Artes plásticas

Metades de um todo

02:55 · 08.02.2012
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Série de fotografias para a exposição montagem de situação sugere reflexões sobre desejos, liberdade, cotidiano e outros temas
Série de fotografias para a exposição montagem de situação sugere reflexões sobre desejos, liberdade, cotidiano e outros temas ( )
Entre a segurança e perigo...
Entre a segurança e perigo... ( )
... desenhos do artista Diego de Santos intrigam o espectador à primeira vista
... desenhos do artista Diego de Santos intrigam o espectador à primeira vista ( )

Em nova edição, a exposição "Graças ao Perigo", de Diego de Santos, traz reflexões sobre medo e desejo

Um personagem errante, cujo corpo funde-se ao ambiente, à ação que desempenha, a objetos diversos. Sempre posto no limiar entre a segurança e o risco. É essa figura peculiar o mote da exposição "Graças ao Perigo", do artista Diego de Santos, que estreia nesta sexta-feira em nova edição, no Cuca Che Guevara. A mostra reúne séries de desenhos, de fotografias e uma instalação.

Por meio desse ser "metade humano", Santos encontrou uma maneira de explorar a temática do medo e do desejo, sentimentos por vezes atrelados. A partir da própria composição "física" do personagem e das situações nas quais é inserido, o artista sugere uma reflexão sobre a relação entre esses dois universos.

"A outra parte do corpo pode ser um habitáculo ou o próprio branco do papel, por exemplo. Assim como as sensações, que também são divididas: o mesmo medo que nos faz evitar determinadas experiências traz desejo de encará-las. Assim, a figura caminha sobre pontes aéreas, redemoinhos. A imagem nunca deixa de ser poética", avalia Santos.

Nas palavras da curadora Nathália C. Forte, em texto de apresentação da exposição, "Diego de Santos nos leva a explorar esse momento de possibilidades. Em seus desenhos e fotografias, dialoga sobre esse instante entre o equilíbrio e a queda, o seguro e o desconhecido. Quando nos permitimos estar nesse limiar, que viagens podemos chegar? Que descobertas podemos fazer?"

Como suporte principal para representar essa dualidade, Santos escolheu o desenho, feito com caneta esferográfica em papel sulfite. A técnica permitiu criar imagens de traços contínuos, com aspecto artesanal e sofisticado ao mesmo tempo, em um processo manual.

"O atrito da caneta desgasta a superfície do papel e resulta em rasgões, rasuras, que por sua vez criam uma espécie de textura. Como desenho dos dois lados, no lado exposto vê-se um enrugado", explica Santos.

O artista detalha ainda sobre as autorreferências presentes em "Graças ao Perigo". "O personagem é como se fosse um autorretrato, porque, antes de desenhar, fotografo partes do meu corpo e, a partir daí, faço esboços de observação", revela.

Para além da reflexão sobre medo e desejo, Santos ressalta que o limiar entre as situações opostas vividas pelo personagem relacionam-se à sua experiência de vida. "Tem a ver com a vontade e até a necessidade de deslocamentos imposta pela profissão. Além disso, por ter nascido em Caucaia mas ter estudado e trabalhado a vida toda em Fortaleza, vivi entre dois lugares, sem me sentir realmente em nenhum deles, em um movimento meio de pêndulo", analisa o artista.

Desenvolvimento

A série de fotografias também gira em torno do mesmo personagem, dessa vez materializado em três dimensões, com o uso de diferentes materiais. "As imagens mostram o percurso de uma figura que é metade pernas, metade rolha de cortiça. Ele avista uma garrafa com caramelo dentro e tenta chegar ao conteúdo, passando pela abertura, mas fica preso. A partir daí, passa a fazer parte da estrutura da garrafa. Nem pega o doce, nem fica livre", descreve Santos.

A composição dá margem para diversas reflexões, desde desejos até ideias relacionadas à liberdade, cotidiano, trabalho, sociedade. "Montei os objetos e o cenário, fiz uma luz e fotografei a ´ação´", complementa o artista sobre o processo de elaboração. "Graças ao Perigo" inclui ainda uma instalação, cujos elementos também abordam uma dualidade de sentimentos e sensações - nesse caso, a força e a fragilidade. "Pintei um ovo de maneira a conferir a ele um aspecto metálico, quase de escultura. Assim, a casca aparenta ser muito mais resistente do que realmente é", conta.

"O ovo descansa sobre uma colher fixada à parede, em situação constante de tensão, ao ser criada a expectativa da queda. Nesse momento, o espectador se dá conta da fragilidade do objeto, que não é de metal, apenas aparenta ser", complementa Santos.

O artista revela sua predileção por materiais simples, que possam ser trabalhados facilmente.

"No processo, vou pensando em outros acabamentos, que permitem um resultado sofisticado", ressalta o artista.

O tema, assim como o personagem da exposição, começou a ser explorado por Diego de Santos em 2007. Desde então, ele desenvolve novas imagens e séries de desenhos. Tanto que "Graças ao perigo" estreou primeiro no espaço Dança no Andar de cima, em novembro de 2011. Para a nova edição no Cuca Che Guevara, o jovem criou novos desenhos, além da instalação.

Mais informações

Exposição "Graças ao Perigo"

Abertura sexta-feira (10), às 18h30, no Cuca Che Guevara (Av. Presidente Castelo Branco, 6417, Barra do Ceará). Em exibição até 31 de março. Gratuito. Contato: (85) 3237.4688


ADRIANA MARTINS
REPÓRTER

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