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Mergulho no mal absoluto

Estreia da Netflix desta semana, a série "Mindhunter" devassa a temática do "assassino em série" e narra toda uma investigação sobre a obscura mente desses abomináveis seres

00:00 · 12.10.2017 por Antonio Laudenir - Repórter

Durante as entrevistas concedidas nas últimas décadas de carreira, era comum Alfred Hitchcock (1899-1980) ser questionado sobre o modo como construía os vilões de seus filmes. Icônicos nas telonas, esses personagens eram capazes de cometer cruéis assassinatos sem o menor tipo de remorso. Para elaborar um exemplo máximo, vale apontar o gentil e educado Norman Bates, do irretocável "Psicose" (1960).

Diferente dos monstros da literatura, onde vampiros, lobisomens e outras criaturas peçonhentas tocavam o terror, as crias de Hitch eram pessoas comuns do cotidiano onde estavam inseridos. Na maioria dos casos, gente com admirável erudição e alto poder de sedução. Das muitas respostas, o mestre inglês comentava que ninguém daria atenção ou espaço a um ser fisicamente horrendo. Daí, a facilidade destes assassinos de atrair as vítimas e concretizar seus planos.

Na próxima sexta-feira (13), o tema do "assassino em série" retorna com tudo ao universo do entretenimento com a estreia da série "Mindhunter". Todos os 10 episódios da primeira temporada serão disponibilizados nesta data, pelo serviço de streaming Netflix.

A produção é baseada no livro "Mind Hunter: Inside the FBI's Elite Serial Crime Unit", lançado em 1996 pelos ex-agentes John Douglas e Mark Olshaker. De acordo com as poucas informações da sinopse, a obra irá focar nos anos que Douglas passou perseguindo serial killers e estupradores, traçando detalhadamente seus perfis para, dessa forma, conseguir prever seus próximos passos.

A atração narra o envolvimento entre os investigadores e a mente de diferentes maníacos dos Estados Unidos, criminosos responsáveis à época por casos emblemáticos que estamparam noticiários no mundo todo. Os acontecimentos de "Mindhunter" se passam em 1979 e terão os atores Holt McCallany ("Caça aos Gângsteres") como Bill Tench e Jonathan Groff ("Sniper Americano") no papel de Holden Ford. Ambos vivem os agentes que interrogam assassinos para resolver diversos casos de homicídio.

Grife

Se existe um nome por detrás da existência de "Mindhunter" que chama atenção logo de cara é o de David Fincher. Além de dirigir quatro episódios (o restante ficou por conta dos diretores Andrew Douglas e Asif Kapadia), o cineasta responsável por "Seven: Os Sete Crimes Capitais (1995), "Clube da Luta" (1999) e "Zodíaco" (2007) assina a produção executiva ao lado de Joshua Donen ("Garota Exemplar"), Cean Chaffing ("Clube da Luta") e Charlize Theron ("Mad Max: Estrada da Fúria"). Fincher retorna a um tema familiar em sua filmografia. Uma espécie de grife que o catapultou em Hollywood.

Em entrevista ao Collider, o realizador explicou que uma linha muito fina separa "caçadores" dos "caçados". Para o cineasta, "Mindhunter" surge então como uma oportunidade de desfazer o clichê do "assassino intelectual", caso do popular Hannibal Lecter e até mesmo da própria criação de Fincher, o perigoso John Doe (Kevin Spacey), de "Seven - Os Sete Crimes Capitais".

Nessa esteira, interessa de maneira pontual a Fincher vasculhar a origem de tanto fascínio na sociedade por estas mentes tão deturpadas. "Realmente pensei que era hora de fazer isso. O motivo pelo qual estamos fascinados com eles é porque não somos nada como eles. Eles são insondáveis", defendeu o diretor.

Nascimento

Toda esta comoção pela figura do "serial killer" existiria desde 1880, quando Jack, o Estripador, matou covardemente uma série de prostitutas em Londres e escapou sem jamais ter a identidade descoberta. A exposição constante destes assassinos nos noticiários alimentou diferentes mídias ao longo do tempo. Literatura, cinema, música e seriados de TV buscaram retratar estes crimes e adentrar as motivações para tanta violência.

O assunto é complexo e rende necessário debate. Em terras ianques, onde casos reais integram praticamente o inconsciente coletivo, uma lei federal de 1998 explica que o termo "serial killer" representa "uma série de três ou mais assassinatos em que ao menos um tenha sido cometido nos Estados Unidos, e que tenham características parecidas que sugiram a possibilidade de os crimes terem sido cometidos pela mesma pessoa ou grupo".

Somando cerca de 5% da população mundial, os Estados Unidos produziram 84% de todos os casos conhecidos de serial killers desde os anos 1980. Seres reais como Ed Gein, responsável por roubar inúmeros cadáveres e assassinar pelo menos duas pessoas, inspirou de uma vez só os fictícios Leatherface, de "O Massacre da Serra Elétrica", Bufallo Bill, de "O Silêncio dos Inocentes", e o já citado Norman Bates, de "Psicose"

Além de Ed Gein, a galeria de personagens sinistros inclui o canibal Jeffrey Dahmer, que chegou a matar e devorar uma pessoa por semana no verão de 1991; a ex-prostituta Aillen Wuornos (inspiração para o filme "Monster"), o assassino Zodíaco (cuja identidade é desconhecida até hoje); Charles Manson, o lunático que comandou o assassinato da atriz Sharon Tate em um ritual macabro, e "Green River Killer", principal assassino de prostitutas da história, só capturado pela polícia com a ajuda de outro assassino.

O novo trabalho de Fincher tem a missão de adentrar um corredor pantanoso. Lança o propósito de desvendar não somente a psique destes marginais, mas também de traçar os limites entre realidade, ficção e entretenimento. Casos recentes como o do zelador brasileiro que ateou fogo nele mesmo e nas crianças da escola onde trabalhava e do atirador de Las Vegas somam histórias fatídicas e doloridas.

No seio de uma sociedade cada vez mais preocupada em manter intactos os ideais da "família tradicional", "Mindhunter" acertaria ao discutir como o mal, de certa forma, seria um espelho de nós mesmos. A diferença pode ser pequena - um horror atroz.

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