dramaturgia

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Em meio à celebração de seu legado, Odair José fala sobre o Brasil da época da ditadura e de hoje

00:00 · 13.09.2018
Eu vou tirar você desse lugar
Cenas de "Eu vou tirar você desse lugar": além do repertório de Odair José, outros elementos foram adicionados à dramaturgia, entre eles as chanchadas, as fotonovelas e radionovelas ( Fotos: Sergio Martins )

Maggio dedicou-se a estudar os gêneros populares, que, no Brasil, foram condenados pelo preconceito intelectual por serem consumidos por uma audiência pouco familiarizada com a arte erudita. Partindo desse contexto e pesquisa, o diretor vasculha as desventuras de um jovem que enfrenta o patriarcalismo para realizar o sonho de ser artista.

> Uma dramaturgia popular
 
Nesse Brasil do passado, tão repleto de equivalências com o presente, tensões políticas e a rigidez de costumes conduzem a narrativa de uma comédia musical formalmente inspirada nos gêneros populares. Contribui para essa dramaturgia o processo de criação compartilhada, no qual os atores dialogaram diretamente sobre a criação das cenas. As canções de Odair José são interpretadas com uma pegada rocker, tão influente nas criações do compositor nos anos 1970.

"Estudei o repertório dele, são crônicas, praticamente, conta histórias. De lá tirei arquétipos que visitavam esse repertório: a prostituta, a empregada, o jovem sonhador, o maluco beleza. Tirei tudo isso e me inspirei no teatro de revista brasileiro, pois fazemos musical brasileiro. Está na nossa história, atravessou o século XX e foi uma manifestação interrompida pela Ditadura e por uma elite intelectual", aponta o diretor.

"É um diálogo estético bom, tem a alegria do teatro de revista que envolve todo o espetáculo. Desloquei a presença da dor nas canções para o ambiente da comédia musical, era o mote", completa.

Outros elementos inspiradores adicionados à dramaturgia foram as chanchadas, aspectos da novelas de Janete Clair (1925-1983), as comédias ligeiras das companhias Eva Todor e Dulcina-Odilon, o escracho de Dercy Gonçalves (1907-2008), as fotonovelas e radionovelas. Produtos culturais que, assim como as canções de Odair, foram considerados "menores", mas que com os olhos da contemporaneidade passaram por uma revisão crítica.

Mudanças

Uma reflexão sobre os últimos acontecimentos no País também está contida na fala de Odair José. Para o músico, o momento chega a ser mais perigoso do que na época em que suas canções foram atacadas pelos censores. "Vivemos um momento difícil. Tem duas coisas que me assustam, o avanço da tecnologia, não da forma tão rápida que eu pudesse alcançar, onde vemos a piora dos seres humanos e percebo que somos um projeto fracassado. Outra dá conta de que é uma época mais assustadora do que a que eu vivi no final dos anos 1970", defende.

Odair aponta que essa realidade está presente nos últimos lançamentos "Dia 16" (2015) e "Gatos e Ratos" (2016). O cantor adverte que existe uma disputa insana por espaço, pelo poder e para ter razão. Coisas mais nobres precisam ser atentadas. "Remetem muito àquele instante (Ditadura Militar) por conta da mudança política radical que aconteceu. Eu era estudante e tinha facilidade de dizer as coisas. Hoje, de outra maneira, estou espantado. Nos últimos discos tenho retomado esse meu olhar sobre o que acontece no Brasil. Vem acontecendo coisas gravas de maneira corriqueira", critica.

Após a sessão das 14h30 do dia 14 (sexta), artistas promovem o painel "Yes, nós temos musical brasileiro!", além da oficina "Dramaturgia para Musical", ministrada pelo autor e diretor Sérgio Maggio, gratuitamente, no dia 15 de setembro (das 9h às 12h e das 13h às 16h). "Chegar em Fortaleza, onde as canções de Odair José têm uma força natural é um sonho para toda a equipe", comemora o diretor-dramaturgo Sérgio Maggio.

Trajetória

Surgido em 2007, o coletivo Criaturas Alaranjadas Núcleo de Criação Continuada representa o encontro entre o ator e artista plástico Jones Abreu Schneider e o dramaturgo e diretor teatral Sérgio Maggio. A partir de vetores como memória, brasilidade, urgência social e arte-ética, o grupo construiu projetos capazes de promover diálogos sobre múltiplas linguagens, como teatro, música, literatura, artes visuais e cinema.

Entre os trabalhos de destaque, estão "Eros Impuro", que circulou por 17 capitais e somou 15 mil espectadores; "Cabaré das Donzelas Inocentes" (peça inspirada no livro "Conversas de Cafetinas", que rendeu prêmio Jabuti a Sérgio Maggio); e "Duas Gotas de Lágrimas no Frasco de Perfume", destaque da cena teatral brasiliense em 2016 e da Mostra Fringe do Festival Curitiba, em 2017); além de "Mitos do Teatro Brasileiro" (biografias cênicas em homenagens a artífices do palco nacional, realizadas no CCBB DF).

Itinerância

"Eu vou tirar você desse lugar" estreou em maio de 2014 no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil (DF) e fez itinerância pelos CCBBs de São Paulo (novembro de 2014 a janeiro de 2015) e Rio de Janeiro (fevereiro e março de 2015). Fez ainda apresentações no Sesc Paladium de Belo Horizonte (julho de 2014). Seguiu itinerância para as cidades de Taguatinga, Gama e Ceilândia em março de 2017. Em 2018, percorre as capitais de Salvador, Fortaleza e Manaus pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura 2018/2019. Ao todo, fez 100 sessões e teve mais de 26 mil espectadores. (AL)

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