Documentário

Música para os olhos

"Oasis: Supersonic", sucesso no Netflix, reafirma a rica parceria entre o rock e o cinema documental

00:00 · 15.04.2017 por Dellano Rios - Editor

Nenhum gênero musical estabeleceu uma relação tão estreita com o documentário quanto o rock. O cinema de não ficção, claro, já demonstrou ter limitações temáticas e não faltam filmes em que estão no centro o blues, o country, o jazz - para falar da música estrangeira -; ou o samba e o forró, para citar a prata da casa. Contudo, o rock, sobretudo a partir dos anos 1960, passou a incorporar um elemento eminentemente narrativo. É, num nível muito básico, muito além que música. Não é preciso nenhuma interpretação sociológica sofisticada para chegar nesse quadro. Mais que um gênero, é um universo, uma mitologia em expansão, como uma árvore genealógica que congrega deuses, semideuses, mortais, seres rastejantes, castas, clãs. E, num gênero potencialmente narrativo, como é o documentário, esta matéria prima vale ouro.

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.Realidade inventada 

.Para ir direto à fonte 

Talvez você não saiba, mas existe até um neologismo que batiza este encontro - "rockumentary", palavra-valise inventada, em 1969, pelo radialista norte-americano Bill Drake, pra a série radiofônica "History of Rock & Roll".

Contrastes

A filmografia do rock é tão variada quanto vasta. As produções dos anos 1960 e 1970, sobretudo inglesas e norte-americanas, hoje têm um valor artístico adicional. A indústria fonográfica já era um negócio bilionário, mas os artistas eram mais donos de si e cineastas conseguiam um acesso que, hoje, é impensável. Não raro, o retrato que se tinha era contraditório e até depunha contra as bandas.

Caso de "Gimme Shelter" (1969), sobre a turnê dos Rolling Stones de 1969. Dirigido por Albert e David Maysles com Charlotte Zwerin, o filme mostrava os Stones como uns doidões cheios de si, que promoviam o festival bagunçado, com segurança feita por uma gang de motoqueiros. O resultado foi um assassinato diante do palco - e das câmeras.

São dessa época o clássico "Don't look back" (1967), sobre Bob Dylan; "Let It Be" (1970), de Michael Lindsay-Hogg, cobrindo a gravação do álbum homônimo dos Beatles; e "The Last Waltz" (1978), de Martin Scorsese, focando na The Band, o grupo que acompanhava Dylan ao vivo.

A partir dos anos 1980, os documentários começaram a ser produzidos como um produto para fãs. Com a predominância do DVD, virou material bônus, com o produto principal sendo um show ao vivo ou a edição remasterizada de um álbum clássico.

Aqui e acolá, alguma banda encampa um filme de valor, dando liberdade para um cineasta de talento trabalhar num filme, chancelado como oficial. Scorsese, um fã de rock, lançou documentários sobre Dylan ("No Direction Home", 2005) e George Harrison ("Living in the Material World", 2011). E o Pearl Jam chamou Cameron Crowe ("Vida de Solteiro", "Quase Famosos"), um cineasta estreitamente ligado ao grunge, para comandar "PJ20".

Supersonic

De tempos em tempos, há safras de sabor invulgar. E, ao que tudo indica, estamos bem no meio de uma delas.

O problema é o estado precário de nosso circuito de cinema (que não costuma dar tanto espaço para o gênero) e uma indústria fonográfica em colapso (pelo menos, no que diz respeito às regionais das gravadoras multinacionais). É bem possível você passar semanas lendo sobre este ou aquele filme que, se muito, será exibido por aqui em festivais. Nada de chegar aos cinemas ou aos canais pagos, por exemplo. Não raro, o material chega ao DVD/ Blu-Ray, mas com tanto desleixo que sequer é legendado (Duvida? Procure "Vieuphoria", dos Smashing Pumpkins, de 2002).

Daí que a bola da vez é "Oasis: Supersonic". O filme é do ano passado e foi produzido pelos britânicos Asif Kapadia e James Gay-Rees (a dupla por traz de "Amy", o premiado documentário sobre Amy Winehouse). A direção ficou com Mat Whitecross, cineasta de pouca expressão, com experiência em ficções, documentários e videoclipes. "Oasis: Supersonic" gerou um oba-oba em territórios que a banda dos irmãos ingleses Liam e Noel Gallagher têm moral, como o Brasil e, claro, o Reino Unido. As exibições foram bem restritas, enquanto a atenção dada ao filme em publicações especializadas beirou o exagero. Por fim, o filme entrou no catálogo do Netflix no começo deste mês.

"Oasis: Supersonic" é o tipo de filme que aquece o nome de uma banda do passado. O Oasis existiu de 1991 a 2009 e foi um gigante do rock britânico nos anos 1990. A produção valoriza estes dias glória, com os irmãos Liam e Noel Gallagher, à frente da banda, falando e fazendo barbaridades, gravando grandes canções e lotando estádios, arenas, casas de shows e parques por onde passavam com o Oasis. Alguns fãs tinham esperança que o filme fosse uma espécie de peça viral de luxo, prenunciando a paz entre os Gallagher e o retorno do Oasis. Não chegou a ser isso tudo, mas é um bom documentário.

Um destino como este bem que poderia contemplar outros filmes de temporadas recentes, caso de "Gimme Danger", uma história oficial da banda The Stooges, dirigida por Jim Jarmusch; ou "Cobain: Montage of Heck" (2015), de Brett Morgen, que foi, enfim, um filme descente sobre o líder do Nirvana, bem superior a baboseiras conspiratórias como "Kurt & Courtney" (1998).

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