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Medonho consumo

Apostando em diversas abordagens, produções culturais põem em relevo elementos caros ao Halloween

00:00 · 29.10.2016
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O maníaco Mike Myers, da série de cinema "Halloween": o pop cultura vidrado na cultura do medo

Um dos grandes diferenciais do Halloween - se comparado com outras demais datas comemorativas do ano - é o seu poder de tornar afetuosa a presença de elementos que historicamente ficam à margem, especialmente no que toca à produção cultural.

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No lugar de idílicos lugares como ambientações de histórias, cenários com atmosferas obscuras e sinistras; em contraposição a personagens que beiram a perfeição, figuras loucas e com um apurado senso de destruição; em vez de narrativas suaves, um show de horrores, com direito - em muitos casos - a indigestas situações.

Tais elementos - à medida que a data foi percebida como um celeiro de boas histórias -, ganharam a cultura pop, alimentando, em realizadores, escritores e artistas dos mais diversos, o gosto por retratar o grotesco em seus trabalhos, conferindo leituras tanto clássicas como contemporâneas à mitologia criada. Trata-se, portanto, de um ofício de aproveitamento da capacidade da temática de se reinventar a partir de diferentes olhares.

Cinema

Na seara da sétima arte, um amplo leque de abordagens sobre elementos maiúsculos do Dia das Bruxas tem-se desenvolvido em grande escala com o passar dos anos. Desde obras canônicas do horror a filmes de maior apelo comercial, o diálogo com o sombrio permanece irretocável.

Entre os mais destacados nomes na condução dessa conversa com o funesto está o diretor norte-americano George A. Romero, responsável por, entre outros trabalhos, uma série de filmes que priorizam a representação do modo de agir dos mortos-vivos. "A Noite dos Mortos-Vivos" (1968), "O Despertar dos Mortos-Vivos" (1978) e "Dia dos Mortos" (1985) são produções que entraram para a história do cinema como um exemplo bem-sucedido de recorte da temática.

Wes Craven (1939 - 2015) também fincou seu nome na indústria da produção audiovisual de horror com as famosas franquias "Pânico" e "A Hora do Pesadelo", esta contando a história do psicopata assassino de crianças Freddy Krueger e aquela revelando ao mundo o misterioso Ghostface.

"Halloween - A Noite do Terror" é outra clássica série de filmes que aproxima o espectador das pirotecnias surreais da nefasta data. Desenvolvida por John Carpenter e também contando com diferentes realizadores na condução das sequências, a saga rendeu dez obras no total.

Outra longa série de filmes de terror americano foi criada pelo diretor Sean S. Cunninghan e já conta com 12 películas. "Sexta-feira 13" foi a responsável por aclamar Jason Voorhees como um dos maiores vilões da sétima arte e segue na ativa: um novo lançamento da franquia deve acontecer no próximo ano.

Contemporâneo

Nos últimos anos, o que se observa no audiovisual é uma maior aproximação com o público através de trabalhos que investem em uma abordagem mais realista, ao contrário de estéticas mais antigas que adotavam o trash como bandeira-mestra na condução dos roteiros. O realismo ora trabalha o medo com sutileza, ora de maneira explicita.

"A Bruxa de Blair" (1999), "Arraste-me para o inferno" (2009), "Invocação do Mal" (2013), "Poltergeist - O Fenômeno" (2015) e o controverso "A Bruxa" (2016) são alguns bons exemplos de realizações com uma pegada mais sublime de terror (mas não menos apavorante).

Ao mesmo tempo, "A Noiva Cadáver" (2005), "Coraline e o Mundo Secreto" (2009), "Hotel Transilvânia" (2012) e "Malévola" (2014), conseguem transpor, para a telona, aspectos diferenciados dos recortes outrora apresentados pelo assunto, primando sobretudo pelo fantástico.

Já no gênero comédia, são os filmes de bruxa que mais ganham adaptações. "As Bruxas de Eastwick" (1987), "Elvira - A Rainha das Trevas" (1988), "Convenção das Bruxas" (1990) e "Abracadabra" (1993) garantem, por exemplo, boas doses de humor com pitadas medonhas de pecado sobrenatural.

TV

Uma das mais recentes empreitadas do Netflix - "Stranger Things" (2016) - não é a única série que estabelece um paralelo com o clima de Halloween. Tanto no serviço de streaming como na televisão paga, uma interessante gama de programas também imprimem força à temática.

"Buffy - A Caça-Vampiros" consegue se destacar nessa seara, o que a fez ganhar, com o tempo, o status de cult. Criada em 1997 por Joss Whedon, a série retrata a vida de mulheres conhecidas como Caçadoras, escolhidas pelo destino para a batalha contra demônios e outras forças das trevas.

Na TV inglesa, "Psychoville", da BBC Two, conseguiu ser aclamada com apenas duas temporadas e um especial de Halloween. O motivo: doses certeiras de humor negro, terror e personagens freak, tais como um palhaço, um anão e mãe e filho assassinos seriais.

No circuito geral - abocanhando uma parcela mais jovem-adulta de consumo - tem-se ainda as temporadas Murder House, Coven e Roanoke de "American Horror Story" (2011), bem como as séries "Bates Motel" (2013), "Salem" (2014), "Scream" (2011) e "Sleepy Hollow" (2013).

A badalada "The Walkind Dead" (2010) e "Witches of East End" (2013) também não fogem da proposta, aumentando olhares fanáticos para seus personagens e tramas.

Literatura

Falando-se de produções literárias, a miscelânea de escritores é vasta. De Stephen King ("O Iluminado", "Carrie, a estranha") a H.P. Lovecraft ("A sombra de Innsmouth", "O Horror de Dunwich") , passando por Edgar Allan Poe ("Assassinatos na Rua Morgue" e "O Coração Revelador") e Bram Stoker (com seu "Drácula"), é nas entrelinhas imaginativas dos literatos que o horror vai ganhando espaço e valor.

Um pouco mais distantes desses nomes mais consagrados, tem-se ainda David Seltzer, com seu pavoroso "A Profecia", uma história sobre Damien Thorn e suas descrições sobre ser criança, dos aspectos mais banais aos mais sinistros; Jay Anson e seu livro "Horror em Amytiville", clássica narrativa sobre uma casa mal-assombrada; e o novato Scott Smith, apontado por Stephen King como um dos mais promissores nomes na área a partir da obra "As Ruínas", considerado um temível estudo sobre a psique humana.

No Brasil - ainda que o gênero seja menos explorado - o paulista Alfer Medeiros, autor do livro sobre lobisomens "Fúria Lupina", é um dos destaques, acompanhado de Adriano Siqueira ("Adorável Noite!"), Samila Lages (macapaense participante da antologia "Sinistro! 2" com o conto "A Canção do Carrasco") e M. D. Amado, com sua obra "Aos olhos da morte".

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