Ensaio

Mitos, símbolos e jogos sociais

00:50 · 04.05.2013
A Esfinge, mulher da mitologia com cauda de serpente que expunha enigmas de forma cantada, havia sido enviada por Hera para a cidade de Tebas com o intuito de punir os crimes de Laio. Ela sempre propunha um enigma que nunca havia sido decifrado pelos visitantes até a chegada de Édipo. Como foi vencida, restava-lhe a morte, que ocorre após saltar do alto de uma rocha. (Texto III)

Processos simbólicos

A ideia de uma cruel cantora que propõe enigmas também pode ser observada no momento do reencontro de Eugênia com Emílio - que foi convidado pelo marido da protagonista para visitar sua casa. Antes da apresentação formal de ambos, os amigos riem e se divertem ao som da cantora Amélia Azevedo. A cantoria foi interrompida apenas com o anúncio do convidado. Após o reconhecimento do admirador do Teatro, Eugênia passa os dias a tentar desvendar o próprio enigma interno: seria ele ou não aquele que mandara uma carta apaixonada após encontrá-la no Teatro?

Outro momento em que a família Azevedo aparece no conto, no segundo capítulo, é na cena do Teatro Lírico, onde a volta para casa é interrompida com o reencontro das senhoras Azevedo. O momento antecede a chegada do misterioso admirador na porta de entrada, incomodando Eugênia com um olhar "fulminante". Podemos inferir, assim, que as mulheres da família Azevedo, cujo significado do nome remete a espinhos em latim, antecipam os sofrimentos a serem enfrentados pela protagonista. Desse modo, a nomeação no texto passa a ser fundamental, já que nem o próprio marido tem o nome apresentado.

O patriarcalismo

Voltando para as comparações com o mito, podemos refletir sobre as relações patriarcais expostas durante todo o conto, onde o homem deve sair vencedor - como nos referenciou Brandão (1987). Eugênia mantém um ponto de contato com a Esfinge ao revelar o próprio enigma com o intuito, porém, de evitar que outras mulheres venham a cometer o mesmo crime contra os seus maridos. Desse modo, podemos entender como a vitória do patriarcado citado. Ainda com relação à Esfinge, temos o seguinte: (Texto IV). Nessa análise, também há uma forte semelhança com o próprio curso da história proposta por Machado. A ideia de que a dominação dos fantasmas que desviam da religião poderia trazer o perdão divino e a abertura das "portas" do paraíso passam a ser a busca constante de Eugênia, que vive aterrada pela culpa e lembrança do marido morto.

Mais alegoria

A segunda referência mitológica se dá na comparação com a história bíblica de Eva, que deixa enganar-se pela cobra e perde o direito ao paraíso. Na situação, mais uma vez ainda o dilema citado é representado pelas duas abordagens. (Texto V)

Novamente, há a referência ao abismo, proposto com a própria situação de Esfinge. Contudo, a relação mais marcante está na Hidra de Lerna, criatura mitológica com várias cabeças de serpente - cujo significado do nome remete a animal aquático e víbora. Criada para destruir Herácles, a Hidra tinha duas cabeças renascidas a cada cortada. Por isso, ele precisou da ajuda de Iolau para conseguir, enfim, destroná-la. (Texto VI)

Portanto, Eugênia se acha envolta em vícios e vaidades por ter o próprio ego inflado pelo sedutor. A busca constante é de se livrar dos próprios vícios e venenos e não de um amor. Apesar de, no mito, a Hidra ter sido destruída, para a personagem o fato parece algo mais distante e mais difícil que a própria provação de Eva no jardim do Éden, já que a vaidade e o orgulho são características que fazem parte da sua personalidade. Mesmo consciente do pecado, este se torna mais visível diante da recusa do sedutor. (Texto VII)

Considerações finais

A tábua da salvação, referência bíblica que remete a Moisés e à salvação de um povo pecador por meio dos Dez Mandamentos, era cumprir o que estava destinado pela sociedade e pela religião, atitude que a narradora julgava correta. Apesar do dilema sofrido, tomando com base as "leis divinas", é possível perceber que o amor pelo sedutor desponta não de um sentimento puro, mas pelo envolvimento com o mistério e pela própria vaidade - evidenciada com os mitos citados. Apesar de, no decorrer do conto haver uma primeira recusa, esta se dá mais por uma questão de orgulho próprio e consciência de certa superioridade do que propriamente por temor a Deus. As marcas da forte personalidade de Eugênia estão diluídas durante toda a narrativa. Mais do que uma forma de remissão dos pecados, as cartas revelam um arrependimento em ter se deixado ameaçar a própria salvação. (G. R.)

SAIBA MAIS

ASSIS, Machado de. Obra completa - vol. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Petrópolis: Vozes, vol. I. 1986

GOTLIB, Nádia. Teoria do conto. São Paulo: Ática, 2011

MESQUITA, Samira. O enredo. São Paulo: Ática, 2006

MOISÉS, Massaud. A criação literária (prosa). São Paulo: Cultrix, 1984

Trechos

TEXTO III

Claude Lévi-Strauss enfocou o mito de Édipo e obviamente tentou dar, senão uma interpretação, ao menos uma definição da "cruel cantora" de Tebas. Reunindo as frases e conceitos do excepcional estudioso francês, talvez se possa chegar antropologicamente a uma definição de Esfinge: "Monstro-fêmea ctônio, com sinal invertido, símbolo da autoctonia do homem, monstro que violava os jovens, caso não lhe decifrassem o enigma, mas que, uma vez vencido e destruído, mostra que o ser humano não nasceu apenas da fêmea, mas do concurso desta com o macho". Donde, a decifração do enigma, representaria a vitória do patriarcado sobre o matriarcado. Na realidade, tanto o dragão quanto a Esfinge simbolizam a autoctonia do homem. Vencidos pelo homem, atestam a negação dessa autoctonia. (Brandão, 1987, p. 245-246)

TEXTO IV

Para MARIE Delcourt, o ser mítico, que os Gregos denominaram Esfinge, foi por eles criado com base em duas determinações superpostas: a realidade fisiológica, isto é, o pesadelo opressor e o espírito religioso, quer dizer, a crença nas almas dos mortos representadas com asas. Estas duas concepções acabaram por fundir-se, uma vez que possuíam e ainda possuem certos aspectos comuns, principalmente o caráter erótico e a idéia de que, quando se dominam os pesadelos e os fantasmas, o vencedor recebe, como dávida dos mesmos, tesouros, talismãs e reinos. A Esfinge é, pois, a junção de dois aspectos: pesadelo opressor e o terror infundido pelas almas dos mortos. (Brandão, 1987, p. 246)

TEXTO V

Se Eva tivesse feito outro tanto à cabeça da serpente que a tentava não houvera pecado. Eu não podia estar certa do mesmo resultado, porque esta que me aparecia ali e cuja cabeça eu esmagava, podia, como a hidra de Lerna, brotar muitas outras cabeças.

Não cuides que eu fazia então esta dupla evocação bíblica e pagã. Naquele momento, não refletia, desvairava; só muito tempo depois pude ligar duas ideias.

Dois sentimentos atuavam em mim: primeiramente, uma espécie de terror que infundia o abismo, abismo profundo que eu pressentia atrás daquela carta;depois uma vergonha amarga de ver que eu não estava tão alta na consideração daquele desconhecido, que pudesse demovê-lo do meio que empregou. (Assis, p. 285)

TEXTO VI

Consoante Paul Diel, a Hidra simboliza os vícios múltiplos, "tanto sob forma de aspiração imaginativamente exaltada, como de ambição banalmente ativa. Vivendo no pântano, a Hidra é mais especificamente caracterizada como símbolo dos vícios banais. Enquanto o monstro vive, enquanto a vaidade não é dominada, as cabeças, configuração dos vícios, renascem, mesmo que, por uma vitória passageira, se consiga cortar uma ou outra". O sangue da Hidra é um veneno e nele o herói mergulhou suas flechas. Quando a peçonha se mistura às águas dos rios, os peixes não podem ser consumidos, o que confirma a interpretação simbólica: tudo quanto tem contato com os vícios, ou deles procede, se corrompe e corrompe. (Brandão, 1987, p.244)

TEXTO VII

O dever! esta era a minha tábua de salvação. Eu sabia que as paixões não eram soberanas e que a nossa vontade pode triunfar delas. A este respeito eu tinha em mim forças bastantes para repelir idéias más. Mas não era o presente que me abafava e atemorizava; era o futuro. Até então aquele romance influía no meu espírito pela circunstância do mistério em que vinha envolto; a realidade havia de abrir-me os olhos; consolava-me a esperança de que eu triunfaria de um amo r culpado. Mas, poderia nesse futuro, cuja proximidade eu não calculava, resistir convenientemente à paixão e salvar intactas a minha consideração e a minha consciência? Esta era a questão. (Assis, p.288)

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