Ensaio

Miguel Torga: a íntima relação com a natureza

02:54 · 28.09.2013
A leitura de alguns poemas de Miguel Torga nos leva a refletir acerca do poder da natureza sobre o discurso lírico

A escritura de Miguel Torga coloca o leitor em íntimo contato com o estado poético. A maneira como, em versos livres, ele deixa transbordar o sentimento de fidelidade entre poeta e a natureza leva o leitor a entender que existe uma cumplicidade e uma cumplicidade entre ambos, como em"Regresso" ( Texto I )

Reproduzem-se, nessa composição de colagem, elementos recorrentes da flora e da cultura agrícola da terra natal do escritor Miguel Torga, que, com a mesma habilidade e gênio, cultivou a prosa de ficção, a poesia e o ensaio

Leitura do poema:

O Eu lírico fica bem caracterizado na segunda estrofe pela personificação de "cada fonte", que canta "o poeta voltou!" ( v.5-6 ). Depois, na mesma estrofe, quando faz menção aos "versos" que ficaram esfarelados sobre "a terra morta", o que nos dá a entender que aquela não era a terra natal, já que era o "desterro"( v.7-8 ); e por fim, na terceira e última estrofes, quando o Eu regressa ao seu "paraíso" e, deitado "no colo dos penedos", conta aos "deuses" suas "aventuras e segredos"( v.10,11,12 ) sendo essa comunicação verbal que reforça a imagem de que a serra o reconhece como poeta.

A"minha dura infância!" ( v. 2 ) remete para um aspecto não muito agradável das lembranças do poeta. Já na última estrofe, em "o céu abriu-se num sorriso" e "colo dos penedos"( v.9-10 ), há uma metonímia e uma metáfora, que, respectivamente, dão a dimensão maternal da terra, harmonizando-se com a temática da infância.

A ideia de austeridade da vida é reforçada pela adjetivação usada ( rijos, cansado, velho ). Já as exclamações nos versos 2 e 6 nos remetem ao prazer do poeta ao regressar à sua terra. O emprego da assonância nos cinco primeiros versos condiz com uma parte do poema que nos dá uma impressão de cansaço, enquanto que a aliteração do / t / nos verso 5, 6, 7 e 8 nos remete à satisfação e ao entusiasmo que o reencontro com a terra lhe proporciona.

A expressão "rijos carvalhos" presente no terceiro verso nos remete a uma ligação entre a terra e o céu que faz a intermediação entre o ser humano e Deus, enquanto que a palavra fonte, no quinto verso, nos leva a pensar no lugar de origem da vida o que nos permite imaginar que retornar a terra-mãe para o autor equivale, evidentemente, à recuperação de suas forças.

FIQUE POR DENTRO

Aspectos da vida e da obra do autor

Miguel Torga Nasceu no dia 12 de agosto de 1907, em São Martinho de Anta - Vila Real. Aos onze anos foi para o seminário de Lamego, onde ficou por um ano. Com doze anos veio para o Brasil, trabalhar na fazenda do tio cultivando café. O tio patrocinou seus estudos, em Leopoldina, onde se destacou como sendo um aluno dotado. Em 1925, na convicção de que ele seria doutor em Coimbra, o tio propôs-se a pagar os estudos como recompensa dos anos de serviço, o que levou a regressar a Portugal. Sua obra tem um caráter humanista: no seu convívio com os trabalhadores rurais, aprendeu valorizar cada homem, como o ser que cria e sem ele não haveria searas, nem vinhas, pois tudo isso era custo de séculos de trabalho humano. Sua obra é, antes de tudo, um compromisso com o homem e o espaço que o abrigo; desse modo, em seu discurso, o ser e a terra falam mais alto, uma vez que se encontram, assim, entrelaçados. Faleceu em Coimbra, em 17 de Janeiro de 1995.

Trechos

TEXTO I


Regresso às fragas de onde me roubaram. / Ah! minha serra, minha dura infância! / Como os rijos carvalhos me acenaram, / Mal eu surgi, cansado, na distância! /// Cantava cada fonte à sua porta: / O poeta voltou! / Atrás ia ficando a terra morta / Dos versos que o desterro esfarelou. /// Depois o céu abriu-se num sorriso, /E eu deitei-me no colo dos penedos / A contar aventuras e segredos / Aos deuses do meu velho paraíso.( p. 129 )

MARCOS ANTONIO CRUZ
COLABORADOR*

*Do Curso de Letras da Uece

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