Animação brasileira

Muito filme, pouca pesquisa

Animação "Vida Maria", de Márcio Ramos, produção cearense selecionada para a lista da Abraccine com os 100 melhores trabalhos no gênero
00:00 · 03.01.2018

Animação brasileira - 100 filmes essenciais" cumprirá o importante papel de suprir a escassez de obras no gênero. "Não existem muitos textos críticos sobre desenho animado brasileiro", assegura Pedro Henrique, considerando que a obra será um estímulo aos amantes da animação e estudiosos.

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Ele esclarece que o desenho animado representa um dos gêneros que detém certo grau de dificuldade para sua execução. Em outras palavras, não basta apenas criatividade ou boa ideia, sendo necessário conhecimento técnico apurado. A pouca literatura acerca do gênero no País estende-se também à história dessas obras, que foram pesquisadas pelos integrantes da Abraccine e convidados. "Tivemos dificuldade para conseguir links dos filmes", confessa Pedro Henrique, sobretudo das produções das décadas de 1930, 1940 e 1950.

No entanto, ele não hesita em afirmar que o País vive o melhor momento no que diz respeito à produção de desenho animado. A indicação de "O menino e o mundo", de Alê Abreu, para concorrer ao Oscar de melhor filme de animação, em 2016, constitui marco importante. O filme foi escolhido como a melhor animação brasileira de todos os tempos, conforme avaliação dos críticos associados da Abraccine e convidados.

A produção venceu o Festival de Annecy de 2014, sendo o única citada por todos os votantes. Conforme a lista da Abraccine, a segunda colocação ficou com "Uma história de Amor e fúria", realizado em 2013, por Luiz Bolognesi, também vencedor do festival de animação francês. O terceiro posto foi para o curta-metragem "Meow!" , de Marcos Magalhães, prêmio do júri no Festival de Cannes.

Especificidades

A retomada do audiovisual brasileiro, a partir da década de 1990, garantiu incentivos ao cinema nacional, fazendo com que o setor passe ao largo da crise político-econômica, iniciada em 2014.

A criação da Agência Nacional do Cinema (Ancine), do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e o apoio do Ministério da Cultura (MinC) contribuem para a expansão do desenho animado no País "Não havia incentivos específicos", admite Pedro Henrique, acrescentando que a animação tem suas particularidades - entre elas a exigência de grande equipe especializada, de grupo de desenhistas e cuidados especiais desde a produção à realização, seja manual ou por computação gráfica. Sem falar do tempo.

Trajetória

A história da animação no Brasil começa com humor - Pedro Henrique cita a produção comercial "Kaiser". O modelo era o norte-americano, representado pela dupla Tom & Jerry. Aos poucos o Brasil foi criando sua marca e vendo surgir polos regionais, com destaque para o diretor Chico Liberato, de "Ritos de passagem" (Bahia). Nesse cronologismo, Pedro Henrique identifica a fase dos desenhos abstratos, na década de 1970, representada por nomes como Antônio Moreno e Roberto Miller.

Embora São Paulo e Rio de Janeiro concentrem a maior parte da produção da animação brasileira, outros estados começam a despontar ao investir também na formação. Minas Gerais e Rio Grande do Sul possuem escolas de animação em universidades públicas, junto aos departamento de arte. As tecnologias digitais facilitaram bastante - antes, os desenhos eram todos feitos à mão, caso do filme "A sinfonia amazônica", de Anélio Latini Filho, que levou quatro anos para ser finalizado. "Hoje, ficou bem mais fácil", pondera Henrique.

Exemplo

Márcio Ramos, diretor do premiado "Vida Maria", comemora a presença de seu nome na lista da Abraccinediz: "É honroso", ressalta. O filme, com menos de 10 minutos de duração, foi lançado em 2006, começando a temporada de premiações no Festival do Rio de Janeiro.

Em 2007, foi considerado o filme brasileiro mais premiado, totalizando no ano seguinte mais de 50 distinções.

A obra de Márcio Ramos serviu como material didático para projetos sociais, incluindo o Alfabetização na Idade Certa, no Ceará, chegando a ser utilizado em material da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A produção tornou-se uma ferramenta de trabalho da Organização das Nações Unidas (ONU), sendo exibido no Haiti, África e Itália, conta o diretor.

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