Ensaio

Miguel Torga:a íntima relação com a natureza

00:35 · 07.09.2013
A leitura de alguns poemas deste modernista português nos leva a refletir sobre o poder da natureza

A escritura de Miguel Torga coloca o leitor em íntimo contato com o estado poético. A maneira como, em versos livres, deixa transbordar o sentimento de fidelidade entre poeta e natureza e vice-versa, leva o leitor a entender que existe uma cumplicidade e uma afetividade entre ambos, como no poema "Regresso" ( texto I )

Leitura do poema:

O Eu como poeta fica bem caracterizado na segunda estrofe pela personificação de "cada fonte", que canta "o poeta voltou!" ( v.5-6 ). Depois na mesma estrofe, quando faz menção aos "versos" que ficaram esfarelados sobre "a terra morta", o que nos dá a entender que aquela não era a terra natal, já que era o "desterro"( v.7-8 ). e por fim, na terceira e última estrofe, quando o Eu regressa ao seu "paraíso" e deitado "no colo dos penedos" conta aos "deuses" suas "aventuras e segredos"( v.10,11,12 ) sendo essa comunicação verbal que reforça a imagem de que a serra o reconhece como poeta.

A"minha dura infância!" ( v. 2 ), remete para um aspecto não muito agradável das lembranças do poeta. Já na última estrofe, em "o céu abriu-se num sorriso" e "colo dos penedos"( v.9-10 ), há uma metonímia e uma metáfora, que respectivamente dão a dimensão maternal da terra, harmonizando-se com a temática da infância. A ideia de austeridade da vida é reforçada pela adjetivação usada ( rijos, cansado, velho ). Já as exclamações nos versos 2 e 6 nos remete ao prazer do poeta ao regressar à sua terra. Fonicamente falando, a assonância do som nasal nos cinco primeiros versos condizem com uma parte do poema que nos dá uma impressão de cansaço, enquanto que a aliteração do / t / nos verso 5, 6, 7 e 8 nos remete à satisfação e também ao entusiasmo que o reencontro com a terra proporciona.

A expressão "rijos carvalhos" presente no terceiro verso nos remete a uma ligação entre a terra e o céu que faz a intermediação entre o ser humano e Deus, enquanto que a palavra fonte, no quinto verso, nos leva a pensar no lugar de origem da vida o que nos permite imaginar que retornar a terra-mãe para o autor equivale à recuperação de suas próprias forças.

Quanto à forma o poema é composto de três estrofes de quatro versos, sendo as duas primeiras com rimas alternadas em AB AB e CD CD) respectivamente e a última estrofe com rimas interpoladas( EFFE }. Seus versos não seguem um rigor métrico. A primeira e a terceira estrofes apresentam seus versos em rimas consoantes, já na segunda estrofe ocorre uma quebra, pois o segundo verso dessa estrofe rima toante com o quarto.

Em tom de contenda

O sujeito lírico trava uma verdadeira batalha com o "tu"( Deus ), sem negar-lhe a existência de fato como fazem os Ateus, mas lhe nega a condição de ser supremo que a bíblia o coloca. Trazendo-o para um patamar de igualdade aos seres terrenos, onde Deus funciona apenas como uma presente ameaça. O que podemos conferir, nitidamente, no poema "Desfecho" ( texto II )

O poema se constrói em cima de quatro quintilhas, onde as duas primeiras possuem métrica muito irregular. Já nas outras duas predominam as decassilábicas, com exceção do penúltimo verso que é um hexassílabo. Em todas as estrofes, há um primeiro verso solto e, com exceção da segunda estrofe, que apresenta versos com rimas interpoladas, as demais são emparelhadas. Como no esquema a seguir: ABCCB / DEFEF / GHIIH / JKLLK.

O poema apresenta nas estrofes I e II, uma situação de luta em que se define uma temática religiosa, onde podemos identificar o Eu sempre a se opor ao Tu. Luta em que o Eu passou a vida a negar Deus e que já inicia o poema com antecipação do resultado( "Desfecho") "não tenho mais palavras"( V. 01 ).

Na estrofe III, é apresentada a maneira como se deu a luta, as armas usadas pelo Eu contra a incômoda, agressiva e sempre silenciosa presença de Deus ( "soltei a voz, arma que tu não usas," ) ( V. 14 )

A quarta estrofe traz a conclusão, o resultado do combate: o tempo passou e os gritos do Eu acabou por se reduzir ao silêncio, tornando-se mudo como o seu opositor. Sendo agora dois teimosos frustrados, pois nenhum convenceu ao outro. As adjetivações presente nos versos (8, 9 e 10 ): "A divina presença impertinente do teu vulto calado e paciente..." consolida a subjetividade da problemática religiosa no poema.

O telurismo

Para o crítico e ensaísta Massaud Moisés, toda a extensa e tão variada produção literária de Miguel Torga gira em torno um elemento-chave, isto, é de uma ideia motivadora; por conta disse, ele é sempre o mesmo homem, estando para sempre os seus pés fincados na terra transmontana: (Texto III): Por conta disso, tudo se converte numa sanha titânica contras os Elementos ou Deus, uma que que o sujeito da escrita não consegue compreender os poderes de Deus, nem aceita-los e tampouco combate-los. Tudo isso desemboca num dualismo: da blasfêmia herética e pagã a uma entrega, assim, às forças sobrenaturais.

Ainda girando em torno dessa atmosfera, Maussaud Moisés entende que, na essência, Miguel Torga é, em verdade, um poeta de largas e humanísticas medidas interiores, numa busca impaciente e inócua de "converter em realidade concreta um sentimento de solidariedade que não encontra eco na terra, no mar, ou no Alto". É como se a vida implicasse um indelével impasse.

FIQUE POR DENTRO

Breves singularidades sobre o autor

Miguel Torga Nasceu no dia 12 de agosto de 1907, em São Martinho de Anta - Vila Real. Aos onze anos foi para o seminário de Lamego, onde ficou por um ano, um dos cruciais de sua vida, pois melhorou seus conhecimentos de português, da geografia, da história, aprendeu o latim e se familiarizou com os textos sagrados. Com doze anos veio para o Brasil, trabalhar na fazenda do tio cultivando café. O tio patrocinou seus estudos, em Leopoldina, onde se destacou como sendo um aluno dotado. Em 1925, na convicção de que ele seria doutor em Coimbra, o tio propôs-se a pagar os estudos como recompensa dos anos de serviço, o que levou a regressar a Portugal. Sua obra tem um caráter humanista: No seu convívio com os trabalhadores rurais, assistindo aos ciclos de perpetuação da Natureza, Torga aprendeu valorizar cada homem, como o ser que cria e sem ele não haveria searas, nem vinhas, pois tudo isso era custo de séculos de trabalho humano. O que o levou a revoltar-se contra a Divindade Transcendente. Para ele o homem é o único ser digno de adoração já que é ele, o homem, um ser capaz de moldar o meio ambiente de maneira tal que modifica a natureza de acordo com o seu interesse. Faleceu em Coimbra, em 17 de Janeiro de 1995 e foi um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, principalmente por escrever aquilo que tinha como verdade. Possui uma obra muito volumosa que passeia pela poesia, o teatro, a ficção narrativa em prosa, além do pessoalíssimo Diário em prosa e verso que conta com dezesseis volumes, os quais foram publicados de 1941 a 1993.

Trechos

TEXTO I

Regresso às fragas de onde me roubaram. / Ah! minha serra, minha dura infância! / Como os rijos carvalhos me acenaram, / Mal eu surgi, cansado, na distância! /// Cantava cada fonte à sua porta: / O poeta voltou! / Atrás ia ficando a terra morta / Dos versos que o desterro esfarelou. /// Depois o céu abriu-se num sorriso, /E eu deitei-me no colo dos penedos / A contar aventuras e segredos / Aos deuses do meu velho paraíso.( p 129 )

Texto II

Não tenho mais palavras./ Gastei-as a negar-te.../ ( Só a negar-te eu pude combater / O terror de te ver / Em toda a parte. ) /// Fosse qual fosse o chão da caminhada. / Era certa a meu lado / A divina presença impertinente / Do teu vulto calado/ E paciente... /// E lutei, como luta um solitário/ Quando alguém lhe perturba a solidão. / Fechado num ouriço de recusas, / Soltei a voz, arma que tu não usas, / Sempre silencioso na agressão. /// Mas o tempo moeu na sua mó / O joio amargo do que te dizia... / Agora somos dois obstinados, / Mudos e malogrados, / Que apenas vão a par na teimosia.

TEXTO III

porque nele espera encontrar a explicação para a condição humana, imediatamente transformada em sua mente num problema teológico-existencial, armado ao redor de indagações-chave, do gênero - quem somos? Do jogo paradoxal em que se envolvem as perguntas, nasce-lhe a revolta, indignada e violenta algumas vezes, serena e branca outras, mas orientada contra tudo quanto constitui a circunstância na qual está mergulhado.

MARCOS ANTONIO PAULINO DA SILVA CRUZ*
COLABORADOR

*Curso de letras - UECE

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