Ensaio

Memória e infância nos romances de Milton Hatoum

Milton Hatoum é uma das maiores expressões da literatura brasileira contemporânea

00:00 · 05.10.2014

Autor de 3 romances - Relato de um certo oriente (1990), Dois irmãos (2000), Cinzas do norte (2005) -, de uma novela - Órfãos do Eldorado (2008); de um livro de contos - A cidade ilhada (2009) e um de crônicas - Um solitário à espreita (2013) - Milton Hatoum se afirma no cenário das letras com uma obra essencialmente memorialista. Seu universo ficcional tem como microcosmo a cidade de Manaus, um lugar subjetivo, de chegadas e partidas, nunca de permanência, a não ser como espaço de memória, de apego ao que foi e não mais pode ser, mas fica para sempre.

De acordo com Antônio Candido (2002), toda obra literária é construída a partir da memória, da observação ou da imaginação. Nas obras de Milton Hatoum, especificamente, todas as tramas se constroem essencialmente a partir da memória. Seus personagens são seres completos, pois, além do presente, têm sempre um passado recuperado no relato, seja pelas próprias lembranças, seja pelas reminiscências de um narrador onisciente que o evoca as suas recordações. Sylvia Telarolli (2007) assegura que (Texto I)

Memória e infância

Trata-se, pois de uma memória coletiva, sobre a qual assim disserta Halbwachs (1925, apud STOETZEL, 1976, p. 133-134): (Texto II)

Por meio dessa estratégia, os personagens de Hatoum são moldados em sua busca pela identidade. Mostraremos, neste artigo, como a memória perpassa as narrativas do autor e como a recuperação da infância, por meio dela, justifica o comportamento desajustado dos seus personagens na fase adulta em dois dos seus romances: Dois irmãos e Cinzas do Norte.

Em Relato de um certo Oriente, a narradora, uma mulher que, após 20 anos distante, volta de Paris à terra natal para reconstruir suas origens e buscar sua identidade, faz um relato (de 8 capítulos) em forma de carta ao irmão, tecendo o universo dos imigrantes de origem árabe, conflitos interiores, encontros e desencontros. Ela chega a Manaus na véspera da morte de sua mãe adotiva, Emilie, e esse fato ajuda a tecer seu caminho de volta ao passado, com o resgate das memórias do filho mais velho de Emilie, Emir, o único que conserva a cultura árabe, e vive isolado da família; de Dorner, fotógrafo alemão e grande amigo da família; e da amiga de Emilie, Hindié Conceição. São muitas as vozes que compõem essa narrativa e recuperam as histórias que se cruzam, entrelaçam-se e terminam por se completar.

Dois irmãos é também uma narrativa em primeira pessoa, dessa vez, feita por um personagem secundário, Nael, filho da empregada de uma casa de descendentes árabes. Em busca de sua origem, ele investiga sua paternidade ao contar a história da família de Halim, Zana, Yaqub, Omar e Rânia, expondo a rivalidade entre os irmãos gêmeos, bem como as relações conflituosas pautadas por rejeição e insinuações de incesto.

História e mito

Em Órfãos do Eldorado, há a combinação de história e mito, ficção e fábula, lenda e verdade. A narração é feita por Arminto Cordovil que, velho e sozinho, às margens do rio Amazonas, relata a um viajante a trajetória de sua própria vida, que começa marcada pela morte da mãe. Recriminado pelo pai e único herdeiro de uma família rica, ele é criado por Florita, que o aproxima dos índios, seus vizinhos. Desde criança, ele escuta as histórias fantásticas daquele povo e se desvincula da sua própria família.

Ele se apaixona por Dinaura, uma menina criada pelas freiras carmelitas, cuja história guarda um segredo.

Já o enredo de Cinzas do norte se passa entre os primeiros anos do Golpe Militar de 1964 até a abertura democrática dos anos 1980. Transcorre na capital amazonense, com passagens pelo Rio de Janeiro e Londres, e não traz nenhuma digressão acerca de descendências árabes. É também um relato memorialístico em três vozes - a de Lavo, o narrador da maior parte do texto; a de Ranulfo, que intercala seus relatos aos escritos do sobrinho e, por fim, uma carta de Mundo revelando seu segredo já nos momentos finais de sua vida. A história contrapõe duas famílias, uma rica e a outra pobre. Delineia-se, nesse painel, um arsenal de personagens completos e incompletos em suas formas ficcionais: Mundo, ou Raimundo, sonha ser artista plástico, é apaixonado por desenho desde pequeno e não faz conta de educação formal. Ele vive em conflito com Jano, seu pai, um ricaço português, amigo dos militares, que não aceita que o filho troque os negócios da família pela arte. Ranulfo é o típico boêmio que não se submete a patrão, vive a paixão clandestina com Alícia, mãe de Mundo, que trocou o namorado pobre pelo dinheiro e pelo status de Jano. Ramira é costureira, vive em desavença com o irmão e ajuda a criar o sobrinho a partir da morte dos pais dele num naufrágio. Arana é o artista oportunista; e Lavo, o amigo pobre, mas sensato, forma-se advogado e vive uma vida acomodada, sem ambições.

Trechos

TEXTO I

O autor associa no percurso das personagens a  abordagem de traços definidos por sua feição individual, mas também forjados por características que brotam  da vivência coletiva, seja do universo manauara, seja  das origens vinculadas ao universo cultural do imigrante árabe.

TEXTO II

Os homens, que vivem em sociedade, usam palavras, cujo sentido compreendem: é a condição do pensamento coletivo. Ora, cada palavra (compreendida) se faz acompanhar de lembranças; e não há lembranças a que não pudéssemos fazer corresponder palavras. Nós falamos nossas lembranças antes de evocá-las; é a linguagem, e é todo o sistema das convenções sociais com ela solidário, que nos permite, a cada instante, reconstruir o nosso passado.

Aíla Sampaio
*Poetisa e professora da Unifor
Especial para o ler

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