Biografia

Melodias de um malandro

Pesquisador da MPB, José Ramos Tinhorão lança ensaio biográfico sobre a vida e obra do sambista Ismael Silva

O sambista Ismael Silva: na malandragem, ele encontrou seus parceiros, com quem modernizaria o samba e fundaria, em 1929, a primeira escola de samba, Deixa Falar
00:00 · 12.08.2017 por Leonardo Cazes - Agência O Globo

Em 1950, já fazia mais de uma década que o cantor e compositor Ismael Silva (1905-1978) tinha vivido o seu auge. Esquecido, ele reapareceu com "Antonico", um samba gravado por Gilberto Alves que se tornou estrondoso sucesso e foi regravado nas décadas seguintes por artistas como Gal Costa e Elza Soares.

Nos versos, Nestor "está vivendo em grande dificuldade/ Ele está mesmo dançando na corda bamba". Apesar de Ismael ter sempre negado o caráter autobiográfico da canção, o crítico José Ramos Tinhorão é taxativo: "Ele é o Nestor da letra dele, que está vivendo em dificuldade. 'Ele é aquele que na escola de samba toca cuíca, surdo e tamborim'", cantarola Tinhorão, por telefone, de São Paulo, onde mora. "É uma autobiografia disfarçada. Um canto de cisne quando ele já estava completamente desligado de tudo", completa.

Um dos mais importantes pesquisadores da música popular brasileira, Tinhorão, que completará 90 anos em 2018, acaba de publicar um ensaio - que descreve como um "esboço biográfico" - inédito sobre Ismael na coletânea "Música e cultura popular" (Editora 34), que reúne textos seus escritos nas últimas quatro décadas.

"Breve história de um grande compositor chamado Ismael Silva" data da década de 1970 e foi alimentado pela convivência de Tinhorão com o próprio sambista na casa da família Franceschi no Rio de Janeiro, na virada das décadas de 1940 e 1950, o mesmo período em que "Antonico" foi lançado.

Na época, o casarão no número 130 da Rua da Passagem, em Botafogo, era ponto de encontro de jornalistas, intelectuais e sambistas. Humberto Franceschi, amigo de Tinhorão, era neto do folclorista Mello Moraes, primo de Vinicius de Moraes e dono de uma invejável coleção de discos de música brasileira - hoje pertencente ao Instituto Moreira Salles (IMS), que também detém o acervo de Tinhorão.

Nas madrugadas de boemia, o crítico aproveitava para puxar assunto com Ismael e, informalmente, descobrir pormenores da infância e da juventude do compositor no bairro do Estácio. "A casa era um ponto de reunião. Não tinha nem chave, entrava quem queria, uma coisa muito carioca. Era uma esculhambação, às vezes o jantar saía à uma da manhã", lembra Tinhorão.

"Conheci o Ismael através do Humberto. Eu conhecia muito a obra dele e tinha grande admiração. Essas coisas que conto no livro ele me contou nas nossas conversas, não foram entrevistas. Posteriormente, fui descobrindo outras coisas também".

Causos

Entre os achados de Tinhorão, narrados no esboço biográfico, está a curiosa história da entrada de Ismael Silva na escola. Nascido em Jurujuba, em Niterói, o sambista se mudou com a família para o bairro do Estácio aos 3 anos. Aos 7, começou a perguntar para a mãe, Dona Emília, quando começaria seus estudos no colégio. Dona Emília desconversava. Ismael era muito novo para ir à escola sozinho, e ela não podia parar o trabalho para levá-lo e buscá-lo.

Assim, aos 8 anos, o garoto decidiu ir à pé até a Rua do Bispo, no Rio Comprido, procurou pessoalmente a diretora, Dona Celuta, e pediu para frequentar as aulas. A diretora, impressionada, chamou a mãe de Ismael, e o menino saiu dali já matriculado. Dona Celuta se afeiçoou ao novo aluno e colaborou decisivamente para que ele continuasse os estudos apesar da pobreza.

Terminado o primário, Tinhorão conta que Ismael brilhou também no catecismo no Seminário do Rio Comprido, onde foi aluno. Foi na igreja do Catumbi, bairro para onde a família tinha se mudado, que o adolescente travou contato com o samba e os bambas da região. O padre promovia quermesses para arrecadar fundos para a paróquia, mas era comum que as festas se transformassem em verdadeiras feiras ao ar livre.

Tinhorão destaca que a região onde Ismael cresceu, entre o Estácio, Catumbi e arredores da Praça XI, foi o lugar de coincidência de dois fenômenos sociais decorrentes do deslocamento das camadas mais pobres da cidade do Centro para a Zona Norte: a ocupação do morro de São Carlos e a proximidade com a zona de prostituição nos limites do Canal do Mangue.

Essa circunstância permitiu o surgimento da figura de um tipo particular de frequentadores de botequins no Largo do Estácio, desempregados crônicos que se reuniam à tarde para jogar cartas, dados, tocar, cantar ou, ainda, "administrar seus interesses na área da prostituição", nas palavras de Tinhorão. Foi a esse grupo, depois genericamente chamado de malandros, que Ismael se integrou.

"O Estácio congregava uma coisa que era nova no Rio de Janeiro, esse sentido moderno de malandragem. No processo capitalista, nem todo mundo tem possibilidade de emprego fixo. O Ismael viveu durante um certo tempo de jogo de chapinha (em que escondia uma bolinha de miolo de pão em uma de cinco chapinhas e pessoa tinha que acertar qual). Ele fazia isso no Corcovado, onde tem muito turista. Foi o malandro típico do Rio da década de 1930".

Na malandragem, Ismael encontrou seus parceiros, com quem modernizaria o samba - abandonando o seu estilo amaxixado - e fundaria, em 1929, a primeira escola de samba, Deixa Falar.

Sobre a estreia da agremiação, o pesquisador narra um episódio curioso. A turma formada por nomes como Rubens, Bide, Brancura, Edgar, além do próprio Ismael, era muito visada pela polícia. Para garantir o seu primeiro desfile, na Praça XI, chamaram a cavalaria da Polícia Militar para desfilar à frente do grupo e, assim, evitar problemas.

"Conseguiram uns cavalarianos para ir à frente do desfile. Ninguém ia achar que era coisa de malandro. Era uma cobertura oficial para um clube de marginais organizados", diz Tinhorão.

Prisão

Outro episódio obscuro da vida de Ismael de que o pesquisador trata é a sua prisão, em 1935, no auge do seu sucesso como compositor. O sambista feriu a bala uma pessoa, que supostamente teria atentado sexualmente contra uma de suas irmãs. Numa outra versão, o próprio Ismael teria atirado em alguém que o acusara de ter assediado uma irmã sua. O fato é que o sambista foi condenado, só deixou o cárcere em 1937 e não reencontrou seus dois principais parceiros: Nilton Bastos morreu quando Ismael estava na prisão, e Noel Rosa já estava condenado pela tuberculose.

O cantor Francisco Alves, responsável por gravar seus maiores sucessos nos anos 1930, já encontrara outros compositores. Sem parceiro e sem lugar na indústria do disco, só reviveria as glórias com "Antonico", para em seguida submergir outra vez.

Fique por dentro

Olhar de jornalista e sociólogo

José Ramos Tinhorão sempre pensou politicamente a música popular. Sendo política, essa coerência, mantida por mais de cinco décadas, já lhe valeu a zanga de críticos que não aceitam o olhar sociológico do jornalista sobre a cultura. Mas valeu também a admiração e o respeito dos que lhe conhecem a obra (28 livros publicados, a maior parte dedicada à música popular). O vigésimo oitavo, "Música e cultura popular - Vários escritos sobre um tema comum", é um pequeno volume, com menos de 200 páginas, reunindo 16 artigos, alguns inéditos, que dizem bem do conhecimento, do estilo e, sobretudo, da coerência do autor. O estilo é inconfundível. Sucinto, direto, informativo, como dos melhores redatores de jornal, e fundamentado com clareza, como todo cientista social deveria escrever para o leitor comum. Eventualmente, como é do gosto de Tinhorão, o texto transforma-se em impiedoso disparo contra um artista, uma música, um gênero, como no capítulo da afirmação de que "country brasileiro é Jeca Tatu vestido de caubói". Alguns de seus temas favoritos estão presentes: política, jornalismo e invasão cultural no Brasil, o popular e o folclórico, o fado, Mário de Andrade e o disco, a mulher e o trabalho na canção brasileira, o choro, o samba dos terreiros aos de enredo. Mas nenhum é tão atraente para o estudioso da música popular como o dedicado ao "grande compositor chamado Ismael Silva", escrito nos anos 1970 e até agora inédito. Pena que, por razões éticas (as informações não foram colhidas em entrevistas, mas em contatos eventuais com o personagem), esse breve ensaio biográfico não tenha sido publicado na ocasião. Ou seja, com Ismael Silva ainda vivo. Nada até então - e mesmo depois - foi tão esclarecedor da complexa personalidade e do formidável talento do negro pobre que morreria esquecido em meio à própria glória. Ismael Silva e a música do seu tempo, sua importância na criação do samba do Estácio, suas obras-primas e seus tropeços, são tratados por Tinhorão com a sensibilidade que Ismael Silva merece. Por mais conhecida que a história já seja, há 40 anos a gênese do samba "Antonico' é drama que faria o leitor chorar. Hoje, ainda emociona.

(João Máximo/ Agência O Globo)

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