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Mestres do piano cubano no Brasil

Chucho Valdés e Gonzalo Rubalcaba fazem shows juntos neste mês, em São Paulo e no Rio

00:00 · 08.08.2018
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Chucho Valdés
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Chucho Valdés junto com o amigo e parceiro artístico Gonzalo Rubalcaba: embora de diferentes gerações, músicos são referência e virtuoses ao dos ritmos afro-cubanos. Juntos, construíram o show "Trance"

Técnica erudita, sentido de improviso jazzístico, balanço caribenho - é tudo isso que costuma sair das mãos de um grande pianista afro-cubano. Quando dois deles, ambos mestres, se reúnem para tocar juntos, o resultado pode ser nitroglicerina pura, e levar a plateia ao êxtase.

É o que se espera do espetáculo batizado como "Trance", com dois monstros sagrados do piano cubano e universal - Chucho Valdés e Gonzalo Rubalcaba. Os dois músicos se apresentam no Brasil nos próximos dias 29 (na Sala São Paulo) e 31 (na Sala Cecília Meireles, no Rio).

Não será a primeira visita dos dois ao Brasil. Pelo contrário, ambos são habitués da Terra Brasilis, admiram nossa música, falam com familiaridade dos nossos compositores e já tocaram com instrumentistas patrícios. Dividiram palco com Ivan Lins. Chucho Valdés gravou um álbum com Ivan e fez dueto ao piano com João Donato.

Rubalcaba tocou um empolgante "O Ronco da Cuíca" com ninguém menos que o autor da peça, João Bosco. Mas será a primeira vez que se apresentam juntos no País.

São artistas de duas gerações diferentes. Chucho nasceu em Quivicán, há 76 anos. Rubalcaba em Havana, há 55. Ambos vêm de famílias musicais. Os dois reivindicam as mesmas influências - a força rítmica afro-cubana como centro de gravidade e a abertura para o que o mundo pode oferecer de melhor em termos de música, venha ela dos Estados Unidos, Brasil, Europa ou, como lembra Rubalcaba, da Argentina.

Infância

Essa abertura ao diálogo, em particular com o Brasil, vem de longe. No caso de Chucho, da própria infância, vivida na Cuba pré-revolucionária. "Meu pai, o pianista Bebo Valdés, tocava na famosa Tropicana. Eu era um menino e ficava impressionado com as músicas brasileiras que lá se ouviam, em especial as de Ary Barroso", contou em conversa com O Estado de S. Paulo.

"Admirávamos a sofisticação tanto rítmica como harmônica daquelas músicas que surgiam de um país que não conhecíamos", lembrou.

A relação próxima desde cedo com a música contribuiu para um despertar artístico bem precoce em Chucho. "Segundo meu pai e minha mãe, comecei a tocar o piano com 3 anos, mas em casa, não no cabaré. Fiz meu primeiro recital aos 9 anos", conta.

"Aos 10, quase me contrataram. Havia um menino prodígio americano que tocava na Tropicana e o dono da casa propôs que a gente fizesse um dueto. Mas minha mãe nem quis ouvir falar, disse que eu ia perder o sono tocando à noite e não iria à escola. Foi minha primeira proposta de trabalho", lembra ele.

Rubalcaba é outro frequentador habitual do Brasil. "Tive a sorte de vir com frequência fazer meus intercâmbios musicais no País. Vim nos anos 1980 com um conjunto e, a partir de então, quase todos os anos estive no Brasil e pude conhecer e tocar com músicos maravilhosos", disse.

Na entrevista, Chucho Valdés fala do concerto que traz ao Brasil com Rubalcaba. Para ele, trata-se da "reunião de duas gerações diferentes da música cubana, do jazz e da música em geral, incluindo todos seus caminhos possíveis dessa arte".

"Penso que é um projeto muito bonito porque Gonzalo e eu, apesar de muito diferentes, partimos das mesmas raízes, da música afro-cubana e do jazz também. Nossos pianos se completam na diferença, mas também no que nos une", completa.

Parcerias

Quanto ao repertório, ele adianta que inclui composições de ambos, mas também clássicos cubanos e temas standards de jazz. "Em termos de Cuba, há um foco sobre Ernesto Lecuona, um dos compositores mais importantes da ilha", detalha. "Também haverá temas brasileiros, dos quais eu gostaria de destacar um de Hermeto Paschoal, músico e compositor fantástico".

Entre as colaborações com instrumentistas brasileiros, dividir o palco com João Donato segue como uma das mais significativas na carreira de Chucho - pelo fato de talvez ser o pianista brasileiro que mais dialoga com a música caribenha. "Foi ótimo você ter lembrado do João Donato porque, com ele, tive uma parceria musical incrível e a turnê que fizemos juntos em 2015 foi simplesmente uma das épocas mais felizes da minha vida", recorda.

"Além de grande artista, ele é um sujeito maravilhoso, sempre de bem com a vida. Um homem feliz. Somos muito felizes porque fazemos o que gostamos", diz, sobre os colegas de profissão. "E fazemos os outros felizes porque, nos ouvindo, as pessoas se esquecem por um tempo dos problemas. Música é remédio. E sem contraindicações".

Sobre as possibilidades da fusão da música caribenha e o jazz, Chucho acredita que ainda há muito a explorar. "Creio que não aproveitamos sequer uns 20% das possibilidades da música africana. No meu disco 'Missa Negra' destaco a riqueza espantosa no toque da percussão, na rítmica do canto iorubá. Há muito que buscar. Estou trabalhando nisso agora mesmo. Meu novo disco chama-se 'Jazz Batá 2', continuação do primeiro, gravado em 1973. É um veio inesgotável", sentencia. (Agência Estado)

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