Morre Gerardo Mello Mourão - Caderno 3 - Diário do Nordeste

CADERNO 3

Morre Gerardo Mello Mourão

10.03.2007

Os verdes mares de Alencar estão menos belos. Morreu ontem, no Rio, aos 90 anos, o poeta e escritor Mello Mourão

Nascido em Ipueiras, a 8 de janeiro de 1917, Gerardo Mello Mourão morreu vítima de falência múltipla de órgãos. Ele chegou a ser indicado ao Prêmio Nobel de Literatura em 1979. Em 1996 ganhou o Troféu Sereia de Ouro. Desde janeiro estava internado na Casa de Saúde São José, no Rio, com problemas respiratórios. Ele era safenado. O enterro será hoje, no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.

O poema épico “A Invenção do Mar” (Prêmio Jabuti de 1999) é o livro mais popular de Gerardo Mello Mourão, ao lado de “O Valete de Espadas”, considerado pela crítica o primeiro romance expressionista da literatura brasileira. Com estes e outros títulos, Gerardo foi traduzido em várias línguas. Em seu último livro, “O Bêbado de Deus”, o poeta fez uma biografia romanceada de São Gerardo de Majella. A vida do santo italiano nascido em 1726 é contada, segundo suas palavras, “com a ingênua simplicidade da linguagem infantil de todos os seus gestos”.

Sereia de Ouro

Feliz com o reconhecimento de sua terra natal, o escritor, poeta e jornalista manifestou importantes detalhes de sua vida, sua obra e de sua visão de mundo em entrevista ao Diário do Nordeste , em 1996, por ocasião de sua homenagem com o Troféu Sereia de Ouro. “Receber grandes prêmios internacionais não me importa muito. O que me enternece mesmo é receber a láurea da Sereia de Ouro no Ceará, como um aceno que me faz da eternidade o grande e saudoso Edson Queiroz. Esta sim, é a glória que fica, eleva, honra e consola, como queria Machado de Assis”.

Ao comentar sua visão sobre os rumos do País, o escritor não abria mão de demonstrar toda o esplendor de sua formação clássica. “Não sou otimista nem pessimista. Creio no Brasil. Não podemos tomar consciência da nação e de sua grandeza, enquanto não se criara aqui uma educação para o desenvolvimento do homem, sem a qual não pode haver desenvolvimento da Pólis”, considerou, lastimando também o quadro cultural brasileiro e comparando Caetano Veloso e Chico Buarque a Dercy Gonçalves, Tiririca e “outros produtos da imbecilidade generalizada”.

O escritor afirmou, na época, que ninguém o seduzia literariamente, considerando sua obra antiacadêmica, desprezando, inclusive, a Academia Brasileira de Letras, cuja cadeira só disputou, uma única vez, por insistência de amigos. Sobre sua obra, privou-se de maiores comentários. “Tenho apenas aquela certeza humilde e soberba de Keats: ‘Acho que meu nome estará entre os poetas de meu tempo, depois de minha morte’”.

HENRIQUE NUNES
Repórter

NÚMERO
1999

Mello Mourão ganhou o Prêmio Jabuti com ´A Invenção do Mar´, de poesia épica, seu livro mais popular ao lado de ´O Valete de Espadas´. O escritor nasceu em Ipueiras (CE) há 90 anos

FIQUE POR DENTRO
Queria ser santo, mas terminou escritor

Na pré-adolescência, Gerardo Mello Mourão vislumbrou a vida religiosa, ao ser levado a um seminário redentorista em Congonhas do Campo, Minas Gerais. ´Eu queria ser santo´, revelou, remetendo-se aos 17 anos, quando tomou hábito dos Padres de Santo Afonso em um convento de Juiz de Fora. ´Faltou-me o heroísmo´, admitindo dificuldades em adaptar-se à vida monástica. Já no Rio, seus familiares estimularam a trajetória militar quase tão dura como a vida de monge. ´Claro, não deu certo. Eu estava picado pela literatura, pela poesia, opção, de resto, mais exigente que qualquer outra´. Vira professor e, influenciado por Alceu de Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, torna-se integralista. ´Não tenho do que me arrepender, participei do mais fascinante grupo da inteligência do País´, afirmou, pontuando princípios defendidos pela doutrina marxista. Atuando como jornalista (inclusive em Pequim, entre 1980 e 1982, pela Folha de São Paulo), Mourão foi deputado federal por Alagoas, mas desiludiu-se da atividade.

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