Concerto

Mestres e aprendizes juntos

Trio São Paulo Ensemble encerra mais uma edição de projeto de formação na Tapera das Artes, em Aquiraz

O Trio São Paulo Ensemble, convidado deste mês do "Encontro Mestre & Aprendiz"; abaixo, registro da última edição do projeto, com a pesquisadora Marlui Miranda, que estuda tradições musicais dos povos indígenas
00:00 · 26.05.2018

É no litoral cearense, a 32 quilômetros de Fortaleza, que os filhos de comerciantes, rendeiros e pescadores de Aquiraz vivenciam a música em suas várias vertentes. Mais especificamente, na sede da Tapera das Artes, ONG responsável pelo projeto "Encontro Mestre & Aprendiz", voltado à educação por meio da música.

Os adolescentes da Tapera vivem um momento ímpar. Desde a criação do "Encontro", agora em seu terceiro ano, eles têm oportunidade de vivenciar intercâmbios culturais com artistas convidados de lugares diferentes do País.

Neste mês, o grupo chamado foi o Trio São Paulo Ensemble, representantes da música de câmara - do tipo de concerto, mas composta para um pequeno grupo de instrumentos. A agenda sempre tem duração de uma semana, e culmina com a realização de uma apresentação ao vivo, no Teatro da Tapera. O show desta edição acontece hoje (26), às 17h.

O evento é sujeito à lotação (a capacidade do teatro é de 350 pessoas), com entrada gratuita. Os ingressos são distribuídos uma hora antes do início da apresentação, na bilheteria do local.

O trio formado pelo oboísta Rodrigo Nagamori, o clarinetista Domingos Elias e o fagotista Marcos Fokin está em Aquiraz desde segunda-feira promovendo oficinas na área musical. Marcos, amigo do maestro Antunes, relatou que já conhecia o projeto, mas não imaginava que a inclusão fossem tão imensa.

"Cheguei aqui e o negócio é muito maior. Os talentos que esse projeto enchem os olhos. A gente torce para que a iniciativa siga assim, pois a inclusão por meio da música é uma das mais eficientes. 'Quem faz música aprende a conviver com as pessoas', já dizia Vila Lobos".

Formação

As oficinas são realizadas a partir de uma residência artística. Além dos alunos da Tapera das Artes, em parceria com a Plataforma Sinfonia do Amanhã, são recebidos estudantes de outros locais. Marcos Fokin deu aula de didática e interpretação de música no programa.

"A música é uma ótima forma de ensinar cidadania. As crianças do projeto cativaram muito a gente, não consigo nem mensurar a alegria que senti com palavras, para mim talvez seja mais fácil mensurar esse momento tocando", revela Fokin.

"O trio vem trazendo uma sonoridade que é do nosso momento de escuta, mas aqui não existe essa prática de tocar fagote ou oboé e nas formações eles desenvolveram um trabalho com instrumentos de sopros de madeira", afirma o maestro Ênio Antunes, diretor artístico e idealizador do "Encontro Mestre & Aprendiz".

Concerto

A vivência aconteceu no Centro de Pesquisa, Formação e Difusão em Música do Ceará. As formações se estendem até a véspera do concerto do trio, que contará com a participação da Orquestra Bachiana Jovem Tapera das Artes.

"Vamos tocar desde a música erudita de Mozart ao chorinho, ritmo característico do Rio de Janeiro. E também estamos preparando um número com os alunos para apresentarmos juntos", revela Marcos.

Baseado em um projeto metodológico escrito pelo maestro Ênio Antunes, o encontro visa "criar um diálogo durante uma semana e dar a possibilidade de conversar com essas figuras importantes da música. Já ouvimos muitos depoimentos de alunos na questão sobre uma mudança de vida", enfatiza Magno Miranda, presidente da Tapera das Artes.

Repertório

O projeto nasceu para ser um grande programa. Segundo Ênio Antunes, a ideia é que ele dure 12 anos, divididos em uma tríade de 4 anos cada.

Neste primeiro momento o "Encontro Mestre & Aprendiz" já apresentou o lema: "temperando cravos", baseado na obra "O Cravo Bem Temperado", de Johann Sebastian Bach. A família foi usada como referência nessa edição e as canções infantis são um cerne que acompanha toda essa primeira parte da tríade.

No segundo ano buscou-se alcançar a parte subliminar da música. Esse segundo momento do projeto foi batizado "Tocando Atitudes".

Em 2018, o "Encontro" usou o complemento "Contraponto Harmônico", em que organiza uma simbiose do ritmo, como por exemplo a relação da poesia com a melodia.

Diversidade

Em abril houve um encontro com Marlui Miranda, pesquisadora das tradições musicais dos povos indígenas. Em uma de suas oficinas, por exemplo, 48 crianças cantaram duas canções de ninar na língua tupi nawê.

A programação com convidados seguem até novembro. Em junho é a vez do grupo brasileiro de percussão corporal Barbatuques. Já Maite Hontelé, trompetista especializada em ritmos caribenhos, da Colômbia, faz o intercâmbio em julho.

Em agosto é a vez do violonista brasileiro Ricardo Herz participar. Em setembro, o convidado é Ji Hae Park, pesquisador de música contemporânea, e em outubro, Badi Assad, cantora violonista.

Encerrando o projeto, em novembro, o "Encontro Mestre & Aprendiz" apresenta Toquinho, cantor e compositor brasileiro.

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