Karl Abraham, Nicéas abre sua obra convidando o leitor a acompanhá-lo na leitura desse "parto" que fez da introdução ao conceito de narcisismo, um dos mais importantes e fecundos momentos da obra daquele que feriu a humanidade ao revelar que o "eu não é senhor nem mesmo em sua própria casa". Somos, desde o princípio, tomados pela direção que nosso autor imprime ao próprio texto: nenhum trabalho que pretenda dar conta de um conceito psicanalítico pode deixar de tocar na relação entre o sujeito que faz uma teoria e sua fundamentação prática, e reciprocamente. Razão pela qual, ele nos chama, assim, atenção para o fato de que "Para introduzir o narcisismo" está situado, nas obras completas de Sigmund Freud, entre dois textos inscritos sob a rubrica de escritos técnicos - Rememoração, repetição e elaboração e Amor de transferência.

Psicanalista

BETTY BERNARDO FUKS
COLABORADORA

FIQUE POR DENTRO

Informações sobre o autor e sua obra

Médico e psicanalista, Carlos Augusto Nicéas é membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise. Além de uma intensa produção científica, em especial no gênero ensaio, (publicou, juntamente com outros estudiosos dessa área do conhecimento, livros como "A ordem sexual"; "Psicanálise: o imaginário"; "Transferência e interpretação", dentre outros) dedica-se, ainda, às atividades de ensino no Instituto de Clínica Psicanalítica do Rio de Janeiro (ICP/RJ) e na Clínica de Atendimento e Pesquisas em Psicanálise de São Paulo (CLIPP).

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