Exposição

Museu de Arte Contemporânea: os sonhos que viram pinturas

A mostra "Ela" constitui um passeio pelo universo imaginário do artista que inova com técnicas e linguagens

00:00 · 04.06.2015
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Obra do artista pernambucano Bruno Vilela, parte da mostra "Ela", em cartaz até agosto no Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar
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Bruno Vilela, artista pernambucano, está em cartaz com a mostra individual "Ela" ( Fotos: Kid Junior )

Os rostos desfigurados de personagens meio humanos, meio bichos, alguns sem olhos, outros com o globo ocular deslocado para a mão, constituem o universo instigante das criações do artista visual pernambucano Bruno Vilela, expressas em 11 obras que integram a mostra "Ela". Os trabalhos ocupam o segundo pavimento do Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MAC), no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC). A curadoria da mostra é de Bitú Cassundé.

Na primeira sala, será projetado um curta-metragem de 26 minutos, do diretor Beto Brant, que acompanhou durante 12 dias, o processo criativo do artista, em seu ateliê, no Recife. Serão exibidos, também, alguns cadernos que servem de pistas ao processo criativo do autor. Na terça-feira, enquanto os trabalhos eram montados, Vilela terminava uma obra, na parede do MAC, usando projetor, computador, solvente, pinceis e lápis. O sonho e a psicanálise são elementos que entram na formação da "pintura cinematográfica" de Vilela, ao transpor para a tela os sonhos, que ganham cor.

Criação

À primeira vista, as pinturas de Vilela encantam tanto pela técnica utilizada quanto pela expressividade que encerram. Propiciam a ideia de autorretratos anônimos, como se cada uma das imagens servisse de máscara ao espectador, que não ficará passivo diante das cenas criadas. Na arte do pernambucano, emoldurada por "atmosfera lúdica e mágica ao evocar sonho e psicanálise", acrescenta Cassundé, nada acontece por acaso.

Isto é, tudo faz parte do processo criativo do artista, que envereda pelas pesquisas do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) para fundamentar as criações, frutos de estudo de 23 anos e 18 de profissão. O autor identifica o que chama de "ressaca conceitual", reclamando que, nos últimos 30 anos, a pintura desapareceu entre os novos artistas de Recife ("esse rótulo de arte contemporânea um atraso", explica). Para Vilela, os pintores Rembrandt e Velázquez são contemporâneos, justificando sua posição com o entendimento de que a arte é atemporal.

O pintor aposta na vitalidade da arte para criar a sua pintura, como as apresentadas em "Ela". A cor azul e as representações da família são predominantes na mostra. O artista foi buscar as referências no conceito de junguiano de "anima", baseado na representação do inconsciente masculino, que aparece nas formas de figuras femininas. Ele evoca as alegorias femininas em várias culturas ancestrais, passando pela mitologia. É quando entra em cena a imaginação de Vilela, ao propor uma simbologia pessoal, a partir de fotos de família, que são desconstruídas pela técnica do pintor.

Das imagens fotográficas, restam apenas esboços ou fragmentos. Como fez com fotografia da própria mãe, cortando o bolo, na festa de 15 anos. Após algumas horas ou dias de trabalho, as fotos perdem a beleza exterior como se o artista invadisse a alma das pessoas. Em algumas telas, o autor enfatiza os olhos, como uma obra toda em azul, que ficará em uma das salas do MAC, com as luzes apagadas.

O objetivo é destacar o caráter de fantasma da criação. Em outra sala, uma singela mesa de aniversário infantil, com a mãe ajudando o filho a cortar o bolo, passa por transformação. "Troco a cor, mudo a luz e parece um filme de terror", esclarece, remetendo à obra "Sacrifício de Isaac", de Rembrandt. Para obter o efeito desejado, o autor usa, entre suas técnicas, o pastel seco e carvão. A borracha também é utilizada para apagar a luz. "É quase como o processo de revelação", compara.

Entre os recursos utilizadas nas telas da mostra, três técnicas diferentes são recorrentes. Uma delas, o artista descobriu quando participou de residência no palácio Marquês do Pombal, em Lisboa, que consiste em misturar grafite ao óleo. "É possível criar uma técnica completamente diferente", diz, aproveitando para lembrar dos anos 1990, quando era grafiteiro.

O artista visual dialoga com diferentes técnicas e linguagens artísticas, citando o cinema, a fotografia, sem perder de vista a pintura acadêmica. "Em muitas pinturas crio a cena antes como se fizesse um filme". Assim, o autor usa modelo e ambientação, mostrando a relação com o cinema das décadas de 1930, 1940 e 1950. A obra também faz referência à cultura oriental, movimento que surgiu no século XVIII, com destaque, entre outros, para o francês Eugène Delacroix.

Interstícios

No primeiro piso, acontece a exposição "Interstícios", com curadoria da jornalista e crítica de arte Ana Cecília Soares, reunindo obras de 10 artistas cearenses que discutem a questão do corpo, tema trabalhado na pesquisa de dissertação de mestrado da curadora.

A exposição reúne obras dos artistas Célio Celestino, Cris Soares, Emanuel Oliveira, Haroldo Saboia, Filipe Acácio, Jared Domicio, Marcos Martins, Herbert Rolim e Milena Travassos ocupam duas salas do museu. O traço em comum entre as obras dos criadores selecionados é a abordagem dada ao corpo, concebido em torno da ideia de algo sensível. Ou seja, "aberto à experimentação, a novas rupturas e aos abalos estruturais, desfazendo construções complexas e organizadas para a constituição de outras".

As duas mostras fazem parte do projeto "Quintas Visuais do Dragão", iniciado em maio, continuando em junho com "A palavra e o traço", enfocando a vida e a obra do arquiteto, cantor e compositor cearense, Fausto Nilo, prevista para o dia 11. Outra mostra, "Orson Welles e Manuel Jacaré - A arte de ver o mar" será inaugurada no dia 18, unindo fotografia e cinema, informa o curador do MAC Bitu Cassundé

Mais informações:

Exposições "Ela" e "Interstícios", em cartaz até agosto no Museu de Arte Contemporânea (Mac), do Centro Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema). Visitação de terça a sexta-feira, de 9h às 19h, sábado, domingo e feriados, de 14h às 21h. Contato: (85) 3488.8600

Iracema Sales
Repórter

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