Messejana e seu filho ilustre - Caderno 3 - Diário do Nordeste

MESSEJANA

Messejana e seu filho ilustre

01.05.2009

O escritor José de Alencar nasceu no dia primeiro de maio de 1829, numa casa simples, em Messejana, aldeamento indígena chamado São Sebastião de Paupina que, com a expulsão dos jesuítas em 1759, passa a se chamar Vila Nova de Messejana. Em 1921, deixa de ser município independente para se tornar um bairro de Fortaleza. Além de ser conhecida como a terra natal de José de Alencar, Messejana se destaca por sua lagoa e por sua feira, uma das mais populares da Cidade. Funcionando aos domingos, a feira contribui para a sociabilidade da população. Além dela, outro ponto de encontro é a Igreja Matriz, no Centro do bairro que lembra uma cidade do Interior.

José de Alencar é motivo de orgulho para os moradores, assim como o desenvolvimento do bairro. “Messejana tem vida própria”, orgulha-se Francisco Etevaldo Nogueira, 57 anos, justificando que não é necessário enfrentar o trânsito no Centro de Fortaleza. “A gente resolve tudo aqui mesmo”. Outro orgulho que faz questão de deixar transparecer é com relação a José de Alencar. “Conheço demais sua história e seus livros. Ele é filho de Bárbara de Alencar”, conta misturando os parentesco, mas que na verdade é a avó do autor. Sentado em frente à Igreja matriz de Messejana, diz: “Os livros que mais gostei foram “O Guarani” e “Iracema”, diz, enfatizando que a principal qualidade de Alencar é a descrição. “Gosto do seu estilo de detalhar as paisagens e tudo o que descreve”. Não hesita em dizer que Iracema foi o livro de Alencar que mais gostou de ler. “É uma poesia a história de amor entre a índia e o guerreiro branco”.

Francisco Etevaldo Nogueira conta que chegou ainda criança na então aldeia que se transformou em vila, depois município e, hoje, é um bairro. No entanto, nem todos que moram em Messejana conhecem um dos seus filhos mais ilustres. É o caso de Jean Rodrigues, 33 anos, mora há oito no bairro. “Nunca li um livro dele e não sabia que ele tinha nascido aqui”. O estudante Marcos Paulo Souza Lima, 21 anos, conhece bem a história de Alencar. Sabe que ele é natural de Messejana e disse também conhecer alguns dos seus livros. Arrisca até criticar o estilo: “Não gosto muito porque ele é muito detalhista”, reclama. Com relação à história de Iracema, o jovem diz fazer lembrar a subserviência “não só do cearense, mas do brasileiro também diante do estrangeiro. As pessoas ficam deslumbradas como se fossem de outro mundo”.

Escritor eleva a cultura nacional

O romance “Iracema - Lenda do Ceará” escrito, em 1865, por José de Alencar, um dos representantes do romantismo brasileiro, movimento que traz no seu bojo a idéia de nação, não apenas aqui, mas também na Europa, elege o índio como o elemento autóctone e tece a construção de um mito não apenas do Brasil, mas da América. O livro narra a história de amor, um dos ingredientes da escola romântica, entre a índia tabajara e o colonizador português, Martim Soares Moreno, conhecido como guerreiro branco.

Depois de se apaixonar por Martim, de quem fica grávida, e trair o seu povo, ao abandonar sua tribo e se entregar ao colonizador tem um final trágico: morre de saudade do amado, que decide voltar para Portugal onde encontraria a sua noiva casta, como destaca o pensador Renato Janine Ribeiro, no artigo “Iracema ou a Fundação do Brasil”.

Ao se referir a Alencar, diz, “temos, assim, o nosso mais destacado escritor romântico rodeando a identidade do continente, até chegar a um termo que teria enorme e fecundo destino: o de marcar e legitimar - o encontro que deu início a nossa nacionalidade”.

Conforme Renato Janine, “o romance, assim, embora tenha por título o nome da virgem dos lábios de mel, funda, no absoluto de seu amor, a invasão e a conquista da América”. José de Alencar, homem que pensou além do seu tempo, soube usar com inteligência e sensibilidade, elementos do romantismo.

O movimento nasceu no final do século XVIII, tendo seu apogeu no final do século XIX e foi usado como o fio condutor para construir uma identidade nacional, a partir do indígena brasileiro, considerado o elemento natural da Terra Brasilis. Sem perder de vista a questão da identidade nacional, Alencar incorpora elementos do amor romântico, surgido na mesma época, na Europa ocidental, mas de uma forma bem particular.

Em Iracema, quem seduz é a mulher, uma índia, representando o instinto, a paixão; enquanto o guerreiro branco, retratado pela civilização, no caso, ocidental e européia. Os românticos pregavam a volta do homem ao seu estágio primitivo, adotando como um dos caminhos, a paixão ou o amor.

Alencar demonstrou isso em Iracema e também no “Guarani”, escrito em 1857, ao fazer referência ao bom selvagem, descrito por Rousseau. Com Iracema, Alencar escreve um dos primeiros romances a inaugurar o romantismo no País. De acordo com o crítico Bernardo Ricupero, “assim como o romantismo europeu, o latino-americano é principalmente uma reação ao fim do Antigo Regime”, isto é, enquanto na Europa a sociedade se despede do regime feudal, na América é a vida colonial que está com os seus dias contados.

A Europa desperta para o sentimento de nação e cria os seus estados. Por isso, Bernardo Ricupero defende que o romantismo caminha lado a lado com a idéia de nação também no Brasil, que saía da condição de colônia. A literatura romântica enalteceu os elementos da cultura nativa e criou mitos próprios, elevando o índio.

‘Bom selvagem’ cearense

Alguns críticos atribuem que Alencar buscou inspiração no “bom selvagem” de Rousseau para criar personagens como Iracema, a virgem dos lábios de mel, incorporando mais um mito do amor romântico. A mesma concepção de indígena foi adotada em de “O Guarani” (1857), romance que inspirou o compositor Carlos Gomes a criar uma ópera baseada no romance de Alencar, que estreou em 1870, no Teatro Alla Scala de Milão. Na criação poética de Alencar, autor conhecido por suas contradições, o índio Peri é enamorado de Ceci, moça portuguesa. Estava lançado mais um amor impossível, assim como em Iracema.

De olho na formação da consciência nacional, os românticos brasileiros fogem das criações românticas européias, baseadas em figuras e cenas medievais. E Alencar abre o caminho, se enveredando por matas e transformando índios em protagonistas de histórias de amor. Idealizou índios fortes mas, à primeira vista, dóceis, como Iracema e Peri. Para alguns, eram frágeis e servis.

Iracema, depois de esboçar um gesto de reação contra a entrada do estrangeiro, no sentido de ser desconhecido, nas terras cearenses, atirando-lhe uma lança contra o guerreiro branco, surge a paixão. O mesmo acontece com Peri que se torna escravo de sua amada. De acordo com o crítico Alfredo Bosi, na obra Dialética da Civilização, “o índio de Alencar entra em íntima comunhão com o colonizador”.

O autor considera paradoxal Iracema ser um dos fundadores do romance nacional. Para Bosi, “Peri é, literal e voluntariamente, escravo de Ceci, a quem venera como sua Iara, e vassalo fidelíssimo de dom Antônio”. Chama a atenção para o desfecho do romance, representado por uma catástrofe. Mesmo nesta situação, o fidalgo (colonizador) batiza o indígena, dando a ele o seu próprio nome, condição julgada pelo colonizador necessária para um selvagem poder salvar a sua filha da morte.

De acordo com Bosi, “a conversão, acompanhada de mudança de nome, ocorre igualmente com o índio Poti, de Iracema, batizado como Antônio Felipe Camarão, o futuro herói da resistência dos holandeses. Arnaldo, o sósia rústico de Peri, de O Sertanejo, é agraciado com o nome do capitão-mor”.

Com Peri e Ceci a história se repete, mostrando um caráter de subserviência dos índios alencarinos. “Nas histórias de Peri e de Iracema a entrega do índio ao branco é incondicional, faz-se de corpo e alma, implicando sacrifício e abandono da sua pertença à tribo de origem. Uma partida sem retorno”, observa.

Segundo Bosi, Machado de Assis escreveu sobre Iracema logo que saiu o romance: “Não resiste, nem indaga: desde que os olhos de Martim se trocaram com os seus, a moça curvou a caberá àquela doce escravidão”. Ela se resigna e aceita a morte como se fosse o seu destino. Ou seja, pagou com a vida o amor proibido, já que Martim não casou com Iracema.

Isso faz com que o autor enxergue “a existência de um complexo sacrificial na mitologia romântica de Alencar”, levando a crer que “a nobreza dos fracos só se conquista pelo sacrifício de suas vidas”.

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