Na defesa do próximo

Atuação literária de Drauzio Varella reflete realidades e vivências repletas de agonia, esperança e humanismo

O longa “Carandiru – O Filme” (2003) é inspirado na vida e obra do médico Drauzio Varella
00:00 · 13.05.2017 / atualizado às 01:56 por Antônio Laudenir - Repórter

Um capítulo violento e vergonhoso da recente história brasileira pode ser resumido nos atos acontecidos no dia 2 de outubro de 1992. Nesta data, a Casa de Detenção de São Paulo foi palco do massacre responsável por dizimar um total de 111 vidas. A ação policial nos corredores da então maior penitenciária da América Latina, ainda ressoa e estala como um chicote. Do banho de sangue, pouco ou quase nada restou para evidenciar a memória daqueles mortos. 

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.Testemunha de um Brasil esquecido

Em dezembro de 2002, o complexo foi demolido como uma forma de amenizar ou oferecer uma outra perspectiva otimista ao combalido e problemático sistema prisional brasileiro. Entre Carandiru e o exemplo dos últimos eventos ocorridos no Complexo Penitenciário de Pedrinhas denunciam o terrível cenário deste Brasil clandestino, marginal e pouco compreendido. 

Fartamente equivocado, o debate sobre este tema é poluído pela boçal máxima de “bandido bom é bandido morto”. Reproduzindo as raízes de uma nação assassina e pouco condescendente com as minorias, essa ideia afasta o cuidado com o próximo e estabelece um regime excludente e distante de oferecer a ressocialização de criminosos.

Das cinzas e chagas envolvendo o Carandiru (aqui, você pode substituir por qualquer unidade prisional espalhada pelo País) sobressai o relato de um médico. O Doutor Drauzio Varella chegou naquele espaço em 1989 para trabalhar a prevenção da AIDS e tratar dos doentes já diagnosticados com esta síndrome. 

Silêncio

Varella descreve o ambiente do presídio e as impressões de, aos poucos, sentir-se também privado da liberdade durante o trabalho. Aquele meio, em determinado grau, mexia diretamente com aquele profissional. “O impasse tinha duas soluções: parar de ir à cadeia ou encontrar um horário para atender os doentes, organizadamente. Prevaleceu a segunda alternativa. Aquele mundo havia entrado em mim, era tarde para fugir dele”, descreve o autor na obra. 

As condições sanitárias, a fatal ideia da impossibilidade de reeducação e o esquecimento em torno do lugar atacaram essa testemunha em cheio. No decorrer das páginas, é perceptível o quanto aqueles homens nunca foram inseridos na sociedade, uma vez que já nasceram e foram criados em locais cuja realidade é permeada pela exclusão.

As descrições apontam como aquelas criaturas já nasceram presos a um contexto sem volta. Silenciados, enfermos e encarcerados em um Presídio que deveria comportar menos de 4000 indivíduos. Superlotado, as celas contavam com mais de 20 pessoas que dormiam amontoadas. Tuberculosos não tinham assistência e transmitiam a doença para os demais e inexistia qualquer programa de prevenção doenças sexualmente transmissíveis (DST).

Varella percebeu que apenas a realização de palestras sobre AIDS seria muito pouco para contornar a situação dos presos que morriam sem receber nenhum cuidado. Sob a alegação de falta de verbas por parte do governo, nenhuma equipe médica atuava no local. 

O então médico por mais de duas décadas do Hospital do Câncer de São Paulo escolheu exercer o ofício sozinho, no Carandiru. Para tanto, contava apenas com ajuda de assistentes detentos, correndo risco de contrair inúmeras doenças ou ter sua segurança e integridade física arriscadas. No consultório improvisado, o doutor tornou-se amigo de muitos presos, curando inúmeros e ouvindo as histórias de vida de cada um. O cotidiano antes da detenção e a realidade fora das grades são detalhes explorados pela pena do autor. Esse choque de universos, o do homem educado e com ensino superior e aqueles pobres diabos expõe as regras de um mundo desconhecido e relegado. 

Cinema

O livro Estação Carandiru (1999) ganhou os prêmios Jabuti de “Não-Ficção” e “Livro do Ano”. A empreitada despertou a atenção do cineasta Héctor Babenco (1946-2016) e a narrativa depreendida por Varella resultou em “Carandiru: O Filme” (2003). O roteiro do próprio Babenco em conjunto com Fernando Bonassi e Victor Navas injeta menos força na variedade de personagens e explora o impacto e crueza das imagens. 

Ao apontar de modo cru a situação daquele presidiários, a obra investe na reconstrução de fatos emblemáticos que misturam da inocência (o show da musa Rita Cadillac, a sequência do jogo de futebol ao som do Hino Nacional) ao caos (os momentos finais do longa, no qual acompanhamos o genocídio cometido durante a rebelião). 

Lados

A cadeia vista pela ótica de outros homens. No caso, daqueles responsáveis por vigiar a punição dos encarcerados. Mostrar quem são estes agentes e os contexto pelos quais enfrentam no dia a dia. A vida naquele ambiente de clausura foi o tema explorado na sequência por Varella através da publicação de “Carcereiros” (2012). O tom desta narrativa também é pontuada pela premissa de desvendar o campo de atividade destes profissionais. 

“São pessoas que a sociedade põe lá (presídio) entopem a cadeia de presos, superlotam e dizem ‘se virem, deem um jeito de manter esses presos quietos aí, que ninguém fuja ou crie problemas. A própria sociedade cria essa estrutura quase que medieval de prisão e jogam lá dentro pessoas mal pagas para tentar impedir que o caldeirão vá para o espaço”, explica o escritor em vídeo de divulgação da obra.

O dia a dia dos agentes penitenciários é entrecortado por histórias de traição, coragem e violência. Varella arrisca uma reflexão mais profunda sobre a situação do sistema carcerário brasileiro, as origens do PCC (que nasceu como uma reação dos presos ao massacre do Carandiru) e a relação da “classe média” com o mundo marginal. 

Entre as diversas narrações, ora violentas, engraçadas e heroicas, o livro questiona quais seriam as possíveis soluções para a situação das cadeias. 

Entendendo que inexistem soluções simples para problemas complexos, o médico e escritor desenvolve uma teia humana e desprovida de julgamentos. Mais uma vez, um Brasil cru e violento é denunciado e evidenciado. Um serviço necessário e cada vez mais atual nos últimos tempos.

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