Nação brasileira - Caderno 3 - Diário do Nordeste

música

Nação brasileira

30.10.2002

NAÇÃO ZUMBI: música nordestina brasileira com riffs eletrônicos mais discretos e letras em inglês
NAÇÃO ZUMBI: música nordestina brasileira com riffs eletrônicos mais discretos e letras em inglês
Pio Figueiroa/Divulgação

Numa nação como nunca politicamente identificada com as suas próprias origens, os pernambucanos da Nação Zumbi estão lançando o seu quinto CD, o primeiro pela gravadora Trama, o primeiro que tem realmente a cara do pessoal, desde a morte de Chico Science. “Nação Zumbi”, o disco, bem que podia ter se chamado de “Nação Canção”, tal o estilo mais moderado com que o grupo dosou os seus beats caranguejos com as suas anteriores experimentações eletrônicas. Ou “Nação Brasil”, tal a verve característica do grupo. Espécie de asa branca, nossa fênix nordestina, a Nação Zumbi mostra sua resistência. Mais “dub” do que nunca, o grupo apresenta 12 pequenas canções-mangue, com um sofisticado tempero soul e uma aura bem brasileira, conquistados pelos produtores Arto Lindsay, pelo Instituto e pela interpretação de Jorge du Peixe, novo líder desta revigorada Nação

O disco foi lançado no último dia 25, na Fundição Progresso, Rio de Janeiro. Nos dia oito de novembro, segue para São Paulo. À tiracolo, faixas mais densas como “Propaganda”, um dub feito e cantado com Rodrigo Brandão, ex-DJ da MTV, e “Tempo Amarelo”, que faz parte da trilha do longa “Amarelo Manga”, do pernambucano Cláudio Assis.

O lançamento da Trama - o disco anterior, “Radio S.amb.A”, tinha saído pela pequena YB, depois da saída da Sony - teve mixagem e participação do americano Scott Hard e traz ainda as participações especiais do cearense Fernando Catatau, em três faixas; de Dona Cila do Coco, na funkeada “Caldo e Cana”; da cantora Nina Miranda, na ciberdelia anglo-português “O Fogo Anda Comigo” e do DJ Marcelinho, ex-Câmbio Negro, na tecno-dub “Faz Tempo”.

Sempre é bom lembrar que a Nação Zumbi foi um dos pioneiros do Mangue Beat, movimento musical que continua renovando as sonoridades e as existências nordestinas para o mundo. Mérito que agora ganha novas posturas, já sem o peso da ausência de Chico Science, o primeiro líder da banda, falecido há alguns anos.

Em “Amnesia Express”, o inglês manda ver em um beat eletrônico, meio funk. “Know-how”, também em inglês, traz guitarras, teclados e uma roupagem mais hip hop. Até Roy Obison aparece, no final da “ligada” “Blunt of Judá”. O universo nordestino vem intenso em “Mormaço”, com Scott na guitarra e tudo mais. A “Afrociberdelia” está mais ciberdélica em “Prato de Flores” e mais afro, em “Ogan di Belê”

Com Jorge du Peixe à frente e mais músicas brasileiras em idioma ianque, a banda mostra que seu peso está também presente não só na ciberdelia, mas também no zunir coeso de “uma tonelada de maracatu”. “Meu Maracatu Pesa uma Tonelada” é a primeira faixa de trabalho desse álbum que saúda a intensidade criativa dos bons zumbis brasileiros, sobre o qual o baixista Dengue concedeu a seguinte entrevista ao Caderno 3.

Caderno 3 — O som de vocês deu uma pequena guinada, com as percussões dialogando com umas distorções mais elétricas e com um beat eletrônico menos evidente que o Radio S.amb.A. Isso pode ser encarado como uma volta às origens da banda ou a intensidade das letras e a história musical de vocês fazem com que esses efeitos eletrônicos acabem parecendo mais naturais?

Dengue- Tem músicas com uma levada de maracatu bem marcada e com uma base mais pesada e outras como a “Faz Tempo”, que a guitarra nem toca, só aparece no final, sampleada pelo DJ Marcelinho, como scratch. Hoje em dia a gente sabe realmente dosar muito mais. É muito mais natural para nós usar essa coisa de eletrônica, até porque a gente vem tentando mexer com isso desde o primeiro disco, sampleando, gravando. Na “Coco Dub”, eu só gravei quatro compassos, coloquei no sampler e disparei o play. A gente já usa há muito tempo, só que hoje em dia a gente já está mais consciente, indo mais direto ao ponto. A gente nem pensa nisso, mas acaba ficando tudo mais equilibrado, mais nivelado.

— Pois é, no geral, o disco parece mais maduro, embora tenha preservado a espontaneidade de vocês, até nas horas mais pesadas e eletrônicas, sobretudo em “Propaganda”, “Meu Maracatu...” , “Faz Tempo”, “Mormaço”, “Prato de Flores”. Vocês acham que estão cada vez mais à vontade, sem a cobrança que houve depois da morte de Science?

Dengue -É claro que a história foi doideira porque a gente jamais queria que isso tivesse acontecido. A gente era muito dependente do Chico, ele era o centro da banda, que colocava a gente nos eixos. E quando ele se foi, foi muito difícil a adaptação, inclusive lidar com o pessimismo das pessoas. Todo mundo falou que a gente ia acabar. A galera nos acabou. A banda nunca acabou, mas as pessoas acabaram a banda. Quando a gente lançou o “Radio S.amb.A”, mais uma vez os pessimistas atacaram, querendo comparar desde as músicas, até o vocal de Jorge, querendo comparar com o Chico. Claro que houve exceções e já se ligaram que era impossível comparar. Hoje em dia as pessoas dizem: “vocês se livraram do carma do Chico”. A gente diz: jamais. A gente não se livrou do Chico, a gente não quer se livrar dele, nem tampouco ele é um carma. Foi uma fase maravilhosa da nossa vida, diria até da música pernambucana, e jamais irá se repetir porque o cara não está mais aí.

— Mas no Radio S.amb.A, houve uma empolgação exagerada com os efeitos eletrônicos?

Dengue -Até porque a gente mesmo arregaçou as mangas e produziu. Mas para nós foi muito importante porque o que a gente fez nele, deu fruto agora. É um disco mais complicado, esse é mais solto, menor, as músicas são pequenas, mais leves, você ouve em meia hora.

— Foi feito muito rápido, né, como é que foi o processo de gravação, de produção numa gravadora nova?

Dengue -Cara, foi sensacional porque quando a gente assinou o contrato, em dezembro, a gente não tinha as músicas prontas, nem demo tinha para mostrar. A Trama assinou na cega. E a partir do momento que a gente assinou foi que a gente se trancou no estúdio e começou a compor. Isso foi em um mês e meio, foi muito rápido. É onde eu destaco essa cancha do “Rádio S.amb.A”, que durou dois anos de produção. Esse foi um mês e meio para compor e um mês e meio para gravar. Daí que eu falo, a gente nem sentia isso, mas a gente se ligou que amadureceu pela rapidez das coisas e pela fluidez que elas tiveram. E o lance dos produtores, foi muito classe. Diziam que a gente não precisava de produtores. Realmente, se a gente se metesse a gravar sem produtor, ia sair um bom disco também. Mas talvez não ia sair tão bom como saiu. Não que erramos. Mas no Radio S.amb.A, a gente viu que precisava de um terceiro olho, alguém de fora. E nesse foi o Arto Lindsay e o pessoal do Instituto, um pessoal daqui de São Paulo que é muito bom. A gente separou as músicas co-produzidas com eles das com o Arto, a gente sabia o estilo de cada um. E foi muito bom. E a Trama foi muito bom, o projeto todo ficou classe. Você já viu o site? Estamos enriquecendo novas coisas todos os dias. Eles têm um departamento só para isso. A gente nunca foi tão bem tratado, até porque a gravadora é de médio porte, está caminhando. A gente gravou o que a gente quis e chamou o Scott para mixar o disco, já que ele não pode produzir também. A Sony trabalhava a gente junto com todo o casting da gravadora, o esquema de divulgação era o mesmo. Os caras queriam colocar a gente em Hebe. No “Radio”, a gente viu que se não gravasse independente, ia ficar uns quatro anos sem gravar. Existiram propostas de outras gravadoras, mas a gente nem pensou duas vezes em não aceitar. Porque eram umas coisas muito ridículas. Aí a gente preferiu gravar independente, com uma boa sonoridade, mesmo sem uma distribuição legal. Mas a gente também sabia que um disco é para a vida inteira e que a gente depois podia relançar o disco. Dito e feito: a Trama se interessou em distribuir, então vai chegar na loja junto com esse novo, vai ser classe.

— Vocês experimentaram o inglês no Radio S.amb.A, mas é algo ainda meio estranho, ideologicamente, para parte do público de vocês. O inglês surgiu naturalmente na sonoridade da Nação?

Dengue -Eu acho engraçadíssimo a galera comentar isso como uma coisa negativa, como se fosse uma coisa ideológica, como se a gente fosse Ariano Suassuna, tá ligado? A gente não é velho, a gente não quer atrasar a cultura, nem tampouco a gente tem medo de expressar os nossos sentimentos por outro idioma. Eu acho muito errado a galera achar que a gente deve tocar só coco, cantar só em português, não tem lógica. A liberdade artística fica onde? Não pode restringir. Agora, pra falar inglês e se garantir cantando, você tem que se garantir na sua cultura, culturalmente você tem que ser muito bem definido. A gente sabe a nossa cultura, a gente sabe o valor que ela tem, tanto a nordestina, quanto a brasileira, a gente conhece tudo muito a fundo, e não tem problemas com isso. A gente não considera isso “se vender” ou “uma das portas para globalizar” ou qualquer outra p... dessa que a galera venha a falar. Até é natural, em se tratando da Nação, que a gente já flerta com o idioma inglês desde o primeiro disco, com “Coco Dub”, “Salustiano Song”... Não tem letra, mas tem citações. “Afrociberdelia” também tem “Sobremesa”, que o cara canta inglês. No “Rádio S.amb.A” também. Então, entra legal porque o Jorge já escreveu a letra em inglês. Mas não existe a preocupação de fazer letra em inglês, mesmo que a gente tenha uma ambição internacional. Até o “Rádio S.amb.A” é bem conhecido lá, mais do que aqui. Falaram muito bem dessa música em inglês por facilitar a comunicação. Tendo isso na cabeça foi natural que saíssem letras em inglês

— Essa definição do Jorge como o compositor e o vocalista principal da banda vai dar mais homogeneidade à banda? Tava faltando isso?

Dengue -Tava. A banda precisa de um vocalista principal. E Jorge, desde o início, sabia que isso ia cair encima dele. Só que o quê demorou nesse processo foi a adaptação dele e a nossa também. Ele sempre escreveu, mas hoje em dia ele escreve letras com um ritmo de trabalho maior. Ele aprendeu a abrir a cabeça e deixar as coisas fluírem. E cantando, você vê que as vezes ele canta como um vocalista da soul music dos anos 60, ele canta mesmo, explora, ele está descobrindo até onde a voz dele pode ir. Eu acho que no próximo ele ainda vai fazer mais.

— O incentivo de vocês foi fundamental, né? Ele tremeu na base em algum momento?

Dengue - Ele ficou apreensivo, né. A responsabilidade era muito grande. Pilotar a banda, uma banda grande que toca pesado, tem que ter personalidade, não é nada fácil. E a gente é fã número um dele e sempre apoiou mesmo.

Henrique Nunes - Da Editoria do Caderno 3




Comente essa matéria


Editora Verdes Mares Ltda.

Praça da Imprensa, S/N. Bairro: Dionísio Torres

Fone: (85) 3266.9999