MARGIE RIKHOF

MPB (quase) sem sotaque

03:04 · 29.12.2010
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Prova de que não há limites para a magia da música, a holandesa Margie Rikhof, de 28 anos, canta apenas canções em português e quer investir numa carreira no Brasil

Olhos e ouvidos não entram em acordo diante de uma apresentação da cantora holandesa Margie Rikhof, 28. Ela sobe ao palco. O gingado tímido, a pele rosada, os olhos verdes e o cabelo loiro deixam logo claro que brasileira ela não é. Mas aí a moça começa a cantar. No repertório, estão pérolas da Bossa Nova e da MPB.

A voz suave dá vida às canções com um sotaque quase imperceptível e uma emoção que é rara mesmo em cantoras nativas. Margie sente o que canta e isso já é bem mais do que meio caminho andado.O amor pela música existe desde a infância. O Brasil só entraria em sua vida mais tarde. Margie (que adotou este nome por ser de mais fácil pronúncia do que o seu Maartje de nascença), começou tocando flauta, aos 9 anos.

Por volta dos 15, viu uma amiga tocando piano e logo começou também. Não demorou, veio o interesse pelo canto.Com 19 anos, deixou sua Tilburg e mudou-se para Roterdã com o objetivo de estudar música no conservatório. No processo de escolha das disciplinas opcionais, uma decisão que mudaria sua vida. No Departamento de World Music, a chance de ter contato com a produção musical de diversos países, como Índia e Espanha. Mas Margie não teve dúvidas: a identificação com o jazz, que já trazia consigo, levou-a para o Departamento de Música Brasileira.

"A primeira coisa que ouvi foi João Gilberto. Me apaixonei. A forma como ele usa a voz, a suavidade. Não estava entendendo uma palavra, mas aquele som me tocou profundamente", lembrou. "Minha voz combina melhor com poucos acompanhamentos".Ouvir João Gilberto cantando foi, para, Margie, "como voltar ao lar". O primeiro grande desafio era o idioma. Mais especificamente o som nasalado de palavras como em coração.

A cantora contou com a ajuda de uma amiga portuguesa para entender o que as letras diziam e conseguir chegar a uma pronúncia o mais próxima da original possível. "Eu não abria mão de entender a letra", disse ela.Até então, Margie admite que não sabia nada sobre o Brasil e muito menos sobre a sua música. "Àquela altura eu também não tinha pensando em ser uma cantora profissional", afirmou. À medida que aumentava o repertório de músicas brasileiras, crescia também a vontade de conhecer o Brasil.

O objetivo era o Rio de Janeiro, mas o destino quis que ela viesse parar em Fortaleza, acompanhada do namorado e empresário, em 2009. Na cidade, fizeram amigos e Margie chegou a se apresentar, informalmente, no Iate Clube. Cantou cinco músicas. "Foi incrível! Enquanto cantava, eu pensava: ´Meu Deus, eles estão entendendo tudo´".Logo em seguida, ela foi convidada para gravar um especial na TV Diário. De volta a Holanda, gravou o primeiro DVD promocional, "Margie em Amsterdã".

O cenário escolhido foi o Teatro Felix Merites. O repertório conta com 18 canções, dentre as quais "Tocando em frente" (Renato Teixeira), "Lenha" (Zeca Baleiro) e "A rã" (João Donato). A plateia era composta por brasileiros residentes na Holanda. A reação não poderia ter sido melhor, já que o mais comum é ver artistas brasileiros fazendo releituras de músicas estrangeiras. O sonho de Margie é conquistar os brasileiros com música brasileira. "Estou pronta, mas não sei o que vai acontecer. Tenho que sentir...". E de sentimento ela entende.

FILIPE PALÁCIO
REDATO

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